Para quem quer exercitar o engenho e a arte de repensar


A CIDADANIA ECONÔMICA

O noticiário da televisão apresentou como exemplo de modernidade e de adequação pontual ao mundo real, a adoção em caráter experimental, por uma das escolas da rede privada de ensino fundamental de São Paulo, de uma disciplina opcional: noções de economia.

A repórter, excitadíssima, entrevistava professores e alunos e não cabia em si de contentamento: Já pensou? Agora as crianças vão aprender a poupar, a aplicar o seu dinheiro, a planejar a compra de vídeo-games, bicicletas, celulares…as coisas que elas tanto desejam.

Os alunos, com cara de exploradores de um novo universo também não escondiam a satisfação. Um deles disse que iria comprar uma byke importada; outro, um skate incrementado, e quem sabe um novo PS.

A mãe de um dos alunos revelou que como conseqüência dessa nova orientação curricular, o filho a desconcertou com uma pergunta inesperada: O que ela estava fazendo para assegurar o seu futuro? Em outras palavras, se ela estaria poupando ou investindo as suas economias no mercado financeiro para garantir recursos para a educação formal do seu herdeiro.

Pois é. Há uma possibilidade concreta de que estejamos formando futuros bons consumidores e investidores, capazes de causar inveja à pátria adotiva do capitalismo, que não foi capaz de tanta criatividade, já que a dita orientadora pedagógica, ufanista, declarou que essa iniciativa era pioneira no mundo inteiro. Então, viva o Brasil!

É evidente que as escolas não podem abstrair o mundo real, nem desprezar a oportunidade de inserir o aluno no contexto em que vivem.

Tudo bem, portanto, que aos aprendizes seja oferecida a oportunidade de exercitarem práticas que lhes serão úteis no seu plano de vôo de sobrevivência.

Mas, como educador, entendo que há uma etapa do conhecimento fundamental, que precede ao saber aplicado, responsável pela orientação, balizamento e norteio que conduz o conhecimento pragmático a um campo supervisionado pela ética social, estabelecendo limites e salvaguardas, sobretudo se a ciência a ser aplicada é capaz de suscitar divergências e conflitos na estrutura social , atento ao fato de que as sociedades democráticas não são consensuais, mas dissensuais.

Ao acaso, mas oportunamente, valho-me da aplicação do procedimento de clonagem em humanos; da utilização dos transgênicos; da discriminalização do aborto e da maconha, para dar exemplos, que deveriam ser objeto de consulta popular, para conquistar legitimidade social.

E não trato aqui da imperativa e necessária consulta em caráter plebiscitário. Mas a uma espécie de filtragem, de depuração, de decantação, através da reflexão crítica e arrimo junto às lideranças da sociedade civil sob o enfoque da ética e da moral.

No caso analisado, o estímulo ao consumo pode ser entendido como espécie de exercício da cidadania econômica?

Mas então, como nortear os limites dessa prática, se em contraposição não há no mesmo currículo, prescrições preliminares tão valiosas como a moral, a ética e o civismo, entre outras?

Sabe-se, e até mesmo os capitalistas mais radicais, que a economia baseada nesse sistema tende a ser selvagem, se não se estabelecer limites claros e precisos quanto à ética desse sistema.

Então, vamos também ensinar Noções de Direito, indispensável ao exercício da cidadania, e a necessária Ética nas salas de aula do Ensino Fundamental. Por que não?

Pedro Simões (Escritor, advogado e professor aposentado do curso de direito)

(As colaborações sobre temas pontuais, merecedores de reflexão críticas, são bem aceitas)

De Públio José, escritor, jornalista e publicitário

Meu caro Professor, boa noite

De início, lhe parabenizo pela iniciativa. Em segundo lugar, pela excelência do texto.

Curto, preciso, esclarecedor, como é de praxe e de bom tom nos escribas que manejam com maestria a arte do bem se expressar.

