Breve e imperfeita louvação de
amigo.
Pedro Simões Neto

No sábado passado, às 16.30, Bartolomeu Correia de Melo deixou-nos para
atender a um chamado do Criador. Estava já no limiar de sua resistência física
e moral, de tanto lutar para viver – ele, um guerreiro digno, obstinado e
forte. Lutou enquanto pôde. Não que resistisse à fatalidade, pois era um crente
nos desígnios de Deus, mas dizia a si mesmo que glorificaria o Pai,
preservando, no esforço da superação e da resistência, o bem mais precioso que
Dele recebera – a vida.

Nós, seus amigos, acompanhamos a luta desigual, entre o Davi que ele Ra
e o Golias das insidiosa s patologias que se alojaram no corpo do guerreiro, e
por isso mais valorosa. Entre o hospital e o confinamento doméstico obrigatório,
vivia , no entanto, como se nada estivesse acontecendo. Mas não se enganava,
nem nos enganava. Queria sorver a vida, que sempre tivera em plenitude, com
sofreguidão, até o último instante.

Eu mesmo, um privilegiado,  tive a
alegria de receber dele uma demonstração de afeto e desprendimento, quando, já
cheio de dores, que se agravaram com a descoberta de mais uma agressão à saúde,
compareceu com o seu anjo da guarda, Verônica (Vera), a uma sessão da Câmara de
Vereadores de Ceará-Mirim, onde apresentei um plano de revitalização e
Desenvolvimento da cultura local.

Estávamos ligados por uma série de circunstâncias: éramos
cearamirinenses adotivos e elegemos a cidade como a nossa pátria afetiva –
compromisso de vida inteira. Por isso ele quis ser sepultado no cemitério de
lá, de frente para o vale que nos embriagava desde a infância, uma referência
imorredoura. Também quero depositar nele os meus restos de vida física.

Amávamos a literatura e nela encontramos uma maneira de registrar a
vida que tivemos, dar o nosso testemunho da mágica e extraordinária realidade
que não era visível aos olhos dos que não enxergavam. Uma realidade fantástica,
que não se oferecia aos circunstantes preocupados apenas no sobreviver.

Era preciso uma lente extra-sensorial para captá-la e uma linguagem
adequada para expressá-la. E Bartola conseguiu esse milagre.

Tornou-se, sem produzir-se, conduzido apenas pela sensibilidade e
desejo quase obsessivo de exibir o seu povo – o nosso povo – razão maior das
nossas investigações, o maior ficcionista do Rio Grande do Norte e dos maiores
contistas do Brasil.

A literatura de Bartola distingue-se das demais, porque ele transcende,
nas suas escrituras,  a mera construção
vocabular, a originalidade forçadamente distintiva, o recurso criativo extraído
da fertilidade imaginativa. Diversamente de outros criadores (Guimarães Rosa e
Manoel de Barros, por exemplo) ele não criou as expressões que apropriou em sua
linguagem literária. Nem as utilizou em exercícios lúdicos.

Ele as recolheu nas andanças pelos caminhos do sertão e do litoral -
pois sempre foi um andarilho deslumbrado – no cordel, nos repentes, nas
emboladas, nas feiras livres e nas toadas dos brincantes das nossas festas
populares.

Aquilo que não ouviu, intuiu, e apenas deu extensão e liberdade à
linguagem popular que se escondia no pensamento e no imaginário do nosso povo.
Eu lhe disse isso, certa vez e ele ficou matutando, ensimesmado, e de repente
deu-se conta de que se tratava, de fato, de uma observação pertinente e me
disse: sabe que você está certo? Às vezes me vejo diante de um silêncio mais
falador do que todas as falas do mundo. Até de quem bebeu água de chocalho.

Os dois livros de contos que escreveu, “Lugar de Estórias” e Tempo de
Estórias”, podem e com certeza serão incluídos em qualquer antologia do conto
brasileiro. Nenhuma contribuição à literatura brasileira, especialmente
representativa da nossa região, merece tanto destaque quanto esses dois. E não
pensem que exagero, ou que aplique sobre a obra a visão de um amigo e
admirador.

Também escreveu livros infantis, “O fantasma bufão” e “A roupa da
Carimbamba” e um dos seus contos (“Da janela”) foi adaptado para o teatro, numa
peça de um só ato.

