Publicação: 22 de Novembro de 2011

Yuno Silva – repórter

O aproveitamento bem acima da média é um bom resultado para qualquer evento que está encontrando seu formato ideal, e a terceira edição do Festival Literário da Pipa foi marcada por participações primorosas, debates interessantes e alguns tropeços incalculados. Quem acompanhou atentamente os três dias pôde perceber os altos e baixos nas dez mesas organizadas pela curadoria. Mas, antes de mais nada, uma coisa é certa: o novo local onde foi montada a Tenda dos Autores, palco principal do evento, conferiu unicidade e maior integração entre as diversas atividades promovidas pelo Flipipa – e, conhecendo a dinâmica imobiliária daquele trecho do litoral potiguar, é prudente garantir desde já um lugar para o Festival em 2012. Merece atenção a necessidade de se disponibilizar acesso à internet para que o evento se multiplique.
Rogério Vital Sousa Tavares e Woden Madruga na melhor mesa do primeiro dia

PRIMEIRO DIA

Na quinta-feira (17), o debate em torno da obra do sertanista Oswaldo Lamartine de Faria abriu a programação do Flipipa 2011 de forma morna. A conversa entre Paulo Bezerra Balá, Humberto Hermenegildo e Paulo de Tarso não rendeu o esperado, e as participações praticamente ficaram limitadas a leitura de textos previamente escritos para a ocasião. Por mais interessante que o assunto seja, não há como prender a atenção de uma plateia ainda rarefeita que começava a chegar na praia da Pipa. Autoridades no assunto, o trio não conseguiu deslanchar um bate-papo instigante sobre a vasta temática que abrange a literatura oswaldiana.

Se a abertura foi morna, a segunda mesa foi quente. O escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares incendiou o público ao especular sobre paranóias que orbitam entre teorias conspiratórias e a opressão imposta pelas convenções “politicamente corretas”. Mediado na medida certa pelo jornalista Woden Madruga, o debate levantou questões polêmicas como a falta de propósitos do novo acordo ortográfico e os prejuízos gerados pelo uso das redes sociais.

A poesia visual de Arnaldo Antunes fechou a primeira noite. Com uma agenda apertada, Antunes passou 12h em solo potiguar, e só aterrissou pra valer do meio para o final da conversa com o poeta e professor Jarbas Martins. Cantou, declamou e arrebatou o grande público. Mas o debate acabou ficou na média, muito em decorrência da exagerada empolgação de Martins.

SEGUNDO DIA

Funcionando como um relógio, o Flipipa respeitou todos os horários estabelecidos na programação e abriu a segunda noite sobre a troca de correspondências entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade. O historiador e professor Marcos Silva mostrou que está afiado no assunto, e sombreou a participação de Edna Rangel e Diógenes da Cunha Lima.

Já o teórico Davi Arrigucci Jr, que prosseguiu com o tema Modernismo na conferência que ilustrou a segunda mesa, apresentou as várias conexões entre Manuel Bandeira e Movimento que eclodiu em 1922. “Bandeira se desgarra da poesia parnasiana antes dos modernistas, e se manifesta de forma contundente contra o cenário que até então estava estabelecido”, explicou. “Ele enxerga que há poesia em tudo: no amor, no chinelo, na lógica ou nos disparates, nas zonas mais baixas e nas mais elevadas”, garantiu, afirmando que Manuel Bandeira tinha uma personalidade “áspera e intragável. Ele era um individualista ferrenho que praticava uma poesia coletiva”, simplifica Arrigucci.

O biógrafo Fernando Morais foi a grande atração da noite. Simpático e bem humorado, socialista de carteirinha, Morais fumou cinco charutos e falou sobre seu recente livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, história colhida ao ouvir o noticiário dentro de um táxi em São Paulo que dava conta da prisão de espiões cubanos nos EUA em plena década de noventa, e arrancou risadas da numerosa plateia ao contar passagens divertidas de suas muitas histórias.

Sobre a biografia de Paulo Coelho, disse que passou o primeiro exemplar para ele e que não obteve mais retorno. “Tempos depois reencontrei o Paulo e perguntei se tinha dito algo errado ou muito grave no livro que teria deixado ele chateado e tal. Aí virou e disse que estava tudo bem, mas que ainda estava digerindo histórias que nem mesmo ele se lembrava”, brincou. “Por isso só pretendo escrever novas biografias de quem já morreu”, garantiu, adiantando que pretende voltar ao Flipipa no próximo ano.

TERCEIRO DIA

A escritora e roteirista Thelma Guedes, co-autora da novela Cordel Encantado (TV Globo) abriu a programação da última rodada de debates. Abordando a ligação entre a telenovela e a literatura, Thelma pelejou para tornar sua participação mais interessante: comentou sobre seu método de criação, sobre a descoberta e a relação do personagem principal com o cangaceiro potiguar Jesuíno Brilhante, o método de pesquisa e a liberdade de criar. Apesar do esforço, esbarrou na falta de entrosamento com os interlocutores.