A respeito do assunto que você enfoca, fico “arrupiado” com essa mania de certos adultos de pretenderem introduzir as crianças no mundo do consumo, no mundo da competitividade, e dos jargões econômicos, cedo demais. Como você diz, não podemos ter a pretensão de esconder delas a realidade que prevalece lá fora; mas isso não justifica o fato de certos profissionais do ensino passarem a inserir na escola matéria curricular (mesmo que opcional) com conceitos que vão muito além da sua capacidade etária de percepção. Veja, amigo, que há tempos atrás tive acesso a um estudo de uma socióloga paulista sobre o vício do alcoolismo na faixa etária que vai dos 10 aos 15 anos. No seu estudo ela já demonstrava estupefação por ter descoberto vício em alto grau de dependência em crianças de nove anos de idade! Digo e repito: crianças viciadas em bebida alcoólica aos nove anos de idade! É nisso que dá a antecipação de conceitos e complexidades do mundo adulto em mentes ainda não amadurecidas o suficiente para tal percepção. Estes fatos me lembram certos filmes de ficção científica, cujo roteiro começa em um laboratório onde se força a barra em demasia na busca de “algo novo”. Aí algo de inesperado acontece, a situação foge ao controle dos inventores e muitos prejuízos são causados às pessoas comuns (Frankenstein que o diga) – justamente pelo fato de se verem diante de uma realidade para a qual não estavam preparadas. Voltando à essência do seu texto, vejo como absurdo o objetivo de antecipar o “homo consumidor” em crianças de tenra idade, quando deveriam ser liberadas e incentivadas a praticar atividades mais condizentes com a idade. O episódio na escola paulista é mais absurdo, ainda, pelo fato de não existir uma matéria simultânea que mostre às crianças o outro lado da moeda de tal ensinamento: o perigo de se tornar viciado num consumismo desenfreado; o perigo de ser inoculado pelo vírus do capitalismo desprovido de fronteiras éticas; a esterilização interior em função da prática e motivação do querer sempre mais a qualquer preço; o desprezo pelo próximo, quando integrante de uma classe econômico-social desprovida de condições de largo consumo; a rejeição a conceitos e princípios que enalteçam a honestidade, a ética, a fraternidade, a tolerância, a compreensão, o amor (todos antagônicos ao corolário capitalista), valores que fenecem naturalmente à prática de um capitalismo desenfreado…

Meu caro Professor, bênçãos abundantes.

Estas são as minhas observações a respeito do assunto que você trouxe à ribalta.

Faça delas o que achar conveniente, agradecendo, desde já, o fato de você ter me incluído no rol dos que terão a chance de participar de tão excelente projeto.

Forte abraço – Públio José

De Iaperi Araujo, escritor, artista plástico e médico

Fui desnasnado por minha mãe que era professora pública num pequena cidade do Seridó potiguar. Ela, sim, foi uma pioneira e temerária desbravadora. Aos 20 anos, recém-diplomada professora da Escola Normal de Natal, foi designada para a Vila de Luiza, município de Floranea, distante mais de 200 quilometros da capital em estrada de barro que consumia um dia inteiro de viagem para ser alcançada. Lá não conhecia ninguém. Ficou na casa de uma família designada pela Prefeitura de Floranea para abrigá-la. Era a primeira professora diplomada naquela Vila, para o recém-inaugurado Grupo Escolar Prof. Vale de Miranda. A vila mudou do nome poético para um mais santo: São Vicente. Ela conheceu meu pai, de 25 anos que já exercia uma liderança na região. Desbancara os velhos proprietários que constituíam um quase “conselho dos anciãos” e ele na sua juventude empreendeu movimentos para fazer crescer e desenvolver a Vila. Só tinha o primário. Criou uma Sociedade para o Progresso de São Vicente, para comprar um motor apara iluminação pública e ser concessionária desse serviço. Foi Vereador e Presidente da Camara de Floranea e Vice-Prefeito. Foi sub-Prefeito de São Vicente, Vereador e Prefeito. Lá nasci, mal haviam terminado o rimbombar das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Não fui contemporâneo dessa II Guerra Mundial, mas das outras guerras que abalaram socialmente o mundo.

