Horácio Paiva

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No Natal do ano passado, morria, em Macau, o professor e escritor Benito Barros. Militante político e poeta, enquanto viveu sempre esteve presente nas manifestações culturais e nas lutas sociais e políticas de nossa terra, a Terra do Sal. Era meu amigo, e mais uma vez, em louvor de sua memória, venho evocar o seu nome, homenageando-o com o artigo e o poema que assino.

 

 

                        A CASQUEIRA SEM O SEU PROFETA.

 

 

Não há depoimento maior, mais forte e mais contundente do que a morte, ante a qual todas as palavras empalidecem.

 

Alan Seeger, poeta norte-americano que morreu durante a I Guerra Mundial, aos 28 anos de idade, na França, escrevera, na véspera de sua morte em combate, um belo poema, intitulado “Rendez-Vous”, cujos versos iniciais ficaram mundialmente famosos. Continham, além da beleza, palavras proféticas:

 

“Amanhã terei um encontro com a morte

                         e a esse encontro não poderei faltar…”

 

A morte é o nosso limite físico. E, na emoção dos que ficam, amplia a reflexão e o julgamento. Montaigne, em seus “Ensaios” (Livro Primeiro, Capítulo XIX), diz: “Deixo que a morte se pronuncie sobre minhas ações; por ela se verá se as minhas palavras saem dos lábios ou do coração.” E, ainda, ao tratar da perda de um ente querido: “Morrendo ultrapassou mais gloriosamente do que sonhara a fama e o poder a que aspirava em vida.”

 

A intensa comoção provocada pela morte do inesquecível amigo Benito Barros mostrou o quanto ele era querido em nossa comunidade. Suponho que mais do que ele próprio sabia. A sua dimensão social e política agigantou-se. Provou que a sua voz  -  denunciando erros, injustiças e hipocrisias políticas  -  não era uma voz que clamava no deserto. A cidade, que nem sempre se manifestava, escutava-o em silêncio, mas atentamente. Se não queria o confronto, se não adotava a polêmica de suas posições  -  por acomodação ou por parecer-lhe inadequadas, ora certas, ora erradas  -,  entendia, porém,  necessário o açoite de seu agitado e profético clamor.

 

Como intelectual, era um afilhado de Rimbaud, e, a exemplo de Augusto dos Anjos, flertava com a morte, naquele sentimento ao mesmo tempo romântico e beatnik, o que mais claramente se vê em seu livro “Réquiem para o Infinito”.

 

 

Para não exilar-se em sua própria cidade e não sentir-se adstrito ao seu dia a dia, ao tédio, aos seus limites existenciais e institucionais, e aos governos que contestava, criou, para si próprio, com senso de humor e ironia, uma fábula, refúgio opcional à realidade em que vivia, e para lá convidou os seus amigos: o Império da Casqueira (nome inspirado em uma das ilhas do delta do rio Assu), adotando, então, o pomposo título de imperador  -  o que, afinal, demonstrava que a ilha continuava política, ao contrário das ilhas exclusivamente líricas, como as de Baudelaire (em Invitation au Voyage) e Bandeira (Pasárgada).

 

Era assim, portanto, profeta em Macau e imperador na Casqueira…

 

Como seu amigo, guardo de Benito muitas lembranças… De quando começou a divulgar os seus poemas, dizendo que eram traduções que fizera de um poeta americano morto prematuramente; de sua campanha vitoriosa como candidato a vereador no início da década de 1980, numa das trincheiras em que lutávamos contra a ditadura; de seu entusiasmo com a leitura dos poemas de Constantinos Kaváfis, poeta grego de quem antes muito lhe falara; de seus elogios e  insistência para que eu publicasse o meu livro “Navio entre Espadas”; de sua emoção ao ouvir o meu relato da visita que fizera a seu pai, Afonso Barros (de quem certamente herdara a verve e o virtuosismo verbal), em seu leito de morte num hospital de Recife…

 

Inventamos o tempo e não o compreendemos. Santo Agostinho dá-nos notícia de que, para DEUS, ele não existe. Também penso assim, na eternidade estática e, aos nossos olhos, dinâmica. Até o reencontro em DEUS.

 

Benito vive, viva Benito!

 

 

 

PEDRAS

 

 

Pedras

guardais

o som imóvel das serras

e em silêncio

ficais.

 

E de supor

se haveria

que à sombra de Deus

repousais.