Por Luiz Guilherme Melo, em 10/01/2012, na edição 676, do site do Observatório da Imprensa.
O sentimento de vergonha por parte do povo alemão depois da Segunda Guerra Mundial move a trama do filme O Leitor (2009),do diretor Stephen Daldry, cujo protagonista Michael Berg (a versão jovem é interpretada por David Kross e a adulta por Ralph Fiennes) é um melancólico advogado que passa a sua vida carregando a culpa por suas ações passadas.
Na Alemanha Oriental, em 1958, o jovem estudante Michael Berg conhece por acaso a misteriosa Hanna Schmitz (papel que rendeu a Kate Winslet o Oscar de Melhor Atriz em 2009) ao ser ajudado por esta quando passava mal. Depois de curado, ele procura a mulher para agradecer a ajuda e, quando se dá conta, já está apaixonado e tendo um caso amoroso com ela. O curioso é que Hanna tem o hábito de pedir que o jovem sempre leia algo em voz alta para ela – textos diversos, que vão desde a Odisseia de Homero até As Aventuras de Tintim, do cartunista belga Hergé. No entanto, depois que Hanna, subitamente, desaparece de sua vida, Michael se torna um indivíduo solitário e triste – e quando, anos depois, ele (já como estudante de Direito) reencontra sua antiga amante, deve lidar com o fato de descobrir que ela é uma ex-nazista e está sendo julgada por um crime de guerra cometido quando era responsável por 300 prisioneiras judias.
Deixando as discussões políticas e históricas trazidas pelo filme um pouco de lado, vamos nos concentrar em um tema que aparentemente é o carro-chefe do longa: o poder transformador da leitura na vida de um indivíduo. A personagem Hanna Schmitz é analfabeta e sente muita vergonha disso, a ponto de, no julgamento, preferir levar toda a culpa ao invés de revelar a todos os presentes no tribunal o fato dela não saber ler nem escrever – que não se revela tão obscuro assim já que seus argumentos de defesa são unicamente calcados no seu “zelo” como carcereira, ou seja, estava apenas cumprindo ordens. Hanna causa, tanto em Michael Berg como no espectador, repulsa e compaixão ao mesmo tempo.
Círculo vicioso
No filme, são muito bem retratadas as dificuldades e privações pelas quais Hanna passa por ser analfabeta e as suas limitações intelectuais causadas por isso – o que não a diferencia nem um pouco de um analfabeto da vida real. No Brasil, o analfabetismo é uma vergonha nacional. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 14 milhões de pessoas declararam não saber ler nem escrever no último censo realizado. Esse número exorbitante é explicado em parte porque os programas oficiais de alfabetização de adultos não têm conseguido alfabetizar boa parte dos matriculados por diversos motivos – ou por defasagem de alunos ou por despreparo dos professores.
Enquanto isso, 14 milhões de brasileiros não sabem assinar os próprios nomes, vivem com vergonha de pedir para alguém ler alguma coisa para eles, não ascendem socialmente e acabam sendo mais vulneráveis a maus políticos, por exemplo; ou seja, passam pelos mesmos constrangimentos e dificuldades que a personagem Hanna Schmitz vivencia no filme. Isso sem contar os analfabetos funcionais, que sabem decodificar sinais gráficos mas não conseguem interpretar um texto, o que os torna tão vulneráveis a ideias nocivas de qualquer natureza, por exemplo, quanto um analfabeto propriamente dito.
Para falar da leitura no Brasil, é necessário citar dados preocupantes. Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), cada brasileiro lê pouco mais de dois livros por ano. Na Inglaterra, estima-se que a média seja de 4,9; nos Estados Unidos, é de 5,1. Aqui, o tempo médio dedicado à leitura não passa de 5,5 horas por semana, enquanto na Índia a média é quase o dobro, de dez horas semanais.
Por que o brasileiro lê pouco? Há várias respostas a essa pergunta. A começar pelo desconcertante grau de analfabetismo funcional entre os alunos que concluem o ensino médio, círculo vicioso que começa lá no ensino fundamental, como aponta o resultado da primeira edição da Prova ABC (realizado pelo movimento Todos Pela Educação, em parceria com o Instituto Paulo Montenegro-Ibope, a Fundação Cesgranrio e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, órgão do Ministério da Educação), que diz que mais de 40% dos alunos que concluíram o 3º ano do ensino fundamental não tem o aprendizado em leitura esperado para essa etapa.
