Por Ormuz Barbalho Simonetti

(Percurso percorrido entre as praias de Pipa/RN e Canoa Quebrada/CE)

 

Seguimos viagem e passamos nas praias de Retirinho, Fontainha, Lagoa do Mato, Quixaba, Majorlândia e adentramos nos limites da praia de Canoa Quebrada, nosso destino final. A praia apesar da beleza de suas falésias é totalmente desprovida de vegetação, o que a deixa com um aspecto um tanto árido.

Fomos direto para a Pousada “Dolce Vita” onde nos hospedamos. Lugar tranqüilo e acolhedor e de ótima localização, pois fica a poucos passos da “Brodwei”, assim denominada a região do comércio, onde jovens locais e turistas se reúnem nos diversos bares e restaurantes para curtirem um som, ou experimentar dos vários pratos que são oferecidos. Grande parte da rua, transformada em calçadão, é livre do transito de automóveis, o que a torna bem segura para os freqüentadores.

À noite fizemos uma incursão pelas ruas da “Brodwei” onde as mulheres, como sempre, ávidas por fazer compras, logo se misturaram aos inúmeros turistas que enchiam as lojinhas ao longo do calçadão. Escolhemos um restaurante que nos pareceu mais simpático e adentramos para experimentamos a culinária local. Infelizmente não fomos felizes na escolha dos pratos solicitados.

Já era bem tarde da noite quando retornamos à pousada e nos reunimos em volta da piscina, e aguardando o sono chegar, degustamos várias garrafas de vinho. Entre conversas amenas e planos para o dia seguinte, entramos madrugada adentro.

Um dos nossos companheiros de viajem foi contemplado com o chalé das “mil e uma noites”. Decorado em estilo árabe onde véus coloridos pendem desde o teto até o chão, esse chalé é disponibilizado pela administração da pousada, geralmente para casais em lua de mel. No dia seguinte “os noivos” estavam tão empolgados com a beleza da dormida, que prometeram retornar o mais breve possível, mas teria que ser para aquele mesmo chalé.

Após o desjejum, fomos então conhecer a orla. Descemos a pé para a beira da praia e fizemos um longo passeio. Vendedores de todo tipo de bugiganga misturam-se a vendedores de comidas, que se multiplicavam nas areias da praia em meio a banhistas e turistas, deixando aquele pedaço de praia completamente apinhado de gente. Em frente das barracas que vendem bebidas e comidas típicas, os garçons ofereciam aos gritos: “trio grande” e “trio pequeno” pelo melhor preço! . . . Já tinha sido “apresentado” ao prato com essa denominação, quando almoçamos na barraca Pantanal, na praia de Ponta Grossa. O prato é composto de lagosta, camarão e uma posta de robalo, tudo feito na brasa. Desde que adentramos no estado do Ceará, em todos os locais que paramos esse crustáceo era oferecido em bares, restaurantes a até mesmo nas barracas à beira mar. Ao que parece, o defeso da lagosta – período que é proibida a pesca, que vai de 01 de janeiro a 15 de junho – não é devidamente respeitado pelo nosso vizinho, visto a quantidade de pontos de comercialização desse produto.

O Ceará é considerado o maior produtor e exportador de lagosta do Brasil, mas para isso recebe uma grande “ajuda” do nosso Estado. Uma grande quantidade de seus “lagosteiros”- barcos que pescam lagosta – pescam em águas do Rio Grande do Norte. Diversas empresas aqui instaladas que comercializam esse tipo de pescado, quando se trata de exportação, preferem utilizar o terminal portuário de “Pecém” no Ceará, fazendo com que as estatísticas e as divisas, advindas da produção de lagosta, beneficiem nosso vizinho estado do Ceará. Enquanto as nossas autoridades responsáveis continuarem a fazer vista grossa para essa prática criminosa, nós ficamos literalmente “a ver navios”.

Até então havíamos percorrido 515 km. Nossa intenção era prosseguir pela beira da praia até alcançarmos Fortaleza. Porém, tivemos informação que antes da praia das Fontes, a polícia havia interrompido o trânsito pela beira da praia, o que nos desestimulou a prosseguir.

Quando iniciamos essa viajem, eu esperava encontrar e fotografar as jangadas tradicionais, feitas com madeira de uma árvore denominada “piúba”. Madeira leve e de excelente flutuação também é conhecida como “pau de jangada”, mas infelizmente durante o nosso percurso, não consegui encontrar nenhuma dessas jangadas. Fiquei frustrado, pois tinha esperança de que, pelo menos no Estado do Ceará, tradicionalmente conhecido como “a terra das jangadas”, pudesse localizar essas relíquias da nossa navegação. Todas que vimos ao longo de todo o percurso, tanto no Rio Grande do Norte como no Ceará, eram jangadas modernas, feitas de tabuas e compensado naval.

Pegamos a BR 304 e iniciamos o retorno. As mulheres, como de costume, pressionaram para que o almoçássemos em Mossoró, estratégia que resultaria numa passadinha obrigatória no West Shipping. Não colou! O consenso masculino atuando em defesa própria, optou para que o almoço fosse realizado o mais perto possível da cidade de Natal, nosso destino final.

Um amigo, freqüentador assíduo da cidade de Lajes e seus restaurantes, sempre que falava no restaurante “Cabrito do João” se desmanchava em elogios. Lembrando disso, quando passávamos por Mossoró liguei para ele, que me informou o telefone do tal restaurante. Falei com o proprietário e quando lá chegamos, estava nos esperando o maior e mais saboroso banquete à base de cabrito. A mesa muito farta estava repleta de tudo que um faminto viajante poderia desejar. Feijão de corda, feijão verde, farofa de cuscuz, farofa d’água bem acebolada, arroz, macaxeira, batata doce, farinha de mandioca temperada com a graxa do cabrito e o prato principal, cabrito guisado. Tudo isso, dependendo do gosto do cliente, podia ser temperado com um pouco de manteiga da terra e uma boa pimenta malagueta. Para quem ia almoçar às três horas da tarde, aquela mesa mais parecia uma miragem.

Doze pessoas sentaram-se em torno da mesa e depois de uma hora ininterrupta de comilança, regada a cachaça e cerveja (para os que não estavam dirigindo) e algumas garrafas de refrigerantes, foi solicitado à conta. Qual foi nossa surpresa quando o João nos informou que tudo aquilo custara a bagatela de R$ 100,00. Não conformado com o preço irrisório por ele cobrado, solicitei que refizesse a conta novamente. Ele pacientemente somou tudo de novo e ao final sentenciou: R$ 105,00, mas para os senhores faço por R$ 100,00.

Pagamos a conta acrescida de uma gorjeta e prometemos ficarmos fregueses. O plano era vez por outra, reunir a mesma turma e dar uma passadinha em Lajes para almoçar no “Cabrito do João”.

Chegamos a Natal no final da tarde, cansados, mas já saudosos da viajem/aventura que nos deixou mais ricos no conhecimento e orgulhosos do nosso belo litoral. Percorremos um total de 937 km. Valeu à pena.

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG, membro do IHGRN e da UBE-RN)

www.ormuzsimonetti@yahoo.com.br

Matéria publicada no periódico “O JORNAL DE HOJE” edição de 25/02/2011