JOSÉ FERREIRA DA ROCHA

É público e notório que, entre nós, em qualquer ponto do território nacional, há uma paixão desenfreada pelo estudo da língua inglesa, com sensível prejuízo para o devotamento prioritário à Língua Nacional. Não vou discutir as vantagens de saber o Inglês, o Francês, o Alemão ou qualquer outra língua de qualquer família lingüística, mesmo de língua orientais. Há, entre nós, ofertas de cursos de Japonês, de Árabe e de Russo. Nada contra. Quem se comunica, em mais de uma língua, tem indiscutíveis vantagens nas suas ambições culturais. São horizontes novos que se abrem para os desejos de novos conhecimentos e novas perspectivas. São pontes que se lançam para integração com novas comunidades com que, porventura, se ponha, em contato, o usuário desses idiomas.

O perigo está em que esses estudos de línguas estrangeiras venham eclipsar interesse prioritaríssimo pelo domínio, oral e escrito, do idioma nacional, mormente, quando a Língua Nacional tem uma história cultural e uma genealogia que a põe, no mesmo nível das línguas, pelas quais se tenha tamanha e irrefreável fascinação. Eça de Queiroz, na sua conhecida e benemérita mordacidade, chegou a dizer que o cidadão que se preze deve falar, patrioticamente bem, a sua língua e, patrioticamente mal, a língua dos outros… . Nem tanto ao mar, nem tanto à terra… . Mesmo, nesses casos, é odioso qualquer radicalismo. O Inglês, hoje, é a segurança língua de cultura do mundo. É uma língua cosmopolita, genealogicamente germânica e, culturalmente neolatina, para a ciência e para a literatura. É, portanto, uma língua necessária ao homem civilizado. É o seu passaporte diplomático-cultural que lhe assegura livre trânsito “nas sete partidas do mundo”. Estude-se, destarte muito o inglês, mas estude-se, no Brasil e nos países de expressão portuguesa, intensamente mais, muito mais, o idioma nacional. Não fossem outros motivos, estes, de si mesmos, bastariam: brio, vergonha, civismo, autoestima.

Não devemos ser xenófobos; não sejamos, por outro lado, esnobes,e, espiritualmente, apátridas. Apátrida, também, o é quem, por motivos indefensáveis, não se preocupa com o estudo do seu idioma, seu cultivo, seu aprimoramento. Tão bom que se lembrasse o nativo do que escrevera Fernando Pessoa, unindo ao sentimento de Pátria o zelo pela Língua Nacional: – “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”. E mais, remotamente, era a Cidadania Romana: – “Civis romanus quia latine loquitur” – Cidadão romano porque fala Latim. Evidentemente, um bom Latim, que não era o “Sermo rusticus”, “plebeius” ou ‘Castrensis”, este o pior Latim.

Infelizmente, há com o Latim, até, nos seminários católicos e nos Cursos universitários brasileiros, um criminoso processo de “EUTANÁSIA”, ele agoniza, na deficientíssima carga horária dos cursos de Letras e dos Institutos religiosos e essa agonia não vem conhecendo uma U.T.I. que possa reanimá-lo e restituir-lhe as energias vitais, ministradas, sobretudo, pelo amor, dedicação e competência de professores que creiam no Latim e amem-no. Isto é de fundamental importância para que os estudantes despertem para o Latim, sintam que o Latim não é Língua Morta, mas Língua IMORTAL,como, sabiamente, doutrinava Antoine Meillet, um dos mais eminentes latinistas franceses de todos os tempos. O Latim como expressão de cultura é mais importante mesmo  do que o Grego, na formação cultural do Ocidente. Marouzeau dará a frase que marca essa importância: “ LATIN LANGUE DE ROME, LATIN LANGUE DU MONDE”.