Não sou crítico literário nem um esteta com tanta erudição que me seja
dado o benefício da credibilidade. Entretanto, sou um instigador, um
provocador, alguém que não se compraz em estabelecer verdades  pessoais, mas em argumentar dialeticamente ou
comprovar pela amostragem a verdade que se coaduna com o senso comum.

Leiam os livros de Bartola, e concordem comigo pelas evencias. Releiam,
os que já o fizeram, mas desta vez com espírito crítico, analítico, sem
preconceitos. Com aquela disponibilidade Gideana que se deixa seduzir, se
quiser, ou amaldiçoar, querendo, mas livres para voar.

Miguel Cirilo, um dos maiores poetas que o Rn já (des)conheceu, dizia:
“Posso conviver com os anjos e não me converter; com os demônios e não me
pervereter”. Que seja assim a abordagem dos neófitos nas Bartolomeicas
narativas, ou na releitura dos céticos ou garimpeiros de verdades.

Mas mergulhem no universo de Bartola. Não se postem como Grieco que, à
parte o seu valor como crítico literário, ficou conhecido pela negação ao seu
próprio ofício: “Não li e não gostei”. Porque há também quem leia e não decodifica
o frasead, nem descobre nas entrelinhas.

Devo dizer que o nosso estado, (e o Brasil), perdeu um dos seus mais
importantes escritores. Se não pensarmos assim, depois de ter lido ou relido os
livros de Bartola, é porque somos preconceituosos, invejosos ou sofremos do
complexo de inferioridade de alguns nordestinados. Aprendi que contra fatos não
há argumentos.

Li e reli os dois livros, porque apaixonei-me perdidamente à primeira
vista e tive que retornar a eles para uma releitura menos emocional, mais
depurada, mais isenta. E aí foi que me perdi definitivamente. Passou a ser um
amor infinito que, diversamente do descrito por Vinicius, seria infinito porque
duraria aternamente.

Perdemos também, os seus amigos, o convívio de uma criatura a um só
tempo, afável, dono de uma humanidade que porejava evidente nos gestos mais
comuns, e ao mesmo tempo um homem de muito  espírito, que transitava com desenvoltura do
humor  fescenino ao comentário satírico,
passando pelas citações e reflexões eruditas.

Só não tínhamos afinidades político-ideológicas. Nesse terreno tínhamos
discussões acaloradas. Ele, conservador, eu, socialista. Mas a nossa amizade
estabelecia limites. Quando chegávamos às raias dos achincalhes e agressões,
transigíamos nas coisas menores que não alcançavam o cerne das nossas idéias,
aceita por ambos como um sinal de pacificação, uma trégua.

Cumprimentou-me civilizadamente quando Dilma foi declarada vencedora,
mas não resistiu e vaticinou as piores desgraças para o nosso país, nas mãos da
“camarilha” comunista. Era assim o Bartola, carne, ossos e emoções afloradas.
Ele era ele, sem receio de ser o que Ra. Autêntico.

Esgotei as possibilidades de caracterizar o Bartola que muitas vezes
tomei como personagem, quando o perfilei no meu livro “A Intriga do Bem”, onde
o dava como anjo-torto, encarregado por Nossa Senhora da Conceição de
estabelecer as fundações de Ceará-Mirim.

Perdi um amigo e um companheiro de divagações e inquietações. Perdi um
contendor leal a precioso, culto e coerente com as questões de princípios que
adotou, alguém que fazia diferença  na
cosntrução de uma convivência democrática da diversidade político-ideológico.

Ceará-Mirim e o Rio Grande do Norte perderam a sua maior expressão
literária. Os humanistas, um dos seus mais renitentes retratistas e ativistas
Verônica e os seus filhos, um companheiro e um pai devotado.

Que Nossa Senhora da Conceição o receba como seu acólito e o recomende
ao seu filho para que ele tenha um brevíssimo estágio, pois já chegou
preparado, e retorne logo a esse nosso plano  para completar a sua missão.

OBS – Deixou-me o encargo de editar o seu livro de poesias “Musa
Cafuza”, pois era um bom poeta embora se confessasse “intruso” nesse gênero.

FOTO: minha filha caçula, Maria, Bartola e Verônica(Vera) sua mulher.

Natal, madrugada de segunda –feira, 20.06.11