Ferreira Gullar

TENHO COMENTADO aqui o fato de que, para alguns linguistas, nunca há erro no
uso do idioma: tanto faz dizer “problema” como “pobrema” que está certo.
Confesso que, na minha modesta condição de escritor e jornalista,
surpreendo-me, eu que, ao suspeitar que poderia me tornar poeta, passei dois
anos só lendo gramáticas. E sabem por quê? Porque acreditava que escritor
não pode escrever errado.


E agora descubro que ninguém escreve errado nunca, pois todo modo de
escrever e falar é correto! Perdi meu tempo? Mas alguma coisa em mim se nega
a concordar com os linguistas: se em todo campo do conhecimento e da ação
humana se cometem erros, por que só no uso da língua não? É difícil de
engolir.


Essa questão veio de novo à baila com a notícia de um livro, adotado pelo
Ministério da Educação e distribuído às escolas, em que a autora ensina que
dizer “os livro” está correto. Estabeleceu-se uma discussão pública do
assunto, ficando claro que, fora os linguistas, ninguém aceita que falar
errado esteja certo.


Mas não é tão simples assim. Falar não é o mesmo que escrever e, por isso,
falando, muita vez cometemos erros que, ao escrever, não cometemos. E às
vezes usamos expressões deliberadamente “erradas” ou para fazer graça ou por
ironia. Mas, em tudo isso, está implícito que há um modo correto de dizer as
coisas, pois a língua tem normas.
O leitor já deve ter ouvido falar em “entropia”, uma lei da física que
constata a tendência dos sistemas físicos para a desordem. E essa tendência
parece presente em todos os sistemas, inclusive nos idiomas, que são também
sistemas.
Devemos observar que as línguas, como organismos vivos que são, mudam,
transformam-se, como se pode verificar comparando textos escritos em épocas
diferentes. Há ainda as variações do falar regional, que guarda inevitáveis
peculiaridades e constituem riqueza do idioma.


Mas isso não é a mesma coisa que entropia. Já violar as normas gramaticais
é, sim, caminhar para a desordem. Se isso é natural e inevitável, é também
natural o esforço para manter a ordem linguística, que não foi inventada
pelos gramáticos, mas apenas formulada e sistematizada por eles: nasceu
naturalmente porque, sem ela, seria impossível as pessoas se entenderem.
Na minha condição de “especialista em ideias gerais” (Otto Lara Resende),
verifico que, atualmente, não só na linguística, tende-se a admitir que tudo
está certo e, se alguém discorda dessa generosa abertura, passa a ser tido
como superado e preconceituoso.


Agora mesmo, durante essa discussão em torno do tal livro, os defensores da
tese linguística afirmaram que quem dela discordava era por preconceito.
Um dos secretários do ministro da Educação declarou que aquele ministério
não se julgava “dono da verdade” e que, por isso mesmo, não poderia impedir
que o livro fosse comprado e distribuído às escolas.
Uma declaração surpreendente, já que ninguém estava pedindo ao ministro que
afirmasse ou negasse a existência de Deus, e sim, tão somente, que decidisse
sobre uma questão pertinente à sua função ministerial.


Não é ele o ministro da Educação? Não é ele responsável pelo rumo que se
imprima à educação pública no país? Se isso não é de sua competência, é de
quem? De fato, o que estava por trás daquela afirmação do secretário não era
bem isso, e sim que a crítica ao livro em discussão não tinha nenhum
fundamento: era mero preconceito. Ou seja, simples pretensão de quem se
julga dono da verdade que, como se sabe, não existe…
Esse relativismo, bastante conveniente quando se quer fugir à
responsabilidade, tornou-se a maneira mais fácil de escapar à discussão dos
problemas.


Certamente, não se trata de afirmar que as normas e princípios que regem o
idioma ou a vida social estejam acima de qualquer crítica, mas, pelo
contrário, devem ser questionados e discutidos. Considerar que todo e
qualquer reparo a este ou aquele princípio é mero preconceito, isso sim, é
pretender que há verdades intocáveis.
Não li o tal livro, não quero julgá-lo a priori. Creio, porém, que quem fala
errado vai à escola para aprender a falar certo, mas, se para o professor o
errado está certo, não há o que aprender