Por Agnelo Alves

Pois é, desde ontem, entrei na casa anual que antecede a oitava década de vida. Completei 79 anos. Olho em todas as direções, para frente, para trás, para o lado esquerdo, para o lado direito e ainda me deixo encantar pelas cores do arco-íris. Comentando comigo mesmo, falo: “que bela a vida, como é bom viver, amo a vida!”

Não me digam que não posso e nem devo negar que sou um idoso. Mas nego. Apenas não preciso convencer quem quer que seja, um otimista, um pessimista ou mesmo um realista. Aliás, li, recentemente, digamos alhures, que já nasceu, agora em 2011, o homem que vai viver mais de mil anos. Então… sou uma criança que contemporiza os de minha idade como crianças também e vou vivendo as alegrias e os prazeres que a idade não diminui. Talvez modifique, mas não termina.

Vivo a véspera dos oitenta anos com os olhos que me permitem admirar as cores que ornam a beleza da vida, mourejando, trabalhando, amando, rindo, sofrendo sem lamentar amarguras, quando inevitáveis, rindo e brincando com as alegrias do prazer de viver. Que venham os oitenta anos me abrindo as portas, as janelas que sejam, para contemplar a década ainda distante dos 90 anos, abraçando cada dia com carinho e otimismo, vivendo e achando bom.

Pois é, repito, ouvi alhures, que o homem deve achar que cumpriu sua trajetória na terra quando gera um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Gerei filhos. Plantei árvores e escrevi livros. Dos filhos que gerei, tenho o maior orgulho. Das árvores que plantei, apreciei a beleza e usufruí do perfume. Dos livros que escrevi, esgotados nas livrarias, me acanhei no lançamento e me contentei com a generosidade dos leitores, contribuindo para o meu desacanhamento.

Agora, criei coragem para lançar mais um livro. O terceiro. Uma coletânea de crônicas que escrevi em forma de cartas diárias na Tribuna do Norte. O destinatário era uma figura de ficção a quem chamei de NELO, mas a revisão deixou passar como sendo NECO. Assinei “AG”, mas o linotipista achou que devia ser “A. Z.” e ainda justificando que tratava-se da primeira e da última letra do alfabeto. Mudar? Nunca. Neco passou a ser meu amigo de boa convivência. Meu confidente.

Que fazer? Só vim saber tempos depois, quando os amigos mais chegados passaram a me chamar de NECO. Até que, um dia, interpelei Bira Rocha, meu leitor, meu amigo, meu irmão, o cara que chegou muitas vezes para me ajudar nos anos de chumbo da ditadura.

Ué, você não assina NECO? Completando, “todo mundo sabe que NECO é você, Agnelo…” Ainda hoje, Bira e muitos outros amigos, desde aquela época, me chamam de NECO.

Vou lançar meu terceiro livro “Cartas ao Humano” com prefácio de Woden Madruga e apresentação de Ticiano Duarte, companheiros daqueles anos difíceis que atravessamos juntos, eles e eu, aqui na Tribuna, um tempo que me fez sofrer, é verdade, mas me habilitou para não perder a esperança e a alegria, me retemperando o ânimo. A esperança de que, segundo a profecia de Dom Nivaldo Monte, ao me visitar na cadeia, os tempos de chumbo passariam como uma chuva passageira. Acertou o bom amigo Dom Nivaldo, passou. E a alegria de viver e trabalhar com o ganho da fé continua plena.

Que venha a década dos 80 anos.

(in O Santo Ofício, 20.07.2011)