Nos sertões do nosso Rio Grande, até os tempos do meu bisavô
Antônio Alves Machado, rico-homem de terras e gados, as enormes
fazendas sertanejas de criação não tinham cercas nem pastos; os
rebanhos viviam livres, embrenhados na caatinga sem fim. No manejo
desse gado, pela seca de cada ano, havia o mutirão da ferra, pra
marcação da garrotada nascida no inverno. Havia um grande curral, onde
se reunia e dali partia a vaqueirama das redondezas; vestida de couro,
mode os espinhos, vaquejando mato adentro, tangiam com belos aboios as
vacas mansas e suas crias desmamadas.  As reses mais ariscas eram
perseguidas e derrubadas durante a perseguição por forte puxavante do
rabo, pois a mata densa não permitia uso de laço.  Depois de dominadas
a muque, eram mascaradas ou peadas e trazidas para o curralão. Havia
disputas entre os vaqueiros pelo maior número de bichos aprisionados.
Daí nasceu o brabo esporte da vaquejada.

Mas, tamanha era a caatinga e tanto era o gado, que nem todos os
garrotes do ano eram pegos e ferrados. Sempre restava algum mais
esperto e arredio que não se deixava vencer, fugia pros pés-de-serra,
cheios de lagedos, onde ficava mais fácil pro perseguido e mais
difícil pros perseguidores. Assim, crescendo livre e sadio, sem
contato humano, ficava cada ano mais selvagem e chegava a touro erado,
o dito barbatão. Eram machos fortes e violentos, sem marca de dono,
que passavam a atacar os vaqueiros em defesa das fêmeas que
arrebanhavam, prejudicando o bom andamento dos trabalhos da pega de
gado.

Vencer um barbatão era feito glorioso e vantajoso, pois, além do
ganho em fama de traquejo e valentia, o vaqueiro preador ganhava o
direito de posse do tourão vencido. Por sua ferocidade, sem nunca
amansar nem sujeitar-se, era castrado ou abatido, após um festejo de
torturas e abusos por parte da vaqueirama, muitas vezes vingando
colegas mortos ou feridos nas tentativas de derrotá-lo.
Alguns barbatões, por invencíveis, muito se afamavam, como o cearense
Boi Barroso, tourão vermelhusco que, segundo contam, deu sobrenome aos
descendentes daquele que o venceu e castrou.

Na ribeira do Potengi, abas da serra Joana Gomes, criou-se um
barbatão castanho, enorme e ladino, que por mais de uma década
escapava dos quantos vaqueiros também famosos que vinham de longe
querendo caçá-lo. Certa feita, durante uma perseguição, esse touro
pisou num buraco de tatu, machucando um mocotó dianteiro. Mesmo assim
prejudicado, por alguma manobra de esperteza, conseguiu escapar. A
perna sarou, mas o pulso ficou duro, daí obrigando o animal a mancar.
E ainda por vários anos falavam nesse bicho macho que, mesmo manco,
ninguém vencia.

Aí surgiu a lenda do Touro Mão de Pau. Essa estória foi contada em
cantorias do grande Fabião das Queimadas, escravo rabequeiro nascido e
vivido na Lagoa dos Velhos. Depois, coletada por Câmara Cascudo, virou
folheto de cordel, sendo enfim adaptada por Ariano Suassuna e cantada
pelo talentoso Antônio Nóbrega. É uma comovente mostra da mais pura
arte poética e musical nordestina, onde os antigos costumes e os
bravos valores de honra são pungentemente louvados.

Da casa-grande da Fazenda Aliança, lugar de nossa posse, se avista
o por-do-sol detrás da serra Joana Gomes. Diz-que em nenhum outro
poente o céu tanto se avermelha; por certo, mode o sangue ali vertido
pelo pelo honrado Mão-de-Pau.
Se duvida dessas belezas, apois clique neste link:

http://www.youtube.com/watch?v=uYgPzCPQXiU

Bartolomeu Correia de Melo