Públio José – jornalista

(publiojose@gmail.com <mailto:publiojose@garrapropaganda.com.br> )

O pragmatismo foi idealizado, formulado e

estruturado como movimento filosófico tendo por base a defesa do conceito da

verdade no confronto com as dificuldades e desafios que acontecem na rotina

humana. Seria, no caso, transpor, para o dia a dia das pessoas comuns,

complexas fundamentações filosóficas envolvendo a essência da verdade como

prática comportamental, de maneira a firmar nelas uma sólida postura

psicológica, vivida nos ambientes familiar, social, profissional, político,

a fazê-las determinadas defensoras da verdade. Vê-se que, inicialmente, o

pragmatismo se assemelhou em sua estruturação à doutrina cristã, ao envolver

a defesa da validade de um conceito ao longo da existência da vida – como

semeado no cristianismo em relação à defesa da fé. Pelo lado cristão, o

exemplo extremo foi dado no Coliseu, no famoso sacrifício aos leões, em

fidelidade a uma concepção espiritual de vida.

Já o pragmatismo teve seu significado esgarçado ao

longo do tempo. Seu conteúdo deturpou-se tanto que hoje nada tem em comum

com a essência do que foi idealizado e estabelecido pelos fundadores. Seu

berço de origem foi o território americano, entre a virada do século 19 e os

primeiros anos do século passado, tendo por expoentes os filósofos Charles

Sanders Peirce e Wiliam James, inspirados na visão, percepção e proposições

de Ralph Waldo Emerson, tendo outros acadêmicos de renome e matizes variados

participado de sua conceituação. De início, o objetivo era fixar seu

arcabouço científico/intelectual no meio acadêmico – e sua praticidade como

elemento rotineiro para uso e utilização pelas pessoas em geral –

convencidos de que o pragmatismo só subsistiria como proposta filosófica

válida na medida em que fizesse parte da vida comunitária, da rotina do

chamado “cidadão comum”.

Tanto é assim, que – pela sua concepção inicial – a

ênfase era voltada às conseqüências de sua utilidade, tendo o sentido

prático como componente vital da verdade, princípio que, acima de tudo,

deveria prevalecer. A conseqüência desse ideário levou a um raciocínio pelo

qual o pragmatismo passou a se caracterizar pela descrença no fatalismo,

injetando em seus seguidores a certeza de que só a ação humana – movida pela

inteligência e energia – poderia alterar a realidade existente. Entranhado,

assim, de tanto pragmatismo, o pragmatismo desvencilhou-se do dogma da

verdade e adquiriu o dogma da praticidade, tornando-se uma mera “filosofia

de resultados”. A busca pelo prático, pela solução rápida, pelo objetivismo

existencial ganhou espaço em sua dinâmica, transformando-o em simples

instrumento a serviço da ordem realista, da proposição lógica, da feitura

útil na solução de desafios.

Trilhando tal caminho, o pragmatismo viria se chocar

mais adiante com a ética, com as normas morais que regem o comportamento

humano. De tanto esticão que sofreu em seu significado, é tido hoje como o

conjunto de atos e iniciativas praticados por alguém que age rápida e

objetivamente na solução de qualquer desafio – não importa se atropelando a

honestidade, o respeito ao próximo, o bem comum. Ser pragmático, enfim, é

ser sabido demais, ganhar muito em pouco tempo, subir vertiginosamente na

carreira profissional, chegar em primeiro lugar em tudo, mesmo sendo

condenáveis os métodos utilizados. O problema para quem o faz em excesso é

perder a noção da realidade, desconhecer os limites que separam seus

direitos dos direitos dos outros e, por conseqüência, trombar com os ditames

da lei. Lindíssima sua concepção. A primeira. A original. Flores pra ela. E

saudade. Muita saudade…