Horácio Paiva.

(E-mail: horacio_oliveira@uol.com.br)

O meu amigo Jaime conheci-o numa reunião festiva do Centro Paraibano, dirigido, em Natal, na década de 80, pelo bancário e advogado Agamenon Marques.

Sabendo de meu gosto pela literatura, teve o gesto amável de presentear-me com um volume dos “Cuentos de la Selva”, edição mexicana de 1985, do célebre escritor uruguaio Horacio Quiroga. Selou, assim, a amizade que se iniciava.

Convidei-o a ir, no domingo, à minha casa na calma enseada da Praia de Búzios, próxima a Natal.

Da varanda, víamos o mar. Mas neblinava, e a fina e tenra chuva que caía nos convidava ao recolhimento, à conversa serena e – por que não? – à degustação de uma acolhedora cachaça nordestina.

Naquele momento, revelava, assim, o dia, a sua harmonia e a sua paz, assemelhando-se àquele instantâneo paradisíaco, descrito por Nikos Kazantzákis, em “O Cristo Recrucificado”, quando o personagem identifica o paraíso no dia calmo, a chuva fina, a conversa mole na varanda e o degustar do narguilé.

Puxando conversa, e introduzindo o visitante na atmosfera de Búzios, lembro de um comentário inicial que fiz sobre o nome do lugar, advindo, segundo Câmara Cascudo (in “História do Rio Grande do Norte”), da grande quantidade de búzios ali antigamente encontrada, objeto, no século XVI, de um édito real, disciplinando a sua exploração, já que o marisco era usado como moeda de troca na África colonial portuguesa.

Da história, a conversa girou, em contraponto tempestuoso à paz daquele dia, para as velhas e violentas práticas da política interiorana, na primeira metade do século XX.

Dos relatos de meu amigo, um deles, pela singularidade, ainda o guardo na memória.

Jaime não lembrava os nomes dos figurantes e do lugar onde se deram os acontecimentos. Ou não os quis lembrar, provavelmente porque não havia ainda perdoado o tempo os fatos a seguir transcritos. Dessa forma, e não obstante a veracidade de sua história, utilizou nomes fictícios.

O Major Vicente Honório, através do grupo oligárquico que chefiava, exercia o controle político do município de Pedra Queimada há mais de vinte anos. Liderança que remontava à República Velha, mas que não vacilou em aderir ao novo poder que se consolidara no País, com a chamada Revolução de 30. Prática, aliás, comum aos velhos (e novos) “coronéis”, que, useiros e vezeiros das benesses do poder, não suportavam ver questionados e contrariados os seus interesses pessoais e grupais.

Com o advento do Estado Novo, em 1937, obteve a sua nomeação como prefeito, permanecendo no cargo até 1º. de janeiro de 1948, quando deu posse a um membro de sua própria família, um primo, eleito em fins de 1947.

Essa campanha eleitoral de 1947, a primeira, na esfera municipal, após a redemocratização, fora marcada pelo tumulto e pela violência, traduzindo-se, a expressão máxima dessa violência, na notícia do assassinato do insigne e corajoso líder oposicionista, o boticário Afrânio Lopes – o mais cotado, pela popularidade, a vencer o pleito.

Tarde da noite, quando as trevas venciam a rua mal iluminada, bateram à porta de sua farmácia, que funcionava no andar térreo da casa onde morava. Ao atender, foi atingido pelo tiro fatal. Morreu instantaneamente, sem conseguir pronunciar palavra, nada, nenhum sinal que levasse ao assassino.

Em tais casos, o silêncio é insuportável, sobretudo em meio a uma campanha política. Os detratores do Major atribuíam-lhe o crime. Hipótese rechaçada, veementemente, pelos seus aliados. Estes propalavam outras motivações, vinculadas a negócio de dinheiro, a dívidas não quitadas pelo boticário, ou ao seu forte carisma, gerador de ciúmes em alguns.

O Major, também, dizia-se inocente e vítima política do crime. Chegava a emocionar-se nos palanques, e, certa vez, até a chorar ante o que chamava de injusta acusação, que não poderia admitir partisse do povo que tanto amava e por quem se sacrificara ao longo dos anos, creditando-a, sim, à maldade e ao radicalismo de seus ferrenhos adversários e detratores.

A polícia local – por inoperância, despreparo, ou mesmo cumplicidade com os seus chefes políticos – jamais chegou a desvendar o crime. E o papel de grande vítima foi-se incorporando à personalidade política do Major, e explorado, com êxito (embora repudiado pela oposição, que jamais se conformara com a perda do líder), nessa campanha e mesmo nas seguintes.

O mais enfático arauto dessa tese era o seu filho, propalando eternamente a inocência do pai, mesmo quando, com o passar do tempo, já não havia clamor ou questionamentos. Com efeito, o assunto arrefecera, e a insistência do filho tornara-se um banal lugar comum em seus discursos. Até uma impertinência, dizia-se, pois sempre voltava com aquela fala demagógica do pai injustiçado.

Aquilo já incomodava. A memória do fato funesto, insepulta, repetitiva, viva naqueles discursos febris de defesa sem limites, incomodava a todos, inclusive ao próprio pai, que chegava a pensar nos familiares da vítima e na segurança do filho.

Portanto, chamou-o, um dia, à sua fazenda Olho d’Água, nas cercanias da cidade, local apropriado a uma conversa a dois, franca e sincera. Chovia copiosamente, e a chuva escorria, em cântaros, pelos beirais do alpendre. Foi direto ao assunto: o filho devia parar, imediatamente, com aquela peroração extrema e desnecessária, cujas conseqüências poderiam ser imprevisíveis. E acrescentava, apontando os beirais, tomados pela volúpia das águas: “- Não seja ingênuo; até os beirais sabem mais do que você.” Sem entender, o filho, atônito, ouviu, afinal, a drástica revelação: “- Eu mandei matar Afrânio Lopes! E está acabado!”.

Os tempos haviam mudado. Ainda não ocorrera a prescrição da pena atribuída ao crime. E havia o receio do caso vir a ser reaberto