Mamãe, disciplinadora me ensinou a ler e escrever e aos 5 anos já sabia fazê-lo. Ensinou também lições de cidadania e respeito aos outros, principalmente aos mais humildes e as diferenças. Em São Vicente, os únicos meninos que não caçoavam dos velhos, dos loucos e dos aleijados eram os filhos de Quincas e Milka e por isso todos nos tratavam bem. Claro que não éramos santos e protagonizávamos todas as danações havidas e por haver no lugar, desde a malhação dos Judas até quebra-canelas, sustos nos mofinos e etc. Minha cidadania completou-se nas aulas de catecismo com dona Eunice Pereira, irmã do ex-Governador Cortez Pereira, já em Currais Novos. Sempre defendi as instituições da sociedade como educadores dos jovens. Além do catecismo (“O que é Deus ?”), os grupos de escoteiros e bandeirantes, o serviço militar, as pastorais os clubes de serviços, de jovens, de idosos. Aprende-se economia, filosofia, sociologia e outras “gias”, na vivencia prática do dia-a-dia, na presença dos pais na educação dos jovens, na vigilância permanente das amizades, no saber com quem e onde andam, na valorização dos bens conquistados com nossas próprias mãos e na possibilidade de ajudar os que mais precisam.

Se não falei de Economia, nesse texto ? Paciencia. Fiz pelo menos um registro do meu coração e um desabafo.

IAPERI ARAUJO

(Médico, escritor e artista)

De Ciro Tavares, advogado, memorialista e poeta

Caríssimos:

Tal absurdo só poderia ter origem no setor privado educacional. Nossas escolas particulares estão sempre voltadas para as conquistas materiais das pessoas.Essa postura é antiga, desde da discussão da LDB no Congresso nacional, acompanhada por mim, em muitos detalhes, na Câmara e no Senado. Já não basta o golpe militar de 1964 ter retirado do currículo o latim, base da nossa língua. Não terá sido essa ação maléfica que hoje justifica, para nós brasileiros, que a falamos tão mal, a expressão de Olavo Bilac “ a última flor do Lácio inculta e bela”.

Antes de economia e finanças, a juventude precisa conhecer e estudar a Constituição Brasileira, como fazem nos Estados Unidos e outros países do primeiro mundo. Nos anos 50, professores e alunos criavam grêmios estudantis, estimulando os bons hábitos da leitura e da escrita.Os pequenos jornais que circulavam pelas salas e corredores, divulgavam acontecimentos e trabalhos literários. E hoje? A preocupação é a camisa de grife, o planejamento para os embalos de sábados á noite e a conversa uma mistura de gíria e palavrões. Essa idéia cretina de levar ao ensino fundamental as noções de economia, é mais um blefe de algum cretino preocupado em amealhar dinheiro.

Abraços do Ciro José Tavares

De Diógenes da Cunha Lima, poeta, memorialista, presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras:

Pedro,

A idéia é muito boa.

Um abraço,

Diógenes

De Edson Resende, ex-professor da Sorbonne, ensaísta e pensador

Comentário (1)

Meu caro amigo Pedro,

Excelente a sua ideia de provocar um largo debate sobre uma assunto de sociedade. Quando se fala de ensino, geralmente o contraditório suplanta o consensual, cada cidadão tendo a sua visão do que deveria ser o currículo ideal de nossas escolas. Mas, deixemos a cada um a liberdade de expor a sua própria opinião. É este o seu objetivo, não é ?

Sem entrar em questões de fundo, eu gostaria hoje de apenas apresentar algumas posições preliminares :

O mundo mudou, o Brasil mudou, o ensino mudou enormemente nos últimos cinquenta anos. Poderemos fazer um balanço do que foi a nossa experiência como estudantes, pais e professores, mas devemos estar conscientes da realidade do ensino, hoje. O ensino nos preparava para sermos professores, médicos, advogados e engenheiros. Eram estas, sobretudo, as profissões que atraíam os jovens brasileiros das classes médias. Hoje, há muitas novas profissões que a maior parte de nós, da velha geração, pouco conhece. Os currículos escolares devem tomar em consideração a multiplicidade de novas formações possíveis.

Isto não implica em abandonar o ensino do latim por exemplo, implica somente na multiplicação de formações, cujas bases devem começar a ser ensinadas nos dois ou três últimos anos do secundário. Nós tínhamos os cursos clássico e científico, hoje, eles devem ser muito mais abertos em função da formação desejada pelos estudantes.

