Poemas de Alberto Malanca

(um poeta italiano com alma portuguesa)

NOSSOS saberes poéticos, menos tidos, pouco dizem além dos sabores
lidos. Em matéria desses gostos e tinos, não nos cabe erudita chefia,
apenasmente leiga degustação. E um senso de salobra amargura parece
inflar os poemas desse livro, como velas fossem de ingrata escuna
sobre espuma de palavras. Isso é muito bom, por assim instigante
singeleza, sempre matriz de valia e boniteza.
Tais versos e reversos, assim os preferimos, quase sintônicos ao
presumido imaginário do poeta. Neles bordeja uma chã nostagia algo
camoniana e adeja um pessoísmo melancólico, decerto mais lusos que
italianos. Afinal, poeta vertical, Dante nunca falou dum salgado mar
de lagrimas… Mas, em ambos idiomas, viver a navegar fados faz-se
ainda mais preciso! Inerências de latinidade…
De verso em verso, cada poema segue inteiro, no proceloso mar dos
significados. Sem sinfonias doce-amargas, onde rimas apenas imitem
sentimentos, sem inusitadas agridoçuras, que dissimulam, mas não
temperam, algum sobejo de avulsa insipidez. Poética onde se adivinham
rotas de busca ainda indecifradas, como se inegados desejos de fuga
fossem liberados em revoejos de gaivotas.
Qual emersa da motivação oceânica, sopra outra recorrência, a
ambientação marciana… Imagens fantásticas dum mundo d?além-terra,
algo como espelhasse um atavismo quinhentista, vago exotismo
d?além-mar colombiano, bem mais diferente que tenebroso?
Sabendo salamarga maresia, navegos poéticos que inspiram embriaguês e
empatia. Alguns se sugerem gestados nalgum instante boêmio; numa ruela
de porto, sobre távola de bar; contando amores em linguagem
marinheira. Há laivos de queixa, travos de angústia, tons de ciúme,
buquê de resistências e desistências, corpus com vago odor de ternura.
Poemas demi-secos, tintos de emoção, com detalhes sorvíveis gota a
gota, como velhos vinhos fossem.
Neles se dissolvem mitos e ritos de quantas castas de mediterrâneas
musas; quase todas ímpias, algumas até saudosas, embora quase nenhuma
fiel. Se algum poeta impudico já segredou que ?boas musas podem ser
inventadas e descartadas?, disso discordamos. Vide versos e anversos
que hão decerto de padecer realidades.
Ou, ainda assim frustrantes, qual supra-sumos de poética utopia: musas
ariscas, megerinhas pouco sensíveis, meio volúveis; mas donas de dons
irresistíveis; ora graciosos, ora viciosos… Embora idealizadas,
descabíveis num coerente perfil feminino, quiçá rendam malverdades,
rebatidas com jocoso ressentimento.
Tanto que, nisso relendo verossimilhança, como tomados em compaixão,
logo torcemos pra que o poeta seja mesmo um fingidor. Há frases de tal
pungência depressiva que, noutro vocabulário, quase lembrariam o nosso
Augusto dos Anjos. Cantares de tíbia frieza, mágoa rechorada, talvez
percebidos como incompatível pessimismo, pois sem ranço de afetada
morbidez.
Mas, se bem que desenhados em tons claro-escuros, dedilham-se temas
quase nunca deliberadamente sombrios. Neles, como na vida, tristeza ou
solidão nunca são nortes, são conseqüências. Assim, parecem vibrações
centradas mais no canto que na lira; intuímos que mais brotadas das
entrelinhas do texto que do próprio coração de escrevivente.
Tirante tais sabores, restam artes outras, ainda de oralidade: ecos
movediços, alguns ditos coloquiais, ritmos sem metrias nem mestrias,
rimas casuais; engenhosa e bem dosada esgrima de palavras. Estrofes
fluidas, de suave trama, assim bem urdidas por tecelão também de prosas.
A poética malanqueana não se ensimesma em auto-piedades de cifradas e
restritas confissões, nem alardeia virtudes sem critério. Cheia de
marujas saudades – mais de tempos que de espaços – segue adiante, alma
afora… Singra em alta gávea, sonhos ao vento, sem temer sereias,
seguindo estrelas e achando horizontes. Com sensível pureza de
espírito, instiga no leitor certa cumplicidade ao lhe conferir
transparência de prazeres e penares. Sem a reticente timidez dos
sem-talento, mais parece desabafar, embora discreta e quase contida, a
catarse dum lirismo bem dicernido. Também feita pra comover, eis esta
primeira obra apresentada por Alberto Malanca.
Enfim, ponderamos, ?ninguém canta a poesia que pressente, mas o poema
que chorar consegue?. Assim tange, com boa cantiga, sua lira antiga;
isso bem nos benze, nos basta e gratifica.
E que suas escritas e nossas leituras sejam sempre assim, desfrutáveis
ao som de bandolim…

Bartolomeu Correia de Melo.