Com inserção tímida nas escolas e livrarias da cidade, livros de autores locais têm prestígio restrito a eventos da área
Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br
O POTI/DN -  13.11.2011

 

À primeira vista, a pergunta parece simples. Publicações semanais de autores potiguares, três eventos literários realizados nas últimas semanas e às portas de um festival em Pipa responsável pelo período de maior ocupação na praia… Os fatos denotam produção e consumo pungentes. Mas a realidade é quase oposta, e indiscutivelmente difícil: pouco incentivo e consumo de livros de autores locais, pouco espaço reservado a esses escritores e seus produtos nas livrarias, e nenhum edital para a área literária. E entre esses opostos está a pergunta: existe mesmo literatura potiguar?

Como se vê, a resposta é complicada. E recai ainda em outros fatores. Quem consome os livros potiguares? Será que o seleto nicho de intelectuais e pseudo-intelectuais são representativos do abrangente conceito de consumidores? Câmara Cascudo é considerado o maior escritor potiguar. Será que ele ou sua obra é conhecido na comunidade escolar? E se não há leitores e literatos conhecidos, há literatura local? Quantos são e quem são os críticos literários? Sem crítica literária consistente, há literatura consistente? A literatura potiguar possui identidade? Possui ou precisa de alcance nacional para existir?

O jornalista e escritor Juliano Freire serve de exemplo prático para algumas respostas. Já lançou três livros voltados ao público infanto-juvenil. Um deles editado pela Cortez e outros dois bancados por conta própria. Investiu em torno de R$ 25 mil nos dois. Recentemente, a Livraria Siciliano recolheu seus livros das prateleiras, sem explicações ao autor. O livro de Juliano foi adotado em escolas de referência em São Paulo e Minas Gerais. Em Natal, nenhuma se interessou. “No lançamento do último, uma família de pernambucanos comprou; o natalense não chegou nem perto”.

Em Natal também há outra particularidade. Livrarias reservam espaço restrito aos autores potiguares, como se fosse gênero literário. Normalmente, nos locais mais escondidos do recinto. Pudera: a venda dos livros locais representa menos de 10% da receita – diferente das noites baladas dos lançamentos, quando amigos e os tais nichos de leitores compram o livro para prestigiar o colega. “Tentaremos melhor distribuição desses livros após o lançamento, também para o mercado nacional”, adiantou Aluízio Azevedo Júnior, proprietário da novíssima livraria Nobel, inaugurada semana passada no Tirol.

A ligação de Aluízio com o livro vem de berço. O pai, Aluízio Azevedo, escreveu 13 livros e ocupa a cadeira 31 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. “Vi a dureza do processo para colocar um livro no mercado. Também escrevo e sei dessa via crúcis. Por isso, a primeira estante da Nobel é de autores potiguares. Não fica em uma ilha, lá no fundão da livraria, como se vê”. Ele diz receber visita diária de autores potiguares. “A demanda é grande e variada. A produção potiguar é eclética, desde temas regionais e universais, à literatura erudita e as mais simplórias. E temos qualidade, sim”, opina.

Fora das prateleiras

Autores locais, a exemplo de Juliano Freire, estranharam a devolução dos livros pela Livraria Siciliano. É que a Siciliano funcionava como franquia da Editora Saraiva até 1º de novembro, quando passou à filial da editora e precisou recolher todos os livros regionais para iniciar novo cadastramento. “Já estamos recebendo novamente”. A assessoria informou ainda a editora baixou o percentual cobrado aos autores e se adaptou ao padrão local de 30% do valor da venda destinados ao autor da obra. “Também abriremos novas possibilidades. Se o livro for bem vendido, pode figurar no site da editora e ganha alcance nacional”.