Após um período de verão outonal, o sol, contrariando os prognósticos da continuidade de chuvas intermitentes, acorda radioso neste domingo e, com ele, algumas dezenas de borboletas deixam seus casulos e esvoaçam pela manhã típica da estação.

Para mim esse astro traidor chegou tarde, pois como diz o Livro da Sabedoria – para tudo há um tempo certo e agora é tempo de voltar, de deixar o ócio, o frescor da brisa oceânica, do ‘desaprontar a rede’, essa nossa cama suspensa, fiel à anatomia do corpo, acompanhada do seu ‘chiado’, do nhém, nhém, nhém que acusa a falta de lubrificação dos armadores, assunto bem desenvolvido por Pedro Simões, quando em seu opúsculo “Caiu na Rede” faz a aplogia desse instrumento de descanso.

Despeço-me da minha varanda, parceira das manhãs sonoras do cantar dos passarinhos; abrigo das minhas leituras; lugar das minhas contemplações do infinito, da lua radiante deste final de janeiro; do silêncio reflexivo da vida e das coisas maiores; das visitas diárias dos colibrís em busca do alimento do jardim da casa.

Do cajueiro já não encontro frutos pendentes!

Nesse findar de veraneio – o mais curto que já passei – deixo marcados os ensinamentos recolhidos das leituras; as descobertas de valores, como o Paradigma Meira e Sá, obra também de Pedro Simões Neto; dos poetas que já registrei em cartas anteriores; do ensaio sociológico de Racine Santos na sua obra “Farsa do Poder”, cujas bodas de prata de encenação não a tornaram ultrapassada, pois continuam a existir o Dr. Hugo, Delegados, Ferreirinhas e Tabeliães que ainda praticam a prepotência, a enganação e a farsa administrativa, embora as Malvas Rosas ou Das Dores, nem tanto.

Não descurei do deleite de tirar o sarro nas glosas fesceninas de Francisco Macedo.

Num balanço da temporada registro outros fatos verificados: o Circo da Folia foi mais manso; a Prefeitura de Parnamirim cuidou bem da limpeza pública de Cotovelo; a feirinha de Pium, sempre sortida e as mercearias e padarias atenderam à altura da demanda; o barulho teve algum controle.

Em contrário, ainda não ligaram a rede de esgôto e a poluição das águas continua pondo a população em perigo. Também não houve qualquer procedimento para resolver o alagamento existente na frente do estádio do ABC – até quandoooooo!

Lamento afirmar que o romantismo dos veraneios está de mudança, ameaçado pelos mega empreendimentos imobiliários. O bucolismo já revoou para outros espaços.

Que saudade do Recanto do Garcia, de Zé e Zélia, de Regina, das grandes noitadas como aquela com Fafá de Belém – dele restou apenas o seu antigo garçon Tarcísio (a quem chamamos de Roberto Carlos), que instalou em Pium uma distribuidora de bebidas.

Sei não! Está ficando difícil continuar em Cotovelo. Vamos esperar alguma providência em 2011 para ver se o veraneio nessa tão querida praia permitirá o prazer de uma convivência saudável e feliz, capaz de conceder moratória às canseiras e recuperar as forças para as batalhas do dia a dia no ano que começa – ou se é chegado outro tempo – o de partir de vez.

“Terminou, tudo terminou, foi final.

O nosso amor acabou,

Mas não fiquemos de mal.” (Trecho de canção que fiz no tempo de roedeira)

Será ????!!!!

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* Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor/veranista.