“O homem inteligente aprende com seus próprios sofrimentos;O homem sábio aprende com os sofrimentos alheios.” Platão

Os meus ais não são maiores que os de ninguém. Não são menores. Não são especiais. Não são únicos. Mas são sentidos. Se estes ais juntam-se aos outros, então fabrica-se o clamor dos clamores, pois vem do infortúnio comum. Se qualquer vivente que seja sofre na pele a peleja e luta da vida que é difícil para todos, toda a gente é também capaz de ocupar o ai alheio? Tomar-lhe o lugar e a dor para si? Pensemos e reflitamos. Acomodar-se a qualquer realidade perversa é instaurar justamente este perigoso tempo de ais.

Quando criança, ouvia estes ais de minha mãe e impacientava-me. Achava que dor era próprio de idoso. Mais tarde finalmente compreendi: apesar de jovem, os ais dela vinham em virtude da flebite. Longo e arduoso caminho percorrido. Peregrinação em hospitais, leitos de internação, secretarias estaduais e municipais de saúde, consultórios médicos, exames e mais exames, medicamentos que não resolviam, médico que nada ajudava, dias e noites de fragilidade pensando se o pior viria… Nada adiantou. Só o abandono, o desprezo, enfim, a desumanidade.

Os dezoito anos de espera da minha mãe Maria de Lourdes Araújo não comovia ninguém. Não encontrei alguém capaz de imaginar para si os ais sentidos por aquela que esperava por uma cirurgia vascular na fila do Hospital Onofre Lopes. A letargia foi coisa reinante por onde passamos. A desumanidade, infelizmente soberana. Parte considerável da sociedade perdeu a capacidade do altruísmo, da solidariedade. O infortúnio do outro é sempre coisa muito amena, não merece preocupação, comoção. Tempos difíceis estes nossos.

Foi num misto de suprema revolta e de desespero que escrevi uma carta denunciando o caso particular de minha mãe, bem como o descaso com a saúde pública. Minha consciência cidadã também sabia importante aquele ato, visto que chamava a atenção para um problema de grande alcance social: a enorme ineficiência do SUS, mesmo quando o Ministério da Saúde tenta empurrar garganta abaixo que trata-se do maior sistema público de saúde do mundo.

Na semana passada o Jornal Diário de Natal fez repercutir o caso em sua manchete de capa. Merece os méritos por isto, visto que foi o único veículo que divulgou o fato e sensibilizou-se com a calamitosa situação de abandono em que o SUS deixa seus usuários e também mantenedores, divulgando o vexame público que são as filas gigantes para cirurgias existentes nos diversos hospitais públicos do país. A postura democrática e consciente de tal jornal em divulgar informação relevante e contribuir com o bem estar e a justiça na sociedade geral foi fundamental para o desfecho feliz desta história. A jornalista Maiara Felipe foi a responsável por sugerir o tema na pauta e por isto a agradeço pela atenção ao nosso caso. No mesmo dia em que a matéria foi divulgada, o Dr. Napoleã o Veras, médi co e diretor do Hospital-Maternidade Guiomar Fernandez, localizado em Alexandria/RN, exerceu a sensibilidade e a humanidade que fizeram mudar a vida de minha família. Propôs operar minha mãe em tal hospital, encerrando nossa longa marcha por um direito constitucionalmente instituído, que é o da saúde.

Rapidamente tudo foi providenciado: a conversa, a atenção, o zelo, os exames faltantes e, finalmente a cirurgia. Quatro dias após, no dia 13/08 último, ocorreu o procedimento cirúrgico. Não poderia deixar de agradecer à competente e ética equipe médica: o angiologista Jaime César, o anestesista Ricardo Maia, a chefe de enfermagem Cristiane e aos demais que não me foi permitido conhecer o nome. Vocês fizeram a diferença em nossas vidas. Foram a única flor existente no vasto campo de urtigas, como falou certa vez Victor Hugor.

Quão feliz aurora eu tive no município de Alexandria/RN. Conheci um verdadeiro lugar de referência, que é o Hospital-Maternidade Guiomar Fernandes. Um exemplo de local onde o SUS deu certo e certamente um modelo a ser seguido por todo o país. O SUS deve olhar para este hospital, sem dúvida alguma. Deve observar o seu feliz exemplo de gestão. Deve enviar seus pesquisadores, observadores, consultores, os gestores de saúde, os profissionais da saúde, os estudantes de enfermagem e medicina, enfim, deve enviar todas estas pessoas para lá, pois a estrutura que encontrei não compara-se nem aos hospitais da rede privada de Natal/RN. Exemplo que deve ser entendido e expandido para todos os demais hospitais públicos. Este hospital tem uma grande estrutura, pois possui quarenta e sete leitos, vários ambulatórios, e realiza inúm eras cirurgias de grande porte, tais como as vasculares, oftalmológicas, de vesícula, cesarianas, histerectomia. Soube que em breve terá a parte de traumatologia. Ou seja, é um achado.

Eu realmente fiquei impressionada com tamanha estrutura de um hospital filantrópico do interior do Estado, com recursos todos oriundos do SUS, e creio que esta unidade hospitalar deve ser amplamente divulgada para toda a população potiguar, como uma importante opção existente. Lugar administrado com cuidado, ética e muito carinho. Lá os pacientes são tratados com atenção por todos, desde a diretoria e equipe médica até todos os funcionários envolvidos. O clima é de casa de família, tranquilo. Até mesmo quem não gosta de hospital (como eu) sente-se bem estando lá, pois somos tratados como velhos amigos, verdadeiramente acolhidos. Pela primeira vez presenciei um tratamento de fato humanizado. Alexandria/RN está de parabéns por guardar instituição tão modelar. Fui assegu rada pela pró pria direção do hospital que o Secretário de Saúde do RN, o Dr. Domício Arruda, tem contribuído sobremaneira para que ele funcione com tamanha excelência. Parabenizo-o, então, por este grande mérito que o cabe. Não poderia, no entanto, deixar de cobrar que ele estenda esta proatividade e este exemplo de sucesso aos demais hospitais regionais. Que invista principalmente na parte ambulatorial e de pronto-socorro, para poupar gastos futuros e consideravelmente maiores, como os cirúrgicos. São nestas duas áreas que o SUS mais agoniza.

Agradeço a todos os funcionários que nos atenderam com tamanho amor no Hospital-Maternidade Guiomar Fernandes. Vocês são uma bênção. Também a toda a família do Dr. Napoleão Veras, pelo amor que nos dispensaram e por terem o coração tão nobre (Drª Diana e Drª Zumira em especial). Pessoas raras neste mundo. À equipe médica por toda a atenção e cuidado. Se todos os profissionais da medicina tivessem a competência e o amor à profissão que vocês têm, certamente o SUS seria referência em saúde no mundo (de fato). Alexandria deu-nos a humanidade perdida em todos os lugares por que passamos. Quando se quer é assim que se faz. O Dr. Napoleão e o Dr. Jaime resolveram em quatro dias aquilo que o Estado e o País não resolveram em dezoito anos. O problema não é a falta de recursos, é a falta de vergonha. É urge nte que as aut oridades neste país tomem, portanto, a devida e necessária vergonha para mudar a situação do Sistema Único de Saúde, quer em quais áreas as maiores deficiências e faltas existam.Os motivos são muitos: porque saúde é direito constitucional; porque somos contribuintes; porque em virtude do descaso com a saúde muito já morremos, estamos morrendo e ainda morreremos…

Natal, 15/08/2011

Denise Araújo Correia