Por Nelson Patriota

 

Que fim levou o romance “Os Mortos”, de Henrique Castriciano, cujos dois primeiros capítulos foram publicados na Revista do Centro Polimático, entre 1920 e 1921, conforme registra Otacílio Alecrim em seus “Ensaios de Literatura e Filosofia” (1955)? Fato curioso é narrado por Otacílio, reportando-se à conversa que teve com o poeta de “Mãe”, então enfermo. Diz ele que, ao comentar seu livro, Castriciano observou: “No romance, se puder concluí-lo, terminará o espírito vencendo a matéria; mas, na vida do autor, persiste a matéria em vencer o espírito”. Remata Otacílio: “Infelizmente, daí em diante, o Dr. Henrique não fez senão ‘morrer’ com o seu próprio romance”.

Quase um século depois, é lastimável ter-se de reconhecer que falta às nossas letras um romance assinado por Henrique Castriciano. Não se trata, porém, de um fato isolado. Pensemos, por exemplo, na suposta “História da Literatura Norte-rio-grandense”, obra quase lendária na bibliografia de Câmara Cascudo, que, embora de paradeiro incerto e não sabido, encontra, entre muitos dos seus admiradores, defensores inquestionáveis. A propósito, Cascudo foi responsável por retirar a poesia de Lourival Açucena do anonimato, ao reuni-la no livro “Versos”, em 1927, em comemoração ao centenário de nascimento do fidalgo poeta.

Val e a pena citar ainda o caso de Gothardo Neto que, embora festejado como grande poeta por seus contemporâneos, teve vida curta (1881-1911) e não chegou a ver impressa em livro sua poesia, fato que só sucedeu em 1931, graças ao mecenato do também escritor e homem público Antônio de Souza. Nem é menos significativo o caso do poeta João Lins Caldas, que deixou dezenas de cadernos repletos de poemas que só recentemente estão sendo reunidos em livro…

Enfim, são vários os autores, daqui e, certamente, um pouco em toda a parte, que deixaram livros em processo de escritura ou até concluídos, mas que ficaram relegados a gavetas esquecidas ou dentro de envelopes mal identificados e que foram relegados ao esquecimento, em seguida, quando não encontraram terceiros que se interessassem seriamente em resgatá-las.

Falta, portanto, um capítulo na história da nossa literatura que dê conta dos livros falhados, em sua frágil condição póstuma, aqueles por tortuosos caminhos ganharam notoriedade graças a um eco que deixaram, fosse porque realmente existiram ― até aonde podemos afirmar que um livro “existe” ―, fosse porque foram insistemente anunciados por seus autores em vida, criando expectativas que ficaram em aberto.

O tema foi suscitado por nós durante uma mesa-redonda promovida pela UBE/RN, na Aliança Francesa, segunda-feira passada, por ocasião do lançamento do Prêmio Literário Eulício Farias de Lacerda, quando se discutiu o legado literário euliciano que, de acordo com a opinião unânime da mesa (Jarbas Martins, Francisco Alves, Eduardo Gosson e Nelson Patriota), é uma das criações mais originais no campo da ficção nas letras potiguares.

A propósito, sabe-se que o autor de “O rio da noite verde” também deixou um livro póstumo, segundo uma versão corrente nos nossos meios literários, mas que continua, a exemplo de “Ouro Branco”, do romancista José Bezerra Gomes, de paradeiro desconhecido. Trata-se de “A terceira manhã”, título que por si traz ecos que remetem diretamente a Guimarães Rosa, uma das influências marcantes de Eulício. E coincidências assim nunca são fortuitas.

É verdade que cada caso relacionado ao sumiço de um livro está cercado de particularidades que o distinguem dos demais. Por isso, compõem um capítulo tão singular na história literária. Esperemos, porém, que pelo menos dessa vez a Cassandra dos maus presságios fracasse em seus vaticínios e que esse capítulo tome um curso diverso, terminando com a descoberta do livro extraviado de Eulício. Ou, parodiando Henrique Castriciano, com “a esperança triunfando sobre o pessimismo”, que é sempre o melhor modo de encerrar um artigo.

(Transcrito do site SUBSTANTIVO PLURAL, 02.08.2011)