23 de janeiro de 2011

Por Franklin Jorge

Glauber Rocha considerava “Vidas Secas” um clássico do cinema, ou melhor, “um filme clássico, não experimental” – como seria o seu “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que a mim me pareceu sempre uma sucessão de imagens — embora belas, desconexas, contundentes –, reiterativas como uma espécie de pesadelo fomentado pela inquietação intelectual do célebre cineasta baiano, que nos deu, mais que alguns filmes meramente performáticos – a concepção do Cinema Novo e argumento para as aulas de cultura brasileira do professor Jarbas Martins. Este, exclusivamente, o seu mérito.Sua filmografia é uma verdadeira mixórdia paranóica, e nada mais.

Vi-o pela primeira e única no Cine Theatro Dr. Pedro Amorim, numa manhã de sábado, creio que em 1965 ou 66. Ainda não lera Graciliano, um autor de quem então eu podia ter gostado se não tivesse lido, antes, Dostoievski, a meu ver o precursor do alagoano e de muitos outros escritores que sucederam ao russo que li, obsessivamente, emprestado da formidável biblioteca da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, entre os meus quinze e dezessete anos.

Eu me lembro que fui um dos poucos expectadores de “Vidas Secas” a permanecer sentado até o fim da sessão que começara às nove horas da manhã e aproveitava a presença, no Açu, de muitos que, como eu, chegávamos de sítios e fazendas para a movimentada feira semanal na cidade que era o pólo comercial de uma vasta região e, também, um centro cultural, justamente por causa desse cinema que atraía grande público nesse dia, e que, a principio e por muito tempo, incluía em seu repertório um seriado cheio de ação, geralmente em cópias defeituosas, seguido de um filme geralmente produzido pelos estúdios Disney.

Refratário desde moço à demagogia populista de esquerda ou de direita, pouco ou nada sabia sobre o filme e seu autor, como a maioria daqueles expectadores que, enfadados com a película monocromática — da qual a palavra parecia ter sido banida ou reduzida a um ou outro grunhido monossilábico arrancado do fundo das gargantas de Sinhá Vitória, de Fabianmo ou da faminta e resignada Baleia – a cadelinha com um não-sei-quê de humano –, deixavam a sala após alguns minutos da projeção.

Anunciado como uma obra-prima do moderno cinema brasileiro, o filme de Nelson Pereira dos Santos rompia com tudo o que eu já vira na tela. Sem experiência e repertório suficientes para apreciá-lo em suas peculiaridades de forma e conteúdo, pareceu-me antes uma sucessão de fotografias que diziam mais do que mil palavras, organizadas segundo uma visão estética neo-realista contundente, expressionista, ainda desconhecida para o aprendiz de cinéfilo que não simpatizava muito com o cinema italiano de esquerda. Um filme, em sua possibilidade de uma comunicação total, denso de substância humana e poética, que me descortinava uma nova realidade duma plasticidade inesquecível.

Não era “Vidas Secas”, evidentemente, o filme que eu esperava ver naquela populosa manhã, mas, pelo inusitado de sua linguagem plástica, marcadamente econômica, nada glamourosa, porém, vi-o com interesse, pensando que de alguma forma aquela película contribuía para ampliar a minha incipiente visão da chamada sétima arte. Até então, nunca ouvira falar do cineasta Nelson Pereira dos Santos ou, se ouvira, não dera maior atenção. Para mim, o cinema brasileiro se resumia, em termos de qualidade, às chanchadas da Atlântica e da Vera Cruz, que aliás não me interessavam, como não me interessava o cinema mexicano de que me pareciam imitações sem nenhuma graça. Ah o meu indescritível horror a Mazzarope, a Grande Otelo, a Cantinflas et caterva!

Criado numa propriedade rural, convivendo desde os primeiros anos de minha vida com trabalhadores rurais, numa das regiões agrícolas mais ricas do estado, “Vidas Secas” transpunha para a tela uma realidade mais aguda, mas, sobretudo, a monotonia da pobreza e dos dias em que nada acontece. Enfim, uma espécie de vida arrastada, sem cor, lenta e tediosa como a privação.