Por Franklin Jorge

Personificação do lobo da estepe, Almir Borges me foi apresentado por Lígia Bezerra, quando não teríamos ainda dezoito anos. Alguns anos mais velho, ele nos iniciou num novo planeta literário, através da leitura e discussão de obras em prosa e de uma contagiante admiração por Kafka, a seu ver o maior de todos os escritores modernos, mestre paradigmático duma filosofia do irremediável que permeia a existência humana, representada pelo absurdo e gratuidade da barbárie.

Introduziu em nosso convívio, como uma epifania, os mestres da crueldade e do paradoxo – Antonin Artaud, Beckett, Ionesco –, fazendo-nos submergir nas águas do Existencialismo sartriano e do expressionismo alemão em todas as suas formas. Talvez acreditasse, como o outro Borges, na salvação pela arte.

Hermann Hesse era um de seus mestres, aquele que talvez melhor o explicaria, para nós que nos deixávamos encantar por seu magnetismo intelectual, pois ninguém melhor do que ele para merecer tal reconhecimento.

Pound ensinou-lhe a apreciar a técnica, a perícia no fazer, exigidas do artista criador. Sobretudo ele nos fez economizar tempo, dando-nos o paideuma dos autores essenciais e imprescindíveis que devemos ler e reler, porque souberam dizer melhor o que outros disseram antes.

Sua figura e personalidade carismática me obsessionam desde então. Vejo-o de pé, abrindo um livro, na sala de minha avó, dizendo-me que não perdesse tempo. Fez-me ler e discutir o “A B C da Literatura”, a “Arte da Poesia” e uns fragmentos de “Os Cantos”. Pound constituía para Almir Borges uma espécie de Bíblia da qual nunca se separava, tendo-o sempre como magistrado em matéria de estética e criação literária. Impossível não ler Pound, como um moderno Virgilio, mestre dos que sabem.

Magro e alto como o Quixote, tinha uma barba selvagem e eriçada, muito negra, como a de antigos guerreiros assírios que há nos relevos. Era desses tímidos que fogem do mundo e se dão bem com todos. A mim sempre me intrigou por sua quase infinita sabedoria e conhecimento das letras, sempre orientando-nos por um gosto particularíssimo de leitor sofisticado, eternamente enamorado dos abismos metafísicos e existenciais.

Quero lembrá-lo ali, parado, no centro do meu quarto, passando as páginas de um livro. Detendo-se num parágrafo, resumindo a metafísica de um autor estimado, enfatizando que para o artista o Tempo é o bem mais precioso, não podendo por isso mesmo ser desperdiçado com circunstâncias que podemos transcender.

Amava a poesia, que por seu subjetivismo e cadência está mais próxima da música do que da literatura. Costumava dizer-nos que nela o ritmo contava mais que a rima e a metrificação, embora, num bom verso, sempre há ritmo e frequentemente rimas internas. Disse-me que prestasse atenção à prosa minimalista de Kafka, superior aos seus títulos mais notórios. Emprestou-me seus contos fabulosos escritos em apenas alguns parágrafos.

Ensinando pelo método comparativo, mostrava pelo exemplo a excelência dos bons e a mediocridade dos maus autores. E, resumindo sua pedagogia socrática, repetia – ler a excelência dos autores nos faz economizar tempo tempo tempo — capital que entra na elaboração das obras duradouras.

Fez-me ver que o existencialismo era um novo humanismo – o humanismo de um mundo forjado pelo absurdo, crueldade e falta de sentido.