Por Karla Christine(1)
Temos sérias manifestações equivocadas na cultura brasileira. A juventude
julga que essas pessoas estavam certas, que foram boas e corretas. ****

E não é só Cazuza. Há outros tantos ídolos (de pés de barro) ainda vivos que
reforçam nosso equívoco cultural, moral e ideológico.

Uma coisa é a dor da mãe de Cazuza, que, impotente, viu seu filho se acabar
e teve tempo para pensar nos valores que lhe transmitiu. Outra coisa é
transformar essa dor no cultivo de uma personalidade que não serve de
exemplo para ninguém. Isso significa que, infelizmente, a mãe de Cazuza
nunca parou para pensar criticamente em sua relação com seu filho, nos
valores transmitidos enquanto o educava. Cazuza não foi vítima de uma
fatalidade; ele escolheu um estilo de vida, correndo todos os riscos,
inclusive traficando drogas. A mãe de Cazuza parece viver a dor da perda
transformando o errado em certo e querendo convencer as pessoas que seu
filho foi herói. A mãe de Cazuza não respeita os limites entre o privado
(sua dor) e o público (criação do herói).

Imaginemos a professora de uma turma de crianças realizando uma atividade
para conhecer o Rio de Janeiro. Em cada rua, avenida e praça, a professora
explica que fato histórico ou pessoa recebe a homenagem. Assim, a professora
conta, na avenida Rio Branco, quem foi o Barão do Rio Branco, por exemplo. O
que a professora conta a seus pequenos ao chegar à praça Cazuza?!?

Sabia que, em Paris, nas placas indicativas dos logradouros, consta sempre a
importância do homenageado? Veja a placa da rua Oswaldo Cruz, em Paris:

No Brasil, nomes de praças, ruas, avenidas, parques, viadutos, lavanderias
públicas, creches, escolas, mercados, têm servido para o gozo (e lucro) dos
vivos e dos vivíssimos, homenageando mães de celebridades (vivas e mortas –
e até nascida analfabeta), cujo único mérito foi o de ter levado a gravidez
a termo (tal como bilhões de outras mulheres anônimas); homenageando
drogados, políticos de biografia obscura e até mesmo metidos em notórias
falcatruas (inocentados com a morte, quando a Justiça não teve tempo para
arquivar o processo, “por falta de provas”…). ****

Isso é coisa velha neste país sem farto plantel de heróis, capazes de
integrar o panteão para todas as gerações. Basta lembrar o nome da capital
da Paraíba (até hoje, controverso), e, para completar, sua bandeira falante
(muita gente contesta a inscrição do “Nego”).

Coroando todo nosso equívoco cultural, nossos cineastas resolveram
celebrizar-se com filmes biográficos, centrados ou em equívocos históricos
ou em equívocos culturais, cuja falta de senso crítico assegura bilheteria.
Nossos cineastas são vivos, vivíssimos!… – ganham a mídia, beijinhos e
tapinhas nas costas de outros vivíssimos (inclusive a mãe de Cazuza e seus
seguidores) – e, o mais importante, muito dinheiro e fama para outros
projetos que valem tanto quanto um saco de pipocas.****

Não me interesso pela Fundação Viva Cazuza. Há muitos outros meios para
ajudar no combate à AIDS. Essa Fundação é só o templo de um enorme equívoco.

Esse cidadão dizia “todos os meus heróis morreram de overdose”. E era
aplaudido.

* Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza? ****

Concordo que suas letras são muito tocantes, *mas reverenciar um marginal
como ele*, é, no mínimo, inadmissível.
*Marginal, sim,* pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade,
pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) *com conceitos
de certo e errado*.
*No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou
trabalhar para conseguir nada*, já tinha tudo nas mãos. *A mãe vivia para
satisfazer as suas vontades e loucuras.* O pai preferiu se afastar das suas
responsabilidades e deixou a vida correr solta.
*São esses pais que devemos ter como exemplo?*
Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande
gravadora..
*Existem vários talentos que não são revelados* por falta de oportunidade *ou
por não terem algum conhecido importante.
Cazuza era um traficante,* como *sua mãe revela no livro*, admitiu que ele
trouxe drogas da Inglaterra, *um verdadeiro criminoso*. *Concordo com o juiz
Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho
Beira-Mar é* que um nasceu na zona sul e outro não.
Fiquei horrorizada com *o culto que fizeram a esse rapaz*, *principalmente
por minha filha adolescente* ter visto o filme. *Precisei conversar muito
para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais,
beber até cair e outras coisas, fossem certas*, já que foi isso que o filme
mostrou.
Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham
algo de bom *para essa juventude já tão transviada*? Será que ser correto
não dá Ibope, não rende bilheteria?
Como ensina o comercial da Fiat, *precisamos rever nossos conceitos*, só
assim teremos um mundo melhor.
Devo lembrar aos pais que *a morte de Cazuza foi consequência da educação
errônea a que foi submetido*. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito *se
tivesse tido pais que dissesem NÃO quando necessário?*
Lembrem-se, *dizer NÃO é a prova mais difícil de amor* *.*
Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais
tarde. A principal função dos pais é educar.. *Não se preocupem em ser
‘amigo’ de seus filhos*.
*Eduque-os* e *mais tarde eles verão que você foi à pessoa que mais os amou*e
*foi, é, e sempre será,* o seu melhor amigo, *pois amigo não diz SIM sempre*.’

(1)Psicóloga Clínica