Quanto ao caso citado, estas “noções de economia” poderiam, se for realmente do interesse das famílias, ser aprendidas fora da escola, como se faz com o aprendizado de línguas estrangeiras, esportes, música, etc. Isto porque estamos em uma democracia e as famílias têm o direito de oferecer a seus filhos e filhas a formação extra-curricular que bem desejarem.

Mas o interesse em ensinar “noções de economia”, mesmo como disciplina opcional, parece-me totalmente excessivo. O que importa, nesta fase da vida, além de um aprendizado positivo em contínua mutação e necessário à formação técnica de um bom profissional, é a formação de um bom cidadão. Esta formação não deve ser o objetivo de um só professor e de uma só disciplina, ela deve estar no centro do projeto educativo como um todo. Os conceitos que devemos transmitir aos estudantes são variados : o sistema democrático, com seus deveres e direitos, as ideias de tolerância e de responsabilidade pessoal, etc.

A escola a que você se refere, parece-me ser uma escola destinada a alguns happy few deste Brasil, pois os alunos têm dinheiro para poupar, investir e gastar em produtos supérfluos. Quantos alunos no Brasil estão nesta categoria ? Esta constatação poderia nos introduzir em questões de fundo, a serem tratadas posteriormente.

Um fraternal abraço.

Edson

Comentário (2)

A CIDADANIA ECONÔMICA – Comentários

Ao referir-se à iniciativa de uma escola privada de ensino fundamental de São Paulo de adotar, em caráter experimental, uma disciplina opcional de “noções de economia”, o professor, advogado e escritor Pedro Simões reconhece que “as escolas não podem abstrair o mundo real, nem desprezar a oportunidade de inserir o aluno no contexto em que vivem”. Entretanto, em tom de crítica, ele insiste que deve haver “uma etapa do conhecimento fundamental, que precede ao saber aplicado, responsável pela orientação, balizamento e norteio que conduz o conhecimento pragmático a um campo supervisionado pela ética social, estabelecendo limites e salvaguardas”. Em outras palavras, Pedro Simões reconhece a utilidade de se criar disciplinas dirigidas ao conhecimento do mundo real, com a condição de que elas sejam precedidas por uma orientação que mostre os limites do pragmatismo sem ética.

Creio que o Professor Pedro Simões tem plena razão em se preocupar com a direção que pode ser dada a cursos deste tipo, mesmo que sejam apenas noções de economia, como vamos ver.

Vamos abstrair a situação dramática e injusta em que se encontra o ensino fundamental no Brasil: de um lado, a grande massa de estudantes ocupando os bancos de uma escola pública incapaz de preencher as suas funções de formação de nossa juventude e, de outro lado, uma minoria de privilegiados usufruindo de um ensino mais condizente com as necessidades de uma sociedade moderna. No caso da escola fundamental pública, os problemas prementes são as mais básicas condições materiais e pedagógicas, antes da preocupação com cursos que ensinem a investir suas poupanças para que os jovens possam comprar bicicletas importadas. Aqui, a discussão sobre ensinar ou não noções de economia não seria inútil, mas pareceria deslocada diante dos enormes problemas que se tem de enfrentar. Sem problemas materiais ou financeiros, com alunos que visam estudos longos que levem às profissões mais prestigiosas e rentáveis, as escolas privadas podem se dar ao luxo de propor cursos opcionais que possam interessar às famílias e que, sobretudo, tragam mais renda à instituição.

Toda generalização sendo abusiva, não vamos generalizar. Mas sabemos que algumas grandes escolas privadas afirmam aos seus alunos, de maneira recorrente, que eles pertencem a uma elite destinada a governar o país. Este fato não seria grave se este elitismo virtual não criasse uma classe de jovens ávidos de sucesso pessoal e indiferentes à sorte das populações carentes. O ultraconservadorismo político e, por exemplo, o preconceito anti-nordestino demonstrados pelos jovens brasileiros das classes médias superiores durante as últimas eleições presidenciais seriam mais preocupantes se os partidos e candidatos que apoiaram este radicalismo político não tivessem sido derrotados nas urnas. O fato é que, hoje, a ideologia ultraliberal é muito mais veiculada pela economia do que por qualquer outra disciplina: as idéias de Estado mínimo e de privatização total da produção e serviços, de desregulamentação e de mundialização da economia, etc, são as principais bandeiras defendidas pelos ultraliberais. Nós sabemos que a aplicação destes preceitos sempre leva a um forte aprofundamento das injustiças sociais e conduz a crises econômicas cada vez mais recorrentes e violentas.

