Ciro José Tavares

Reflexões à margem d poesia de W.B. Yeats

O Poema não é uma invenção, é arte. Arte permanente que guardamos nos nossos espíritos. É o lirismo que fazemos transbordar nas palavras. Nasce de nossas verdades que emergem de algum lugar dentro de nós. O poema ocasional é falso e por essa razão banal, medíocre, sem valor.

Há enorme diferença entre o poema que brota da inspiração autêntica e o construído pela conveniência de quem escreve. No primeiro os versos chegam tão silenciosos que o poeta não percebe, sente a beleza aflorando e a transforma em palavras líricas, de tal forma que isso possa ser alcançado pela sensibilidade alheia. No segundo, os versos são colocados como numa gaveta de roupas bem arrumada, mas seu argumento é frio, inócuo e não fala à alma de ninguém. O gongórico, a suntuosidade forçada, são danosos à poesia.

Se a opção do escritor é pelo soneto clássico é preciso o domínio absoluto da métrica e das rimas ricas. Aqui há dois caminhos, o alexandrino de doze sílabas, ou o de dez (decassílabo). O exemplo prático é o nome de Bilac: Completo tem doze sílabas Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Se retirarmos o Martins, por exemplo, a composição é típica do decassílabo. Chamemos Atenção para os arroubos do condoreirismo. O estilo bombástico, grandiloquente está superado. A poesia moderna pede simplicidade. Se a opção é pelo verso branco, adotado pela maioria dos românticos ingleses, a rima é dispensada, mas o ritmo é fundamental. O verso deve ser musical, suave, aconchegante. O argumento paira nas entrelinhas. Quebrado, sem ritmo na sua estrutura, o verso parece instrumento desafinado.

Finalmente ao escritor, se poeta, não deve faltar o mito. Se não conhece o campo da mitologia, pode criar, inventar ou reinventar, desde haja conexão com o texto e não atropele a beleza. Completo as reflexões com o próprio William Butler Yeats. Difícil não encontrar nas profundezas interiores de sua obra poética o amor por Maud Gonne que, por três vezes, rejeitou seu pedido de casamento. Casado com Georgie Hyde Lees e ela com John Mac Bride encontram-se, pela última vez, poucos meses antes de sua morte, em janeiro de 1939, aos 74 anos.

“Ouço os cavalos fantasmas, as suas longas, alvoroçadas crinas,

Os tumultuosos e pesados cascos, o branco esplendor dos olhos;

O Norte desvenda-lhes a obstinada, serpenteante noite,

O Leste sua oculta alegria ao romper da manhã,

Chora o Oeste o pálido orvalho enquanto suspirando morre,

Verte rosas o Sul de fogo carmesim:

Oh que inúteis o Sono, a Esperança, o Sonho, o eterno Desejo,

Os cavalos do Desastre investem pela densa argila;

Amada, semicerra os olhos, deixa o teu coração palpitar sobre

O meu coração, sobre meu peito deixa os teus cabelos,

Afogando a solitária hora do amor em profundo anoitecer de paz,

Escondendo as agitadas “crinas, os tumultuosos cascos.”

Ele PEDE À SUA AMADA QUE ESTEJA EM PAZ