Manoel Marques Filho

Aos dez anos de idade, quando me mudei do interior do Estado para Natal, conheci na rua em que passei a morar, aquele menino traquinas de quinze anos, muito magro e alto, cheio de algumas mungangas e de piadas engraçadas.  Recebia pela sua estatura alta associada à magreza extrema pequenos apelidos (que pelo seu jeito amigo nunca pegavam), como espanador da lua e outros similares.

Havia nele, entretanto, uma diferença em relação aos outros moleques mais destacados nas traquinagens: mesmo nas mais pesadas brincadeiras ele não era vulgar e nem demonstrava malvadez nos atos. Fugia às ações humilhantes que são bastante comuns por parte dos que mais lideram as algazarras das ruas e demonstrava destacada inteligência nas suas criações hilariantes.

Trazia em meio aos procedimentos irresponsáveis dos moleques, um toque de humanidade, de menino bom, o que o fazia sempre respeitado e nunca temido pelos da sua idade e pelos menores como eu.

Foi um carnavalesco muito criativo e engraçado, aproveitando a sua magreza e estatura elevada. Na campanha de Jânio Quadros para Presidente, fez sucesso com a imitação do seu bigode e com uma vassoura colocada ao ombro, transitando entre a Rua João Pessoa com a Avenida Deodoro, local onde passava o corso e os blocos de sujos.

Pela diferença de idade (eu tinha dez anos e ele quinze) eu não fui seu amigo naquele momento. Ele era o adolescente já metido a galo cego e eu o menino bobo e não aceito no rol dos grandes.

Comecei a ser seu amigo mais chegado pela sua adulação por estar aceirando a minha casa com paixão visível pela minha irmã Verônica (com quem casaria mais tarde) e querendo assim ser amigo dos seus irmãos menores como estratégia de paquerador tímido de olhares sonsos e meio desajeitados para a irmã paquerada e afagos buscando a simpatia dos entes da família.  E transformou-se realmente em um irmão querido…

Amadurecemos todos e partilhamos uma família feliz.

Identificamo-nos em exercícios literários iniciais, quando ele anos atrás, antes de publicar sua obra magnífica já me mostrava alguns dos seus escritos e eu em troca começava timidamente a mostrar alguns dos meus.

Nenhum de nós dois tinha quaisquer intenções de publicação, até que eu publiquei alguns contos no jornal O GALO e ele pouco tempo depois foi vencedor de importante prêmio literário na UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES, consagrando-se instantaneamente como escritor de muito talento, tal como eu já previa em decorrência do seu estilo diferenciado.

Se o escritor Bartolomeu foi um exemplo destacado na nossa literatura, o homem Bartolomeu foi um destaque maior ainda nos caminhos da sua vida digna.

Não aceitava os caminhos da indignidade. Se enfurecia diante da desonestidade.

Seguia na íntegra um principio que se exteriorizava na sabedoria de homem simples e de experiência de vida do seu sogro e meu pai Manoel Marques, quando dizia: Quando você andar pelas estradas da vida procure não melar os caminhos por onde você passar, porque pode ser que você tenha que voltar por eles. Isso ele cumpria na íntegra e repetia no dia a dia e até mesmo em palestras que proferia.

Em algumas vezes da sua vida, quando se inseria em trabalhos e posteriormente constatava ter havido ali a construção de caminhos melados, ele com toda dignidade procurava limpar os desacertos e combater a desonestidade dos seus meladores.   Por isso, com freqüência, foi tido como antipático em alguns ambientes de trabalho.

Na família era adorado pelos filhos, sobrinhos e posteriormente os netos. Gastava o seu tempo de folga promovendo com eles acampamentos em lugares ermos, com todo o acerto do escotismo. Posteriormente, quando passou a possuir propriedades rurais acolhia a meninada com carinho especial (na chegada dava a cada menino um boné e uma bota) e os trazia a conviver nas coisas do campo, com eles participando e ensinando. E parece que nesse convívio quem mais se divertia era ele próprio.

O fumo o levou a doença grave e de muito sofrimento.  As crises de asma provenientes do enfisema eram deveras penosas, como penosos passaram a ser os seguidos internamentos em hospitais. Contudo até nisso manteve a sua dignidade e não perdeu o senso de humor, como no dia em que o coração disparou e uma enfermeira que o examinava comentou: O seu batimento cardíaco está  acelerado!

Ele, de imediato respondeu: Também, com você pegando assim na minha mão… O que é que você queria?

Dois meses antes da sua passagem ele me remeteu um E MAIL com o seguinte recado lacônico:

Salve, grave e guarde.

São os originais do meu livro final.

Geraldo José tem outra cópia.

Bartolomeu.

Geraldo José é o seu irmão mais jovem que mora em Campina Grande. Ele nos nomeava como guardiãs do seu fabuloso último livro, deixando com Verônica, sua esposa, a cópia original gravada no seu computador.

Por coincidência, no dia em que o meu filho Manoel Victor ( um dos seu sobrinhos queridos) que é médico do Hospital do Coração estava de plantão, ele chegava àquele hospital com muitas dores, sendo por ele internado e falecendo uma semana após, com o corpo físico eivado de dores e profundamente maltratado e com a alma suave e sorridente que se alevantou contemplativa e seguiu serena, caminhando sobre  as estradas de vigorosos alicerces que o homem e escritor Bartolomeu construiu com cuidados de artesão e esmeros de bondade.

O seu novo livro deixado sob os nossos cuidados de depositários de forma tão emocionante, será publicado brevemente pela Editora Bagaço (que já publicou todos os seus demais livros). A mesma editora também irá publicar no mesmo momento o seu único livro de poesias, também inédito. As duas publicações deverão ter uma co-edição com a editora da UFRN, como homenagem de todos ao seu professor de tanto destaque e ao escritor de tamanho talento.