É evidente que um modesto curso de “Noções de economia”, ministrado numa escola fundamental privada de São Paulo, mesmo sendo dirigido a filhos de famílias ricas, não tem o poder deletério de aprofundar as injustiças e de provocar crises, mas, no interior de um processo, ele contribui, mesmo minimamente, para chegar a estes resultados. Assim, vejamos o caso emblemático de uma grande instituição de ensino que foi acusada de ser uma das principais responsáveis da última crise. Eu me refiro à famosa Harvard Business School (HBS) que, juntamente com a Escola econômica de Chicago e outras escolas americanas de menor renome, teria sido a iniciadora e a propagadora das teorias que tornaram possível a bolha imobiliária e levaram a economia americana e dos grandes países industrializados à beira do abismo. Parece incrível, a HBS que tanto se orgulha de ter os alunos mais brilhantes e de educar “os líderes de amanhã, aqueles que farão a diferença”, sendo acusada de ter fornecido a argumentação intelectual a dirigentes que teriam sacrificado a América por simples cupidez. Quais são as críticas que são feitas contras a escola? Elas são de duas ordens:

Primeiramente, ela é acusada de ter-se encerrado em uma visão única, ultraliberal. O que a teria impedido de ver chegar a crise, apesar dos sinais precursores denunciados por professores de outras escolas. A segunda crítica, mais importante, foi a colusão de interesses: os teóricos da HBS e de outras escolas de negócios defendiam “a cultura do risco” e “a maximização dos lucros dos acionários” com tanto ardor porque eles tinham grandes interesses em jogo: as passarelas entre os cargos de professor e de consultor nas instituições financeiras se multiplicavam. Portanto, eles forneceram aos dirigentes uma legitimidade acadêmica, ao mesmo tempo em que usufruíam da forte evolução do setor financeiro: em trinta anos, as finanças passaram de 16% a 41% dos lucros realizados nos Estados Unidos.

Resumindo, na Harvard Business School pregava-se a tomada de riscos aos “líderes de amanhã”, mas não se fazia análises de casos específicos sobre os problemas do risco sistêmico. Quanto à inexistência de cursos sobre a regulação, a desculpa é que “o espírito empresarial ama o risco, não os regulamentos”.

Sob a pressão dos acontecimentos, professores e direção da HBS falam em mudanças. “Nós deveremos consagrar mais tempo a refletir com os estudantes sobre a responsabilidade e pensar os riscos em termos globais e não apenas financeiros”, disse um professor. E o diretor da escola, considerada até agora um templo da desregulamentação, anuncia mesmo a criação de um curso de regulação financeira. Mas, quando foi perguntado ao mesmo diretor sobre a necessidade de introduzir a noção de ética nos cursos da escola, a resposta foi decepcionante: “A questão posta pela crise atual não é a ética, mas o risco empresarial”.

Pedro Simões tem razão em querer fazer supervisionar o conhecimento pragmático pela ética social. A visão unificada do mundo, ensinada em Harvard, era idêntica à visão das elites. Foi a falta de ética que levou a HBS a satisfazer os interesses mais egoístas e anti-sociais da classe dominante. E a ensinar a irresponsabilidade social a seus prestigiosos alunos.

Concluindo, podemos dizer que a introdução de uma disciplina sobre “noções de economia” em uma escola fundamental privada de São Paulo suscita duas questões: com responsabilidade ou sem responsabilidade? Com ética ou sem ética?

Edo de Natal, 11.11.2011

O TRÁFICO DAS IDÉIAS/1

Comentários/crítica de Carlos Roberto de Miranda Gomes

Texto: A CIDADANIA ECONÔMICA

Autor: Pedro Simões Neto;

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A CIDADANIA SUSTENTÁVEL

Instado pelo meu dileto amigo Pedro Simões, a propósito do seu texto “A Cidadania Econômica”, ofereço os meus comentários e críticas sobre o assunto.

