Publicação: 16 de Outubro de 2011

Luisa Frey
Deutsche Welle


“Em 2014, o Brasil sediará a Copa do Mundo de Futebol. Mas, para nós da literatura, a Copa do Mundo será em 2013, em Frankfurt.” Assim o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, abriu o anúncio do novo Programa de Incentivo à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior durante o primeiro dia da Feira do Livro de Frankfurt, nesta quarta-feira (12/10). Tendo em vista a participação do Brasil como país homenageado da maior feira do livro do mundo em 2013, o governo brasileiro investirá  R$ 12 milhões em bolsas de tradução concedidas a editoras estrangeiras. O programa faz parte de um conjunto de ações com o objetivo de internacionalizar a literatura do Brasil, um dos dez maiores produtores de livros do mundo.

Programas semelhantes já existiam no Brasil, mas não com tal dimensão: o valor investido anualmente pela Fundação Biblioteca Nacional – um órgão do Ministério da Cultura – até 2020 é dez vezes maior que o concedido a incentivos de traduções nos últimos dez anos. Além disso, o programa promete ser ininterrupto, permitindo inscrições a qualquer momento durante a próxima década. Entre 2011 e 2013 – quando, depois da Índia, o Brasil será o segundo país a ser homenageado duas vezes na Buchmesse (a primeira foi em 1994) – serão investidos R$ 3,2 milhões, com bolsas entre 2 mil e 8 mil dólares por obra, dependendo da dimensão.

Além das bolsas de tradução para todos os gêneros literários, o programa concederá apoio financeiro à reedição de títulos já traduzidos – entre 500 e 4 mil dólares. O orçamento do programa aumentará progressivamente – passando de um total de R$ 1,1 milhão em 2011 para R$ 1,4 milhão em 2020. “A literatura tem um papel importante na difusão da cultura brasileira. Ela transmite o modo de pensar, de viver e de encarar o mundo dos brasileiros, mostrando que o país tem muito mais a oferecer do que futebol e carnaval”, afirma Amorim.

O programa havia sido anunciado no Brasil durante a Festa Literária de Paraty (Flip), em julho, e a Feira do Livro de Frankfurt foi tomada como oportunidade para chamar a atenção de editoras estrangeiras para a iniciativa. Além de Amorim, discursaram Renato Prado Guimarães, ex-cônsul geral do Brasil em Frankfurt, e Danilo Zimbres, vice-cônsul do Brasil em Frankfurt.

Paralelamente ao anúncio do programa de fomento à tradução, também foi lançado na feira o Diálogo Literário Brasil-Alemanha, uma espécie de fórum entre autores, editores, tradutores e agentes literários dos dois países. O objetivo é efetivar parcerias, com apoio do programa de tradução do governo.

Zimbres explica que tais iniciativas fazem parte de um esforço do Brasil para estreitar relações com a Alemanha. “Também pretendemos ter uma presença internacional constante no âmbito da cultura, que ajude a projetar uma imagem mais positiva e menos estereotipada do Brasil, condizente com a realidade do Brasil moderno”, considera.

O foco específico na Alemanha, parceiro estratégico do Brasil, faz parte dos preparativos para a presença do Brasil como homenageado da feira de 2013. “Queremos estimular a tradução de livros brasileiros para o alemão, um idioma importantíssimo”, diz Zimbres, ressaltando que, paralelamente, em 2013 será comemorado o Ano da Alemanha no Brasil. “É um momento muito rico de aprofundamento do diálogo e dos laços culturais entre os dois países.”

“A Alemanha representa uma porta de entrada para o mercado mundial de livros por conta da sua importância na área. Para nós, brasileiros, além de ser a maior feira de livros do mundo, esta feira é um trampolim para a internacionalização de nossa literatura”, completa Amorim.

Estratégia vai fortalecer a globalização da literatura

Segundo Galeno Amorim, Frankfurt servirá de largada para o processo de internacionalização da literatura brasileira. Antes mesmo de ser o país homenageado em 2013, ele já está ampliando sua presença na maior feira do livro do mundo. De 2010 para 2011, o espaço dedicado ao estande do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt foi ampliado em 50%, com livros de mais de 50 editoras em exposição.

Além do fomento à tradução e a reedição de obras já traduzidas, dentro da estratégia de internacionalizar a literatura brasileira, o governo prevê uma série de outras ações. Entre elas há o plano de promover intercâmbios de tradutores alemães no Brasil, para que conheçam a realidade do país. Também será lançada uma revista trimestral com os primeiros capítulos de novas obras brasileiras traduzidas, em inglês e em espanhol, e será incentivada a publicação de livros brasileiros nos demais países lusófonos.

Especificamente sobre o fomento à tradução, Amorim destaca que a meta é conceder mais de cem bolsas por ano e conseguir que no mínimo cem obras sejam traduzidas nos próximos anos. “Peço que vocês me ajudem a gastar esse orçamento de 7,6 milhões de dólares. Mas a gastar bem, para que possamos ampliar cada vez mais esses recursos”, disse o presidente da Biblioteca Nacional durante o anúncio do programa em Frankfurt, para o qual foram convidadas diversas editoras alemãs.

As inscrições para o programa de bolsas estão abertas no site da Biblioteca Nacional desde julho. As propostas serão avaliadas a cada três meses. As editoras estrangeiras receberão 50% do fomento no momento da aprovação do projeto e os outros 50% após a publicação da obra.

Crescimento causa impacto positivo

O tradutor alemão Michael Kegler, que viveu no Brasil quando criança e hoje traduz do português para o alemão, também aposta na ação do governo brasileiro. Ele será o representante do Diálogo Literário Brasil-Alemanha no país europeu. Kegler conta que a maioria dos livros que traduziu foi escrita em outros países lusófonos, já que Portugal apoiava a tradução de autores portugueses e africanos, enquanto faltava suporte do governo brasileiro. “Quando traduzi o livro Notícias do Mirandão, do brasileiro Fernando Molica, fiz um requerimento para uma bolsa de tradução ao governo brasileiro e não obtive nem resposta.”

Para Kegler, o Brasil precisava lançar um programa de financiamento de traduções confiável. “E é o que está fazendo agora. Por isso me envolvi no programa. Como tradutor, quero ajudar a levar esse dinheiro às mãos certas.” Com a divulgação do programa, Kegler conta que já está negociando a publicação de obras brasileiras na Alemanha.

O tradutor diz ainda que, com a homenagem ao Brasil em 2013 e as novas bolsas de tradução, a Alemanha percebeu que o cenário literário brasileiro está num ponto alto. Num levantamento realizado por ele, o alemão verificou que apenas 61 títulos do Brasil estão disponíveis nas livrarias da Alemanha hoje. Entre eles, 39 são de Paulo Coelho, que “é considerado um autor universal e não identificado como brasileiro”. Mas Kegler está convencido de que haverá uma mudança nesse cenário.

Entre os editores brasileiros, também há otimismo. Alexandre Dórea, da editora DBA, considera que o programa poderá facilitar as negociações para a venda de direitos sobre títulos brasileiros a editoras estrangeiras. Presente regularmente na Feira do Livro há 20 anos, o editor vê um maior interesse pelo Brasil no momento. “O Brasil é visto como um país “cool”, jovem, bacana. Surfando agora numa onda de desenvolvimento econômico, tudo o que está ligado ao Brasil é visto com maior simpatia, tem maior penetração”, diz.

Bruno Zolotar, diretor de marketing da editora Record – que já teve mais de cem de seus títulos traduzidos do português para outros idiomas – diz ter sentido um aumento do interesse pelo país de 2010 para este ano.