Por ORMUZ BARBALHO SIMONETTI

(Relato do percurso entre as praias de Pipa/RN e Canoa Quebrada/CE)

Estava iniciando meu sexagésimo veraneio na praia da Pipa, quando recebi um convite inusitado: “- Ormuz, vamos fazer uma viagem até Fortaleza pela beira da Praia?”. Era o meu primo David Simonetti, companheiro de quase todos esses veraneios, que me propunha esse desafio. Nem parei para pensar. Respondi afirmativamente, pois sabia que se fosse avaliar o convite, jamais deixaria a Pipa no início do veraneio, para me aventurar em terras desconhecidas.

Sempre ouvia falar de pessoas que faziam essas trilhas e voltavam maravilhados com tudo que encontravam ao longo da viajem. Paisagens deslumbrantes, praias ainda livre da especulação imobiliária e completamente desertas. Durante o percurso pela beira das praias, muitas vezes habitadas por pequenas colônias de pescadores, encontramos barraquinhas de nativos que serviam comidas a base de peixe e frutos do mar. Outro fato interessante é o encontro com trilheiros que param nessas barracas e solidários, sempre se dispõem a ajudar aqueles que estão se iniciando nessa aventura. Se viajam em sentido contrário, indicam as melhores trilhas ou advertem acerca dos obstáculos que encontraram pelo caminho ou os que possam surgir. Tudo isso aliado a oportunidade de conhecer, palmo a palmo, o nosso litoral que, diga-se de passagem, é verdadeiramente lindo.

Saímos da Pipa no dia 10 de janeiro em direção a Natal onde no dia seguinte encontramos mais seis casais que seriam nossos companheiros de viagem. No dia combinado partimos da Praia dos Artistas ou Praia do Meio, e seguimos em comboio composto por três veículos: um Tracke, onde estávamos eu, David e nossas esposas e duas Mitsubishi Pajero, com os outros casais, todos equipados com tração 4×4. Para essa travessia é imprescindível esse tipo de veículo visto que, em vários trechos do percurso, sua transposição torna-se impossível caso o veículo não disponha desse equipamento de tração.

Seguimos em direção ao Norte, transpomos a majestosa ponte Newton Navarro que do alto, pode-se ver algumas praias do litoral Norte, a começar pela praia da Redinha. Nosso destino era a BR 101. Passamos ao largo das praias de Santa Rita, Genipabu, Barra do Rio, Grançandu, Jacumã, Muriú, Barra de Maxaranguape, Caraúbas, Maracajaú, Pititinga e Zumbi. Nossa primeira parada foi na Praia do Rio do Fogo, onde até então só tínhamos viajado em estradas asfaltadas. Antes de descer para a beira da praia, esvaziamos os pneus dos veículos mantendo uma calibragem em torno de 18 libras. Esse procedimento é adotado por todos os que se aventuram nesse tipo de terreno, para evitar o afundamento dos pneus quando as areias ficam mais soltas. A baixa calibragem aumenta a largura dos pneus, propiciando maior área de atrito com o terreno, facilitando assim seu deslocamento. Essa técnica é utilizada até mesmo em carros com tração comum o que facilita, sobremaneira, a passagem em locais muito arenosos.

Descemos na praia de Rio do Fogo e fomos até a praia de Peroba, onde fizemos uma parada para apreciar a beleza do lugar. Ao longe se avista um farol construído dentro do mar há pelo menos uns cinco quilômetros de distancia da praia. Um nativo nos informou que naquele local existem várias piscinas naturais formadas por bancos de corais, para onde os turistas são conduzidos em passeios de lanchas. Nas marés baixas todo esse local fica com menos de um metro de profundidade. As piscinas são cheias de vida marinha ainda totalmente preservada. Os visitantes, além de curtirem um banho no meio do oceano, são beneficiados com a exuberância da rica vida marinha dos recifes de corais.

Seguimos em frente, pois nosso destino era a praia de Galos onde iríamos pernoitar. Mas até lá, muitas surpresas agradáveis ainda nos aguardavam. Passamos pelas praias das Garças, Carnaubinha e chegamos à cidade-Praia de Touros. Subimos para o asfalto e novamente alcançamos a BR 101, que havíamos deixado quando descemos na praia de Rio do Fogo. Percorremos poucos quilômetros até chegarmos ao quilômetro zero da maior rodovia federal do país, também denominada translitorânea. A BR 101 tem exatos 4.542 quilômetros e depois de atravessar 12 estados, tem seu final na cidade de Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul. Seu nome oficial é Governador Mário Covas.

Do quilômetro zero podemos ver o farol de Touros também conhecido como farol do Calcanhar. É considerado o maior farol do Brasil com seus 62m de altura e 298 degraus. Na época de sua construção em 1912, foi considerado o segundo maior farol do mundo, construído em concreto armado. Sua construção teve início em 08 de abril e foi concluída em 21 de dezembro do mesmo ano.

Prosseguimos viagem e passamos pelas praias de Lagoa do Sal, Monte Alegre adentramos no município de São Miguel do Gostoso até chegarmos a Tourinho. O município localiza-se na esquina do continente sul-americano e podemos dizer que é onde literalmente “o vento faz a volta”. Por essa razão, suas praias são consideradas uma das melhores do Brasil para a prática de kitesurfe e windsurf, devido aos ventos fortes e constantes. É sem dúvidas uma das mais belas de todas que encontramos durante a viagem. Suas águas são limpas e calmas. Tem como uma das suas principais atrações, dunas fossilizadas com mais de 2.000 anos, que se projetam em direção ao mar. É realmente um deslumbre para o viajante que se surpreende a cada curva que acessa a próxima praia.

Fizemos algumas fotos e partimos em direção a Praia do Marco, também conhecida como Dunas do Vespúcio, em homenagem ao navegador Américo Vespúcio que integrou a Expedição de Gaspar de Lemos. A praia recebeu esse nome porque foi ali que em 1501, um ano após o descobrimento do Brasil, os portugueses que integravam essa expedição, colocaram o primeiro marco colonizador no Brasil. No local existe apenas uma réplica já que o original encontra-se na Fortaleza dos Reis Magos, em Natal.

A história desse Marco é pouco conhecida pela população em geral, apenas alguns historiadores e pesquisadores de nossa história tem esse conhecimento. Infelizmente esse é mais um dos vários fatos relevantes de nossa história tão rica e tão desconhecida. Essas informações são desprezadas e relegadas a planos inferiores por nossos educadores e autoridades da área educacional. Assim, vamos tendo muito mais ciência da história de outros estados e países, que da nossa própria história. Sinto-me profundamente triste quando vejo nossa história ser tratada dessa maneira.

O Instituto Histórico e Geográfico com seu rico e importante acervo, só é visitado por uns poucos e solitários pesquisadores e luta desesperadamente para não sucumbir à constante falta de recursos para sua manutenção, pois como sabemos, os recursos sempre são escassos quando se destinam a cultura. Isso sem contar que a maioria dos nossos estudantes não sabe nem mesmo o seu endereço. O mesmo acontece com nossas bibliotecas onde os livros apodrecem em estantes precárias e empoeiradas e de confusa organização. Basta o leitor visitar a biblioteca Câmara Cascudo para constatar mais esse fato lamentável.

Próxima matéria – continuação da viajem – dia 12/02 ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG, membro do IHGRN e da UBE-RN)

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