Para fora da caverna
Em um país como o Brasil, que ainda tem um percentual altíssimo de analfabetos, o incentivo à leitura é fundamental. O papel da escola é essencial nesse processo, pois é no ambiente escolar que os alunos têm mais contato com o texto escrito, com os livros, com a leitura. É conhecida a relevância da família no processo de formação de leitores (pais leitores acabam incentivando os filhos a lerem também), porém, levando em consideração que a maioria dos alunos não tem esse tipo de incentivo em casa, essas iniciativas devem ser muito mais intensas na escola. E, depois dos familiares, não há ninguém melhor que os professores para despertar em seus alunos o prazer pela leitura.
Antes de tudo, é preciso destacar que o sentido de leitura é amplo. Ler é o ato de atribuir significados a tudo que nos rodeia. Do barulho do despertador, da charge política do jornal, da fotografia, de um quadro no próprio livro, tudo é leitura. Ou seja, ler é muito mais que apenas decodificar sinais gráficos. Freire (1988, p.13) já dizia que “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. Na verdade, a leitura é uma atividade de várias faceta e, segundo Martins (2006), pode ser tanto um processo neurofisiológico, cognitivo e afetivo quanto argumentativo ou simbólico. Apesar do sentido de leitura ser amplo, é preciso ressaltar que ler textos escritos nos proporciona experiências peculiares. Uma delas é a oportunidade do leitor substituir a própria subjetividade por outra e, assim, apreender e incorporar vivências e sensações até então desconhecidas, por faltarem em sua vida pessoal.
A leitura é uma necessidade e um direito do indivíduo enquanto cidadão, pois vivemos numa sociedade letrada e formal que exige de seus integrantes o domínio da escrita e da leitura para manifestar suas ideias através da modalidade gráfica e, assim, exercer plenamente a sua cidadania. A leitura não só nos instrui como também nos aguça a sensibilidade, a criatividade, o senso crítico e nos emociona. Hanna Schmitz acaba tendo algumas dessas experiências através de seu contato com a leitura; e aqui podemos destacar uma das cenas mais marcantes do filme, quando Hanna, nos braços de Michael, chora copiosamente enquanto ele lê um romance em voz alta para ela. Outra sequência marcante é quando Hanna, já condenada e cumprindo a sua pena, recebe umas fitas gravadas por Michael que contêm o áudio dos livros que ele lia em voz alta pra ela quando os dois mantinham um romance. Depois de ter recebido muitas fitas de Michael, Hanna cria coragem e aprende a ler por conta própria, e se torna uma leitora que passa a “ler com os próprios olhos”. E assim, ao longo do filme, vemos a leitura transformando a vida de uma ex-nazista que, condenada à prisão perpétua, acaba tendo na leitura uma forma de se libertar e atenuar os próprios sofrimentos.
A mesma redenção experimentada pela personagem Hanna Schmitz pode ser experimentada por milhões de analfabetos funcionais espalhados pelo Brasil. Depende de nós, educadores, fazermos a nossa parte para trazê-los para fora da caverna.
Referências
Freire, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 22ª ed. São Paulo: Cortez, 1988. 80 p.
LINARDI, Fred. “Ler por prazer é o X da Questão“, acesso em 23 de Agosto de 2011.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 15ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2007. 94p. (Coleção Primeiros Passos – 74).
PINHO, Angela. “Por que o Brasil não consegue alfabetizá-la?”, revista Época, São Paulo, ed.692, p.64-66, ago. 2010.
O Leitor. Direção: Stephen Daldry. Produção: Donna Gigliotti, Anthony Minghella, Redmond Morris e Sydney Pollack Elenco: David Kross, Kate Winslet, Jeanette Hain (Brigitte), Susanne Lothar (Carla Berg), Alissa Wilms (Emlily Berg), Ralph Fiennes. Roteiro: David Hare, 2009. 1 DVD (2 hr 4 min.), color. Baseado no romance O Leitor, de Bernhard Schlink.
“40% dos alunos leem mal ao concluir o 3º ano”. A Crítica, Manaus, 26 ago. 2011. Brasil, p.A9.
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[Luiz Guilherme Melo é jornalista, Manaus, AM]