Quase 12 anos após a morte de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um manuscrito inédito do poeta começa a ser ordenado para virar livro. “A Casa de Farinha” é um auto, um texto dramático – assim como o poema mais famoso de João Cabral, “Morte e Vida Severina”.

O escritor, que perdeu a visão anos antes de morrer, não concluiu o material. Mas deixou 40 folhas manuscritas, com pesquisa, estudos e linhas gerais da trama, bem como os primeiros diálogos em versos.

A peça mostra a incerteza dos trabalhadores de uma casa de farinha (local em que a mandioca é processada artesanalmente até virar farinha) ante o rumor de que o local vai ser engolido pelo progresso.

Os inéditos, os únicos conhecidos de João Cabral, serão publicados no ano que vem pela Alfaguara. O acontecimento se deve à decisão de Inez Cabral de Melo, uma das filhas do escritor, de trazê-lo agora à luz.

“Ele me entregou pouco antes de morrer e disse que eu fizesse o que quisesse.”  A ideia original de Inez era fazer um documentário. “Mas isso pode demorar, e senti que esse manuscrito merece ser mostrado”, disse.

Projeto antigo

Pelo menos desde 1966, quando acompanhou a turnê europeia do grupo de teatro do Tuca na antológica montagem de “Morte e Vida Severina”, João Cabral de Melo Neto já falava que escreveria “A Casa de Farinha”.

Silnei Siqueira, o diretor daquele espetáculo (com música de Chico Buarque), conta que, na ocasião, o poeta lhe descreveu a ideia.”Ele queria uma coisa muito bonita, uma história sobre a estranheza das pessoas da casa de farinha porque o dono do local de repente deixa de cobrar aluguel”, lembra.

Como muitos, Silnei achava que o projeto não fora adiante e pareceu eufórico ao saber que João Cabral deixou um manuscrito e que ele será editado. “Ô, nego, que bela n otícia para mim, que coisa boa, eu não sabia disso.”

Numa entrevista em 1987, o autor de “Museu de Tudo” disse que o auto estava “praticamente pela metade”. Segundo Inez Cabral de Melo, 63, segunda dos cinco filhos de João Cabral, no manuscrito não há personagens específicos, mas coros, cujos arautos são os trabalhadores da casa de farinha. Os homens que levam a mandioca ao local são os “pessimistas”, e as mulheres que a descascam são as “otimistas”.

Os “pessimistas” fazem circular um boato de que a casa de farinha vai fechar. O auto gira em torno das conjecturas sobre o futuro dos trabalhadores. “Vai virar uma usina? A Sudene, que paira como uma entidade, vai transformar aquilo em outra coisa?”, detalha Inez.

Ela diz que o manuscrito tem papéis de todos os tamanhos. “Papai escrevia à mão, em pedacinhos de papel. No meio de uma conversa, de repente ele tirava um papel, escrevia e guardava no bolso.”

Depois de digitados, os inéditos resultaram em 35 páginas. O livro terá textos complementares. Um deles, segundo deseja Inez, poderá ser do historiador Evaldo Cabral de Melo, irmão de João, sobre a importância da mandioca para as culturas nordestina e brasileira.

Trecho do manuscrito

“2º Arauto

Jogo no chão a mandioca
Que ninguém discutirá
No chão, de baixo para cima
Para que a possa descascar
Não de cima para baixo
Como milagre ou (lei, decreto*)
Jogo a mandioca no chão
Para quem queira examinar
Etc, etc.”

*A dúvida sobre que palavra usar está no manuscrito e será mantida no livro.