Públio José – jornalista

(publiojose@gmail.com <mailto:publiojose@garrapropaganda.com.br> )

Misericórdia é um termo composto em sua raiz

pela soma das palavras “miseri”, relacionada a miséria, pobreza, aflição,

desespero, e “córdia”, relacionada a coração no sentido de matriz geradora

de nossos sentimentos. A junção, então, compôs o termo misericórdia que, em

última análise, representa o domínio, a prevalência dos bons sentimentos em

relação aos sentimentos negativos. É também lastro para a compreensão das

situações aflitivas vividas pelos outros. A misericórdia ainda significa o

ato de tratar um ofensor, um transgressor com menor rigor do que este

merece. Atualmente, muitos conceitos existem em torno do termo, mas,

indiscutivelmente, nenhum deles se afasta desse eixo central que trata a

misericórdia como um sentimento nobre, desprovido da presença do egoísmo, do

individualismo, e forte aliado da bondade, da benignidade, da compaixão, da

paciência – do amor enfim, de onde sobrevêm todos os outros sentimentos.

Segundo os dicionários atuais, misericórdia

significa compaixão suscitada pela miséria, pela dor alheia. Trata-se do ato

de não aplicar um castigo merecido, mas também envolve a idéia de dar a

alguém algo que este não merece. Aponta ainda para o ato de aliviar o

sofrimento de outrem, inteiramente à parte da questão do mérito pessoal de

quem recebe. A misericórdia, enfim, é um gesto que parte de alguém em estado

de amor para com outra pessoa, com a particularidade de que o favorecido

encontra-se, naquele momento, desprovido da condição de exigir, de propor

uma troca – já que nada tem a oferecer. O misericordioso tem o que o outro

precisa, enquanto o necessitado nada tem para justificar o bem recebido. A

misericórdia se resume, portanto, a um sentimento altamente valioso do ponto

de vista cristão, qualidade espiritual que procura aliviar o sofrimento

humano e retém, por conta disso, a vingança e os atos de retaliação.

E é precisamente esse ponto que gostaríamos de

ressaltar. Pois a falta de misericórdia no coração dos homens gera todo tipo

de sentimento de revolta, de revanche, de sanha vingativa naquele que busca

no outro um gesto compassivo e recebe, de volta, a moeda firme, crua, dura

da insensibilidade. O mundo de hoje, com a obrigatoriedade do ganhar, do

ter, realidade que coloca as pessoas na trilha da exaltação ao

individualismo, tem contribuído para a eclosão constante de situações de

conflito, de injustiças. Estas, por sua vez, têm originado, de um lado, uma

geração de pessoas marcadas pela dor, pela desesperança, pela desilusão, e,

de outro, uma geração árida de sentimentos, seca, desconectada e alheia às

necessidades e carências dos mais necessitados. É indiscutível, então, a

conclusão de que misericórdia é sentimento a se cultivar incessantemente

como forma de ajuda aos outros, mas também para preservação de nossa

qualidade de vida.

Segundo Bultmann, estudioso cristão, “tem razão quem

conceitua a misericórdia como a qualidade da fidelidade na ajuda”. É a

postura, enfim, de quem se mantém fiel aos seus princípios, independente do

ganho que, porventura, possa auferir. Nesse sentido, ninguém é mais

misericordioso do que Deus. Ele, através de Jesus, ministra sobre nós, a

todo instante, a sua capacidade infinita de nos entender, de nos

compreender, de nos perdoar. E isso é misericórdia pura. Ah, se o homem

entendesse os propósitos de Deus e estivesse de coração sempre aberto para

receber – e agir a favor do outro em misericórdia! Com certeza o mundo não

seria o mesmo. Pois, se houvesse misericórdia em nossas ações, o dinheiro

público não seria desviado para outros fins e o leite das crianças jamais

serviria a outros objetivos que não o de alimentá-las. Ah, pobres crianças!

Aliás, para estes que agem assim, só mesmo a misericórdia. A de Deus. Bem

entendido?