Por Mário Bortolotto

Ontem passei a noite jogando bilhar com alguns amigos. O Bob (a gente chama ele assim) tava sentado numa cadeira dormindo. O Bob é um negão meio rasta que a gente chama de Bob por referência imediata e óbvia ao grande Bob Marley. Ele sempre aparece nos Parlapatões com o seu jeito tranqüilo, fica ali por perto esperando sua hora de jogar. Mas ontem ele tava sentado numa cadeira, dormindo. O Bob acordou de repente e decidiu que ia jogar. E o Bob entrou de meu parceiro. O Bob joga bem. Tem a manha, mas ontem ele não tava nas suas melhores noites. Todos nós as temos. Ele tava errando várias fáceis e a gente começou a brincar dizendo que ele ainda não havia acordado. O Bob não ligava a mínima para nossas brincadeiras, apenas sorria placidamente e continuava jogando. A gente continuou perdendo. Aí no final da noite, na última partida a gente derrotou o Vlad e o Jiraia que são uma dupla casca grossa. Então comemorei com o Bob: “Você
acordou, Brother”. Lá fora fazia uma noite suave, do tipo de noite que você não quer ir pra casa, nunca (e até parece que existe alguma noite que eu quero ir pra casa). O Bob me contava que não gosta de jogar em grandes bares de bilhar onde as pessoas levam o jogo muito a sério, por isso jogava com a gente. Ele sacou que é só um jogo de camaradas, sem aquela bobagem de ter que ganhar sempre. O Bob sempre me pareceu um cara que não se levava muito a sério. Seu jeito tranqüilo denunciava isso. Não que não possa existir um turbilhão dentro do cara. Não que a fúria não possa irromper de repente e causar um estrago irreversível. Mas seu jeito tranqüilo não indica que isso vá acontecer, pelo menos não numa noite suave como a de ontem. E aí o a gente desceu pra “Amistosas”. Bob, Jiraia e eu. Sentamos lá sossegados e ficamos conversando. O Bob não bebe. Ele só ficou ali do nosso lado, falando baixo e com a voz extremamente
pausada. E aí ele contou que tem 60 anos. Não há como adivinhar isso. Nunca imaginei que o Bob tivesse mais que 50 anos. Não há nada em seu rosto que denuncie isso. Ele tem um filho que tem quase a minha idade. Fiquei olhando pro Bob e imaginando que pessoas que não se levam extremamente a sério chegam aos 60 anos suaves como a noite de ontem. Fiquei pensando no Elvis fictício que eu criei chegando aos 60 anos e cantando “Life without you” num pequeno boteco de blues. Fiquei pensando em mim com uma guitarra surrada sentado no fundo de um boteco, com 60 anos, tocando para meia dúzia de insones. É assim que eu quero ficar. Fiquei olhando o Bob ali no bar e pensando nisso. No Bob (que eu nem sei o nome verdadeiro – não costumo perguntar o nome de ninguém) que anda sozinho na noite com seu visual reggae man, que tem um filho 2 anos mais jovem que eu e que se for como o pai deve aparentar pelo menos uns dez anos a menos. No Bob que não
entra em bares onde percebe que não será bem tratado. Na dignidade daquele sujeito sóbrio que está sentado ali com a suavidade dos seus 60 anos. E quase me senti tranqüilo. Digo quase, porque estou longe de ficar assim, embora persiga essa sensação como um louco no deserto que já não sabe porra nenhuma, mas entende no buraco negro do seu cérebro que está com sede, muita sede.
E fiquei pensando em caras que chegam aos 60 anos, com esse tipo de plenitude. E fiquei hoje vendo o clipe do filme “Shine a Light”, do Martin Scorsese. O filme mostra a performance dos Rolling Stones em dois shows de sua turnê “A Bigger Bang”, no Bacon Theatre, em Nova York. Tá tudo lá. A exuberância da música dos Stones. O estilo sofisticado e elegantíssimo de Scorsese. A câmera genial. A edição perfeita. E eles estão lá, os carinhas com seus 60 anos, com toda a dignidade de sujeitos que fizeram as coisas do jeito que quiseram. Do jeito que escolheram. E lembrei do Bob e pensei nos Stones e também no último e emocionante filme da série Rock onde o velho lutador entra no ringue com seus 60 anos, com o mesmo brilho nos olhos e com toda intensidade de quem achou o tal oásis no deserto. Coloquei “This place is empty” pra tocar e tentei rezar baixinho, mas não consegui. Há sujeitos com a alma atormentada que já não sabem
rezar. Há sujeitos que não sabem se conseguem chegar à plenitude alguma. Mas ainda é possível tentar. Caras como os Stones, Scorsese e Bob nos fazem acreditar, e isso me parece mais do que eu mereço.