Por Alessandra Galvão (1)


Nathanael West, grande escritor americano, possuía um espinho no dedo, que só doía quando usava o tal dedo para escrever. Ao se ler O Dia do Gafanhato percebe-se alguma coisa.  Qual a relação desses fatos aqui postos com Woody Allen? O que ambos tem em comum é a especialidade em vender neuroses. O que os separa é que West não saboreou o sucesso em vida. Seus quatro livros publicados não foram lidos por ninguém, sua morte foi em 1939 e só em 1973 o cinema o redescobriu, rendendo alguma glória póstuma.

Já Woody precisou de apenas alguns anos para desencadear um sucesso repentino. Pode-se dizer que não foi algo fácil e como todas as pessoas numa faixa de normalidade, veio de baixo e demorou a subir. Diga-se de passagem que nasceu no Brooklyn, no ano de 1935, de uma família pobre. Numa fase melhor da família, seu pai fez pressão para que estudasse violino, do que foi salvo pelos vizinhos, que achavam tudo isso puro sadismo. Tempos idos, quando estudava, não foi aceito pela equipe de xadrez da escola, devido a sua altura. Como se isso tudo fosse pouco, chegou a ser expulso de duas faculdades e por motivos mesquinhos – em uma foi acusado de ter sonhos eróticos durante uma aula e na outra por um motivo bizarro, o de estar observando uma alma do além-mundo. Histórias de Woody Allen, cujo humor sempre fez parte  de  sua vida.

No ano de 1952, começa a escrever piadas para artistas cômicos de cabaré e televisão. Suas piadas, muito melhores que os cômicos que as interpretavam, fizeram com que o próprio Woody, já em 1964, obtivesse permissão para subir ao palco e narrá-las. Infelismente, quando estreou, ficou sem voz, arrancando risadas de todos. Todavia o dono do cabaré não achou graça alguma e o demitiu. O que não foi motivo para um grande trauma.

Woody, por essa mesma época, casa-se com uma moça, a candidata preferida do seu pai. A união não teve êxito, pois segundo Allen ela era um tipo infantil, que afundara seus barquinhos na banheira sem justificar-se. O senso de humor foi sempre uma constante em sua vida, até mesmo enfrentando um divórcio.

Em 1965, escreve o roteiro e os diálogos do filme “Que é Que Há, Gatinha?”, no qual perde o papel principal para um ator mais famoso, Peter Sellers. No entanto, mesmo em papel secundário, consegue chamar mais a atenção e roubar a cena. A partir daí, Allen é quem escolhe ou recusa os seus papéis.

Finalmente, Woody Allen entra numa fase em que começa a escrever, dirigir e interpretar os seus filmes, sem permitir intromissões de terceiros. Entre eles, tem-se: Um Assalto Bem trapalhão; Bananas; Tudo Que Você Queria Saber Sobre Sexo; O Dorminhoco; A Última Noite de Boris Grushenko; Noivo Neurótico, Noiva Nervosa; Sonho de um Sedutor, o qual não dirigiu, deixando a tarefa para Herbert Ross. Apareceu também num filme, em que atuou num papel importante – Testa-de-Ferro por Acaso, dirigido por Martin Ritt. Ganhou Oscar de melhor filme, de melhor direção e de melhor roteiro com ´Noivo Neurótico, Noiva Nervosa`, o que lhe proporcionou maior autonomia e independência em suas produções.

Nas noites de terça-feira, Allen pode ser visto, ou melhor, ouvido, tocando clarinete na sua Dixieland Band , num clube de Nova York, o Michael`s Pub. A platéia sempre tem a expectativa de ouvir uma piada de Woody, que sendo um bom instrumentista, não tira o clarinete da boca. Pensam que ele está querendo se passar por sério.

Woody Allen, em meio a seus compromissos, colabora assiduamente com a revista New Yorker, uma das revistas mais chiques do mundo. Há meio século, o desejo de todos os grandes escritores americanos foi o de escrever para essa revista. Quanto ao seu grande sonho de fazer humor, nunca quis ser um novo Chaplin, mas teve como parâmetros personalidades como Benchley ou Perelman, pouco conhecidos do público sul-americano.Tudo que aprendeu, todos os truques e expedientes, o fez sozinho. O seu forte são as paródias e pode-se dizer que Don Quixote foi uma espécie de paródia. Entre ser um escritor profundo ou profundamente engraçado, não há o que dizer. Há, sim, resquícios de  inteligência crítica nessa grande América.

(1) é graduada em Letras e Jornalismo pela UFRN

(In Tribuna do Norte, 30.08.2011, Viver)