Pablo Capistrano

Em uma entrevista disponibilizada no portal youtube

http://www.youtube.com/watch?v=uzB99ARrdqA
o pensador alemão Peter
Sloterdijk dá um diagnóstico certeiro sobre o atual estado de espírito
das massas na banda ocidental da terra: “os partidos políticos não
conseguem mais dar vasão ao ódio social”.

Se há uma função importante na política é a de evitar a guerra.
Sempre que as instituições e os mecanismos que dão conta das práticas
políticas em uma sociedade entram em decadência o diálogo sucumbe e a
violência se torna uma perspectiva real.

Se há algo, nesse inverno potiguar de 2011 que as borboletas não
sabem (a julgar pelas últimas entrevistas da prefeita de Natal) é que
Peter Sloterdijk muito provavelmente está certo. E mais certo ele
estaria se conhecesse a fundo o Rio Grande do Norte.

Parece que as borboletas não sabem que, nesse Estado, vivemos um
desconcertante paradoxo. Nós assumimos com voracidade uma moral
capitalista, mas continuamos, espantosamente, a manter as velhas
instituições da política aristocrática. Continuamos atrelados a um
modelo antigo, arcaico, rural e familiar de poder. Um modelo no qual as
instituições políticas, jurídicas e econômicas, vinculadas por
misteriosas interconexões genealógicas, se fundem sob o pano de fundo de
uma casta que mantém vivo o nauseante absurdo de termos aceitado uma
economia de mercado, mantendo uma política feudal.

Essas borboletas não entendem que existe uma estranha náusea
perpassando nossas instituições políticas. Uma náusea que tem a ver com a
percepção da contradição, que monta um discurso de liberdade, justiça e
isonomia para esconder tradicionais práticas de exclusão e de
distanciamento das ruas que marcavam as velhas monarquias do antigo
regime.

Ali estão os homens da lei, com seus diplomas. Estão os netos dos
velhos fazendeiros do couro e do algodão, os filhos dos antigos
comerciantes das cidades do interior que controlavam à bala, no tempo de
Jesuíno Brilhante, a política desses sertões. Ali está a imprensa, com
seus compromissos, suas conexões, suas dependências. Ali estão os
representantes do povo, eleitos por trás das bandeiras dos velhos
partidos, símbolos mortos que hoje perdem cada vez mais seu significado,
incapazes de desmascarar a náusea de um Estado que sabe não ser aquilo
que dizem que ele é.

As borboletas não sabem, mas em algum lugar está o povo (essa
abstração sem forma que o romantismo alemão inventou) observando o
cenário com sua letargia cotidiana, com seu rancor histórico
concentrado, com sua fome de justiça entorpecida pela novidade do
consumo, que chega as classes mais baixas do abecedário.

O povo: esse detalhe, que não acredita mais nas instituições.

Eles sabem que essas instituições não os representam. Que elas não
mais conseguem ser porta vozes de suas demandas. As ruas já sabem há
muito tempo, da estranha náusea moral que esse regime tenta esconder.

Talvez, apenas as borboletas não saibam, mas o movimento #ForaMicarla
não nasceu de uma rixa pessoal, de uma antipatia política particular ou
de uma manobra tradicional dos mesmos velhos senhores feudais de nossa
terra. Ele já estava guardado em potência, por muito tempo, antes mesmo
da eleição de 2008, nas entrelinhas cotidianas dessas massas de anônimos
que se apertam entre porres de cachaça, forró e futebol, zonzos com o
milenarismo eletrônico das seitas pós-modernas e com a loucura
consumista desses tempos fraturados.

Retido, no coração  do povo potiguar.
Nós sabemos.

Sim, nós sabemos, mesmo que intuitivamente, desses paradoxos.

Sentimos essa náusea, que é um pouco a náusea de outros brasileiros,
que é um pouco a desesperança desses anos em que a utopia foi enterrada
na cova rasa do pragmatismo político.

Por isso, por favor, não mexam no que sobrou desse velho desejo de
mudança. Não fechem as portas para que o que resta de nossas crenças
políticas. Não permitam que nossos nacos de utopia venham a padecer no
balcão das negociações eleitorais.
Porque quando a política morre, o que sobra é a guerra, e na guerra, ninguém, nem os servos nem os senhores, são felizes.

Sloterdijk, o velho pensador alemão, conterrâneo de Marx, Hegel e
Heidegger foi perguntado pela entrevistadora estrangeira: “o senhor
acredita na revolução?”.

Ele respondeu: “a vida é uma permanente revolução”.

Isto, com certeza, as borboletas não sabem.

Ao menos em Natal.