Já no derradeiro debate entre o romancista Rubens Figueiredo e o escritor potiguar Carlos Fialho, os papéis se inverteram: Fialho bem que tentou arrancar uma centelha de empolgação de Figueiredo. Fez perguntas capciosas que o autor do premiado “Passageiro do fim do dia” poderia ter aproveitado para fazer um ‘gol de placa’ – no entanto, sua timidez impediu qualquer reação diante do público que acabou partindo em debandada. No fim do debate, apenas um terço dos lugares estavam ocupados.

Uma noite de sensações poéticas

Cinthia Lopes – editora

Se dizem por aí que não há mais tempo para a poesia, no Flipipa ela ganhou uma sobrevida e tanto. Confesso que achara arriscado fazer duas mesas só de poetas, na noite mais concorrida do Festival (o sábado). E levar ao palco gente que vive de versejar poderia causar um estranhamento àqueles não familiarizados com o verso. Não foi o que aconteceu. Ao contrário, o público participou de um quase transe coletivo poético sobre o cotidiano das coisas, a abelha, o boi, a pedra, a bicicleta, o amor, a vida, a morte. Carlito Azevedo e Eucanaã Ferraz “açambarcaram” – com a licença da roteirista Thelma Guedes, que usou essa palavra duas ou três vezes e não me sai da cabeça – toda a platéia num exercício de vivenciar poesia.
Carlito Azevedo chegou tímido e foi crescendo em emoção e verso. A mediadora Ana de Santana conduziu com habilidade e deu o “mote” para que Carlito Azevedo entrasse na sua praia, a poesia oralizada:  “a leitura oral muda o sentido do poema escrito?” Foi a pergunta de Ana.

Carlito gosta do som do verso e se diz influenciado pela oralidade do cordel; “a poesia falada tem a capacidade de causar alguma coisa. Espanto, emoção, de nos tirar de um tempo”. Escolheu por isso iniciar com a leitura de um poema da sua antologia Sublunar, “Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno”. Lido em silêncio é um poema pequeno. Mas ouvido, chega-nos como uma peleja repetida várias vezes em velocidade de um fôlego só: “O carro avariado junto à moita de espinheiros/logo após a derrapagem, eis a circunstância. / Mas – é claro -  havia um amor fazendo tudo doer. E, no banco de trás, a nuvem de conhaque e marijuana de onde emergiam,/iluminados, sépia, os rostos de K. e da jovem índia…”. Para esta redatora, foi como se um carro passasse veloz e  jogasse ao vento a mesma frase, “havia um amor fazendo tudo doer…” Seria esse o tal modo de sentir que deu título à mesa literária?

O poeta carioca impôs ao tempo  um ritmo diferente, como ele mesmo disse que a poesia falada provocaria – um tempo próprio de se ouvir poesia. Carlito lia poemas enquanto costurava histórias de vida, a sua própria e do resto do mundo. Falou do ser humano imperfeito, mas ingênuo e capaz de atribuir sentido às coisas. “Percebemos isso ao assistir Inteligência Artificial” (filme de Spielberg). Lembrou Octavio Paz (poeta mexicano) e declarou que é na adolescência o momento certo para se ler poesia. Leu um poema da polonesa Wislawa Szymborska, que voltaria na mesa de Eucanaã Ferraz. Recordou seus abismos adolescentes e a dor da perda da mãe. E finalizou: “Não existem ideias claras. Quando dizemos isso é por que estamos no mesmo nível de loucura do outro”.  Ao fim da mesa de Carlito, em vez do esvaziamento da tenda, mais gente chegou para ver Eucanaã Ferraz, imagino que pela fama em torno das antologias de Caetano Veloso e Vinícius de Morais. O fato é que a tenda encheu-se de poetas, fãs em geral, crianças, um público diversificado se acomodou para acompanhar o debate que contou com a mediação de João Batista de Morais Neto. A fina estampa de Eucanaã Ferraz, elegante também com as palavras,  dominou o palco. Ele escolheu para ler um poema forte de seu livro Cinemateca sobre “o abate de um boi”. Sua obsessão pelas minucias cotidianas (percebe-se que são elas os verdadeiros detonadores poéticos)  alimentou o motor que  divertiu a plateia. Contou sobre um diálogo insólito na praia da Pipa com um surfista filósofo e narrou uma história sobre a abelha suicida “que conheceu” enquanto  caminhava na mesma faixa de praia. João Batista fez intervenções pontuais, colocando  Eucanaã de volta à rotação  da mesa. No final, não parou mais de falar sobre Szymborska, por quem se declarou apaixonado, e leu um belo poema dela “Conversa com uma pedra” (‘Bato à porta da pedra./- Sou eu, deixa-me entrar./Quero penetrar no teu interior, olhar ao redor,/prender-te como a respiração./- Sai – diz a pedra./Sou hermeticamente fechada./Mesmo quebradas em pedaços vamos ficar hermeticamente fechadas/Mesmo trituradas em grãos/não vamos deixar ninguém entrar…’).