(TN – QUADRANTE – 10.04.2011)

 

 

 

 

 

 

Nelson Patriota [ Escritor ]

Começa a ganhar força em alguns meios intelectuais, com reflexos na mídia impressa, a ideia defendida pelo escritor Jurandyr Navarro preconizando a criação de uma Federação da Cultura, ou melhor, de uma federação das instituições culturais como um todo. A ideia já conquistou a simpatia e o entusiasmo de importantes personalidades da cultura potiguar, como, por exemplo, o escritor Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

De acordo com Jurandyr Navarro, criada a Federação da Cultura (ou FINSC – Federação de Instituições culturais do RN), os problemas relativos ao setor seriam grandemente equacionados e resolvidos, mediante a ação do binômio igualdade e fraternidade, que agiriam onde hoje prevalece o “apadrinhamento dissimulado e o vil metal [...]”; de outra parte, “as mãos serão dadas e, dessa união fraterna, de coirmãos, resultará a força geradora do espírito de luta, confiante e permanente”.

Daí se pode depreender que os problemas culturais sofrem limitações de ordem política (apadrinhamento), econômica (falta de recursos financeiros) e estratégica (falta de integração entre as entidades de cultura). Quem quer que milite na área em discussão, concordará com o diagnóstico produzido por Jurandyr. A perspectiva de reunir o maior número possível de instituições sob uma única entidade é, portanto, sedutora, na medida em que se creia no poder resultante dessa união. Sobremodo quando se está diante de um grande projeto em torno do qual o proveito resulta tanto mais certo quanto maior for o número de entidades federadas.

Não há garantias, porém, de que pequenas instituições possam encontrar maiores facilidades do que encontram hoje, dissociadas e entregues à sua própria precariedade. No mínimo, terão de negociar com representantes de entidades melhor estruturadas dentro do espaço comum propiciado pela entidade mãe.

Jurandyr, não precisa que se diga, é um grande idealista, imbuído dos melhores propósitos. E pessoas assim são capazes de suscitar uma forte corrente de apoio em torno de suas ideias. Argumentar com conceitos como fraternidade e igualdade onde hoje reina a mais acirrada competição é, sem dúvida, um ato audacioso. Mais: é acreditar que o abrigo federado comum teria o condão de aplainar as divergências, o modus operandi, as idiossincrasias, ideias fixas e projetos vitais que separam entidades culturais privadas das suas congêneres públicas, as tradicionais das novas, as vanguardistas das antiquadas, as mais conservadoras das menos conservadoras ad infinitum…

É que o pensamento único é incompatível com a ideia de cultura (como, aliás, provou ser inviável na política), haja vista que à simples menção dessa palavra, inúmeras interpretações afloram como que por “geração espontânea”. E se a divergência e a diversidade de pontos de vista são elementos rotineiros no trânsito das ideias, como fazê-las convergir ao fim comum da “união fraternal”, ali onde os amavios do vil metal não têm eficácia, nem funcionam os afagos do apadrinhamento dissimulado? Essa é uma questão em aberto.

Não se discute o importante papel que projetos conciliadores podem desempenhar, sobretudo em tempos de desagregação e perplexidade nos domínios da cultura. E sendo esse um traço marcante do espírito de nossa época, é inevitável que ele tome assento na tribuna da FINSC. Nessas ocasiões, só intelectuais de índole idealista são capazes de fazer um chamado à união em torno de uma bandeira que resuma todas as cores do espectro cultural, “organismo centralizador dos interesses superiores da Cultura”, como frisa seu propugnador. É evidente que, se num primeiro momento, fosse posto na mesa de discussões da nova entidade o conceito de “interesses superiores da Cultura” se correria o risco de travar o encaminhamento das demais matérias corporativas. Mas é inevitável que algumas questões polêmicas serão colocadas antes que a ideia de federação vire moeda corrente no nosso ambiente cultural.