or Ivan Martins

Tenho um amigo que gosta muito de ler. Ou melhor, ele gosta muitíssimo de

ler, e gosta ainda mais de comprar livros, muitos dos quais ele manda vir do

exterior. Comparado com outros, o vício dele é tão benigno que pode ser

considerado uma virtude. Mas sua mulher não concorda com isso. Ela acha, com

alguma razão, que ele gasta demais com leitura. O assunto virou motivo de

brigas do casal. Para evitá-las, meu amigo fez um trato com o carteiro: ele

entrega na casa as correspondências normais, mas deixa os livros na agência

do Correio. Meu amigo os apanha lá e contrabandeia na bolsa para dentro de

casa, sem que a mulher perceba. A biblioteca dele é, aparentemente, a única

do mundo que cresce de forma vegetativa.

Visto do ponto de vista desta história singela, quase cômica, o casamento

revela-se uma instituição infernal.

Num momento, há uma mulher encantada com a cultura, a inteligência e a

falante erudição do namorado. O fato que ele leia abundantemente, até

exageradamente, reforça a impressão de singularidade do sujeito, torna-o

ainda mais interessante. Passam-se os anos, dividem-se a renda, o patrimônio

e as peças de roupa na máquina de lavar e, pronto, opera-se o inverso de um

milagre – o intelectual torna-se um perdulário, uma ameaça à renda familiar,

um irresponsável que se vê obrigado, em nome da paz doméstica, a traficar

literatura clandestina para dentro de casa, como se fosse maconha ou

cocaína.

Como chegamos a isso, senhoras e senhores?

Eu não faço a menor ideia, mas sei que acontece. Quando você conhece uma

pessoa atraente, você a quer como ela é. O salto lá em cima, o decote lá

embaixo e aquele jeitinho de falar a três milímetros de distância, o seu

nariz quase roçando o narizinho vermelho de vodca. Aí você se envolve com a

criatura e tudo vira um pesadelo. As roupas, a intimidade imediata com

estranhos, o hábito de beber e a insistência – a maldita insistência – de

ficar na festa até o fim, quando as coisas realmente acontecem. Mas você já

não quer que aconteça mais nada, certo?

Talvez por isso as pessoas estejam com preguiça dos relacionamentos.

Talvez eu seja conservador, mas acho que a cultura humana tende ao

compromisso – mesmo no século 21, mesmo neste bordel moralista que é o

Brasil. Quando duas pessoas se gostam elas acabam gravitando em torno uma da

outra e a gravidade é uma forma sutil de ordenamento e prisão, como

descobriu Isaac Newton. Eu não posso flutuar até a Lua, tanto quanto a

maioria de nós não pode evitar sentir-se ligada ao outro de quem está

próximo. Sente-se falta. Deseja-se atenção. Eu pergunto à minha amiga o que

acontece quando ela liga para “o caso” dela e ele não deseja vê-la ou está

com outra pessoa. “Não é assim”, diz ela, meio indignada. Então como é? A

liberdade existe ou é apenas um namoro convencional com outro nome?

Outro dia eu participei de um programa de televisão com a Marília Gabriela –

uma simpatia pessoalmente, engraçadíssima – e ela, daquele jeito exagerado,

constatava que a gente continua interessado sempre nas mesmas questões sobre

sexo, como se o tempo não tivesse passado e o mundo não tivesse mudado

tanto. São sempre as mesmas perguntas, ainda que as respostas estejam

mudando devagarinho.

Pois eu acho que vale o mesmo para os relacionamentos. Nós continuamos

obcecados por questões aparentemente insolúveis como monogamia, controle,

graus de exclusividade, ciúme, privacidade, autonomia e solidão. Elas não

foram e não parecem estar a caminho de serem resolvidas. O problema central

é que a gente parece incapaz de satisfazer nossas necessidades afetivas sem

renunciar a alguma coisa que depois nos fará falta. Essa contradição (se é

que se trata de uma contradição) permanece insolúvel.

Nós mudamos o nome dos relacionamentos e até abrimos mão deles, mas não

conseguimos alterar sua natureza profunda, que ainda é totalitária. Quem tem

mais autoridade e mais poder sobre nós do que a pessoa com quem nos

relacionamos? Quem tem mais capacidade de nos causar dor?

Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre foram mais longe na década de 30 do

século passado na reinvenção do relacionamento (sem resolver suas

contradições emocionais, registre-se) do que a maioria de nós conseguirá até

2030.

Logo, concluo que o meu amigo vai continuar contrabandeando livros para

dentro da sua própria casa, que minha amiga vai seguir namorando sem usar o

nome e que outras pessoas evitarão envolver-se, para preservar seu desejo e

a sua autonomia. Eu, além de sofrer de todas essas coisas, vou continuar,

inutilmente, tentando entender o que nos aflige.

Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa