Bartolomeu Correia de Melo:

LOURIVAL HOLANDA
(UFPE /Dep. de Letras)

Malgrado o esforço sanhudo dos doutrinadores de todos os quadrantes,
anunciando o fim da literatura, é uma alegria receber um bom texto.
Uma alegria, perceber que a linguagem literária mantém seu dinamismo,
sua força – ainda que contra os maus ventos que circulam nos próprios
meios literários e contra a maré baixa de desencantamento desses
tempos. A alegria vem de ver a audácia dos que produzem, indo além do
que, em tomo dos textos, cada geração teoriza. As teorias são como
andaimes: elegantes alguns, vertiginosos outros, mas secundários
sempre, em face da obra ao lado da qual se erguem.
?Estórias Quase Cruas?, que agora Bartolomeu Correia de Melo dá a
público, responde a um desafio que sabíamos difícil: depois de
Guimarães Rosa, como ousar retomar o registro popular e dar a ele
força e fulgor da criação literária? Rosa havia feito um mergulho nas
águas lustrais da tradição e havia renovado o paradigma literário
contemporâneo. Agora Bartolomeu volta com um texto onde reelabora a
linguagem ainda em circulação corrente junto ao nosso povo do
Nordeste, reaviva as expressões e modos peculiares de dizer, e assim
faz reviverem as possibilidades permanentes dessa cultura.
Ficamos gratos a esse texto por recuperar, em tempos de dissolução
globalizante, a força das vozes populares, em suas metáforas, seu
poder analógico, sua poesia. (E com um rigor que não faz concessões à
facilidade: não transcreve, mas transfigura a fala popular. E a poesia
se origina sempre da modificação feita sobre as realidades
lingüísticas. E é por isso que a linguagem literária cria uma outra
maneira de sentir – mesmo o mundo imediato – e de reabitar seu sentido).
O primeiro texto de Bartolomeu Correia de Meio – Lugar de Estórias -
dava já mostras de um mérito incomum: o de reencontrar a poética da
fala popular, sem, no entanto, cair, por veleidades de fideísmos, no
risco de repetir a dicção do povo. Quem repete reduz a riqueza daquela
fala. (Muita má literatura tomou a fidelidade à fala popular como
álibi de seu pouco poder de recriação. A questão de fidelidade a uma
tal fala é menos uma questão de moral e mais um desafio de estética
literária. Cervantes, Dante ou Guimarães Rosa souberam, com maestria,
alargar as possibilidades de dizer-se de uma dada cultura, num certo
momento. Rosa diz bem, com graça grave, o que cabe ao escritor que
retoma a fala popular: ele recria, reinsufla, reimanta essa fala.). O
que faz Bartolomeu: dá canto e plumagem às palavras populares. Como
quando conta a história do menino indo à feira vender, sabe Deus a que
custo, um passarinho de sua estima. Uma pega. Pretume azulando
rebrilhos ariscos entre os palitos. Aqui, o traço fundante de
Bartolomeu: o modo de dizer – sua poética. O sol empoleirado na
cumeeira do mercado. Sombras de gaiolas rendilhavam na calçada.
O leitor atento se vê compensado pela surpresa e precisão de certas
imagens: Dourada como asa-de-pega, a manhã de feira amadurecia. A
beira da calçada agora ia ficando banguela. Gaiola aqui, outra
acolá… (Lugar de Estórias – Xerox do Brasil/ UBE, Recife, 1998). Já
aqui se percebia a captação e transmissão da dinâmica da poética
popular – a lírica migração das vozes que veiculam a participação
coletiva (ou, para dizer belamente com Bartolomeu: como numa colcha de
retalhos costurada em mutirão) – na estrutura peculiar da frase, das
transposições sinestésicas, das sensações transpostas.
As vozes populares são recuperadas, com seu rico mundo de metáforas.
Melhor: são remuneradas. Bartolomeu devolve-lhes a força – munus -
primeva. Num outro momento, o menino fica a olhar os feirantes,
cubando o movimento. Um achado feliz, pela revisitação de um termo em
sua medida exata, dando bem seu poder de metaforização: cubar é medir.
Escritor grande sabe colher as vozes miúdas que circulam como sementes
no chão do povo e, de modo magistral, sabe dar a elas uma tal
densidade expressional que revelem a complexidade do fenômeno
cultural. É o que faz Bartolomeu com a fala interiorana, fazendo
render seus aspectos reminiscentes. Por isso vai escandindo sua frase
no ritmo da memória, atento às vozes do lugar. Daí, a força, de seu
texto: Poesia naufragada na ausência dos engenhos. Quede os bueiros
defumando a paisagem de manhã da criação? Aí está um poeta: atento ao
tempo, tanto quanto ao seu ofício de salvar da insignificação aqueles
velhos quandos, os acontecidos definidores. Vezes ficadas na
lembrança, vozes fincadas na saudade.
Alguns grandes textos da literatura brasileira trazem uma componente
rural muito acentuada: Os Sertões, de Euclides da Cunha;
Grande-sertão: veredas, Guimarães Rosa. Somos muitos os recém-saídos
do interior, no espaço de uma ou duas gerações, tendo guardado vivo
ainda na memória o ritmo que continua a cadenciar na sensibilidade um
certo sentido dado ali ao mundo. Bartolomeu soube, como poucos,
recuperar e fazer render a riqueza rítmica e imagética da dicção
popular. Daí a homogeneidade estilística de seus contos, desde ?Lugar
de Estórias?, que coube à União Brasileira de Escritores, de
Pernambuco, o orgulho de ter reconhecido, premiado e publicado, em 1998.
A linguagem é sua viola: Viola essa, com pouco, virada em pedaço de
mim. Dedilhada como quem coça comichão. Ah, farnezim gostoso, feito
gozo em mulher sonhada… Um escritor se reconhece por ser alguém
movido, animado pela linguagem. A linguagem é sua arma, seu
instrumento de perquirição do sentido do mundo. Não por acaso, em um
dos contos, o narrador deixa dito: Meu herói primeiro, não foi
Malazarte nem João Grilo, não. Se chamava Fabião, cantador rebequeiro.
Negro cativo que a poesia alforriou.
Já no texto de estréia Bartolomeu dizia a consciência de sua tarefa,
por ser exímio amador de seu ofício: Povo conta como entoa seus
cantares, na riqueza lírica das suas rimas pobres. Daí seu desafio em
captar o registro da fala popular guardando sobretudo seu ritmo e as
figurações – em filigrana – de sua expressão. E resolve pela ironia
fina o suposto confronto entre registro popular e registro erudito. E,
se toma partido pelo registro popular, é porque crê estar ali a matriz
de toda grande criação literária. Linguajar livre e sadio que, por
deslustrado, sobrevive assim teimoso; ignorando o vai-e-vem dos ismos.
Aliás, parecendo malagouro, não conhece nem padece da finura sonsa de
tais rabos-de-palavra. O processo de criação de Bartolomeu, ao
recorrer à memória popular, instaura-se como resistência ao risco de
diluição que grassa nos tempos recentes, como ferrugem rói a frágil,
vulnerável ? e preciosa ? alma da cultura contemporânea.
Sem qualquer propósito de levantar bandeira, Bartolomeu alça a
linguagem sertaneja como um estandarte, num exercício salutar de
revitalização das possibilidades de dizer-se, de sentir o mundo e de
instituir, pela linguagem, o sentido das coisas. Memória é soma e
síntese. Os contos que aqui Bartolomeu expõe recebem da memória
cultural – que a linguagem resguarda como riqueza em circulação – seu
impulso: há um saber que aí o tempo acumulou e que vai impregnar as
melhores criações literárias, na reconstrução lírica do real. Pois
requentar alegrias, adoça amarguras.
As palavras foram habitadas por uma vivência que permite agora, tanto
ao estudioso como ao escritor criativo, perceber seu permanente poder
de fabulação e de reinterpretação do real. Daí ser o texto de
Bartolomeu oportuno e pertinente: quando tantos políticos se esmeram
em mascarar, mancomunados com banqueiros, a dilapidação do patrimônio
público, o poeta Bartolomeu Correia de Melo põe em circulação a moeda
do primeiro tesouro cultural de um povo: as fabulações de sua fala.
Como se ele retomasse o que diz Eça de Queirós, via Fradique Mendes:
Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade. Bartolomeu traz à
tona, nesses contos, certas dimensões da fala sertaneja só
perceptíveis na captação de seus valores líricos. Breve – e intenso -
sinal de permanência de boa criação literária nos rincões de cá.

LH / Recife