Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br

 

Os ofícios de historiador, pesquisador e escritor se confundem muitas vezes. Saber o espaço onde cada um começa e termina é tarefa hercúlea. E para definir o trabalho de Cláudio Galvão é preciso diagnosticar essa linha divisória ou eliminar de vez todas elas. O autor de 18 livros, cujas temáticas resgatam histórias mais das vezes desconhecidas da cultura potiguar, preenche esses campos com a maestria incansável de quem nunca abandonou as páginas emboloradas dos jornais e documentos antigos. E emprega recursos literários às histórias relatadas após minucioso trabalho de pesquisa.

Já são 18 livros publicados, sendo a maioria motivada pela paixão do historiador e escritor pela música . // Fábio Cortez/DN/D.A Press.

Aos 74 anos, Cláudio Galvão pesquisava nos arquivos do Diário de Natal informações para novo livro quando foi abordado para entrevista. O músico macauense Waldemar de Almeida será o biografado da vez. A linha musical predomina entre suas pesquisas. Cláudio é músico e estudioso da arte. Publicou livro onde resgatou 300 modinhas antigas cantadas em Natal no início do século passado. Também trouxe à tona a vida do maestro potiguar Oswaldo de Souza, de fama internacional e pouco reconhecido em seu chão, e detalhou a vida do autor do clássico Royal Cinema, Tonheca Dantas.

Para escrever A Modinha Norte-rio-grandense (2000), pesquisou a existência de descendentes e velhos seresteiros, e entrevistou cada um acompanhado de gravador e violão. Enquanto ouvia a cantoria, anotava as notas, tocava no violão e gravava. Em casa, transcrevia tudo em formato de partitura de música – conhecimento restrito a músicos eruditos. “Não havia copista à época. Havia uma máquina datilográfica no Rio de Janeiro capaz dessa transcrição para partitura, mas custava um salário e meio do meu ordenado. Não dava”.

Em viagem à Europa, em 1992, Cláudio Galvão procurou um programa de computador com essa finalidade. Espanha, França… “Só na Holanda me informaram que existia esse programa, mas na Alemanha. Não havia mais tempo. Um colega que me acompanhava comprou e trouxe depois a Natal. Era na base do DOS. Desconheço quem tenha feito essa transcrição à época”. Quando Cláudio já contava mais de 100 modinhas transcritas, surgiu o fenômeno criado pelo gênio Bill Gates. “O Windows inviabilizou meu trabalho e precisei refazer tudo”.

Diferencial

O legado literário deixado por Cláudio Galvão é tão importante quanto as temáticas e personagens dos seus livros. Mesmo quando passeia pela literatura, a música emana quase por osmose. Foi assim quando escreveu Príncipe Plebeu (2010) – uma biografia do poeta Othoniel Menezes. O livro veio acompanhado de CD com poemas musicados do autor-letrista de Seranata do Pescador (Praieira); ou quando publicou Cancioneiro de Auta de Sousa (2000), fruto do trabalho de pesquisa, textos e também grafia musical. Ou ainda o livro Modinhas Baianas no RN (1991).
(O POTI,27.11.2011-Caderno MUITO)