O projeto referido em seu trabalho, desenvolvido nos Estados do Sul/Sudeste, para mim, não é novidade. Dessa iniciativa cuidei nos idos de 1997/1998 ao aprovar idéia da Dra. Lina Vieira (Secretária de Tributação do Estado naquele tempo) no sentido do ensino de noções sobre o tributo nas escolas do ensino fundamental e de nível médio. A pretensão tinha conteúdo ético, porquanto objetivando o incremento de uma consciência de cidadania, minimizando o hábito da sonegação fiscal e, ao reverso do que se comenta – o tributo é um castigo – seria enfocada nova visão do tributo – instrumento essencial para a redistribuição da riqueza.

Aliás, o mesmo Governo, através do DETRAN e apoio integral do Ministério Público, já havia aplicado, com êxito, o ensino sobre noções de trânsito – cuja continuidade desconheço.

Posteriormente, também atuei junto ao Tribunal de Contas, onde instalei a Escola de Contas “Professor Severino Lopes de Oliveira”, dando início à campanha “Tribunal de Contas nas Escolas”. Da iniciativa do Jornalista Eugênio Pacelli. Mais que isso, tive a emoção de ministrar a primeira aula para alunos do ensino fundamental da periferia de Natal, fato que me empolgou pelo interesse e efetiva participação dos meninos e meninas que lotaram o vão de entrada da Corte de Contas, inclusive com distribuição de um “gibi” alusivo ao tema.

Pena que logo ao iniciar o novo exercício administrativo, fui surpreendido com minha exoneração, movida pela insensatez do Conselheiro Alcimar Torquato, que assumira o comando do TCE, com ideário diverso do Presidente anterior, quebrando a continuidade da Campanha, que morreu no começo e não incrementando outra semelhante que tivesse finalidade ética.

A par dessa minha experiência, devo concordar com a importância da inserção de ensinamentos na direção da difusão da cidadania, em todos os seus vetores, porém com ênfase inicial na divulgação – primeiro do patriotismo; segundo da ética; terceiro dos conhecimentos básicos de gestão pública, seguindo-se a livre iniciativa, a importância da economia como fundamento da absorção da mão de obra, da geração de riqueza, da qual o Estado utilizará uma parcela – a que exceder às necessidades operacionais dos produtores, para servir de lastro às receitas públicas para redistribuição com a população, proporcionando a melhoria da qualidade de vida.

Devo lembrar, que você mesmo, foi pioneiro no Estado de um curso sobre noções de Direito para pessoas leigas, que chegou a diplomar uma única turma, idéia que ainda merece ser renovada, desde que hajam pessoas capazes de envolvimento cívico e de algum patrocínio, para não se viver de mendicância para alimentar a cultura e a elevação do conhecimento da população, na certeza da forte oposição das “entidades” e “organizações” que recrutam a maior fatia dentre servidores públicos, apadrinhadas por algum político, pensando muito mais no resultado financeiro do patrocínio ou dividendo eleitorais do que o resultado objetivo do empreendimento. Também tive experiência nesse sentido, tanto que tenho recusado convites de faculdades particulares e instituições públicas para ministrar cursos, porque alardeiam apenas a estatística dos certificados conferidos, mas não se preocupam com a freqüência dos alunos e dos resultados das avaliações.

Por tudo isso é que só acredito em sucesso se tudo partir do ensino fundamental, longe dos vícios e das influências da política – aquele de má índole, que ainda prevalece na nossa sociedade.

Diria até, que seria de grande valia a obrigatoriedade de todo aspirante a cargo eletivo passar por um curso básico de cidadania, evitando “gestos inocentes” como ocorreu recentemente com nossos Vereadores, aumentando seus subsídios em plena legislatura, apesar da vedação expressa da Constituição.

Não sei se era isso o que você esperava da minha parte. Se não o for, me esclareça que eu farei nova reflexão.

Desculpe a minha veemência, mas graças a Deus eu sou um velho que ainda consigo me indignar com tanta falta de iniciativa dos poderes públicos na direção da ética e da legalidade, mas com investimento substancial nos lindes da mentira e da demagogia em todos os sentidos, máxime no lado da cultura – algo colocado eternamente nos umbrais do esquecimento, da velhacaria e dos “foliadutos” da vida.

Carlos Roberto de Miranda Gomes

(Escritor, advogado e professor aposentado do curso de direito) e um chato de galocha.