LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

Gotardo Neto faleceu a 7 de maio de 1911. Trinta anos incompletos. Toda sua produção estava espalhada nos jornais da época, jornais fáceis e jornais difíceis de encontro, para cópia e seleção.
Em 1913, publicou-se o seu “ FOLHAS MORTAS”, com um prefácio de Antônio de Souza. Um lindo prefácio sem nota biográfica. Nem elementos para sentir e compreender a entidade humana que desaparecera.
Gotardo Neto não merecera a alegria de ver um livro seu, impresso, diante dos olhos mortais e claros.
Praticamente , morrera inédito para as gerações futuras.
Eu tinha 13 anos quando ele faleceu.
Quando comecei a escrever, 1918, viviam muitos dos seus amigos, daqueles que o tinham conhecido e com ele privado. Eram unânimes no julgamento entusiástico.
Gotardo Neto fora o primeiro sonetista do seu tempo. Quem melhor soubera manejar vocabulário e dispor a técnica. Era o mestre, o professor, o iniciador dos amigos que abriam as asas para o primeiro vôo poético.
Quando se fundou a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, em 1936, Francisco Ivo Cavalcanti, um amigo fiel, escolheu Gotardo Neto para patrono de seu cadeira e pronunciou eloqüente elogio, recordando, ressuscitando, lembrando o poeta do “ FOLHAS MORTAS”.
A história sentimental de Gotardo Neto teve em Ivo Filho um intérprete emocional e verídico. Vivera também as horas tumultuosas do amor e do desespero ansioso, acompanhando mentalmente a tempertade que sacudia os nervos do jovem companheiro e mestre admirado.
Mas Gotardo Neto não conseguiu impressionar aos da minha geração, hoje semi-desaparecida e devastada pela morte. Tínhamos os versos, bons versos, mas iguais aos bons versos do seu tempo. Faltava a criatura humana para valorizá-los e trazê-los, palpitantes, ao interesse intelectual de outros leitores, ausentes espiritualmente aos motivos orientadores dos seus poemas.
Gotardo Neto havia sido, realmente, um guia, um orientador, um chefe dos novos. Creio que bem pouco orientou no campo de leituras ou revelações literárias, mas seria utilíssimo no alinho, aprumo, polícia, disciplina da métrica, ensinando a vestir a ideia e a  colocar nos ombros da emoção lírica o manto transparente da sedução verbal.Seu livro, publicado em 1913, continua ignorado pelos poetas contemporâneos. Ninguém deduz de sua existência dolorosa, daquela boemia que é legitimamentede Murger, de Musset e Verlaine, daquela sensibilidade que a paixão intoxica e domina, secando  as forças da mobilidade e da esperança vital, reduzindo-o a um lento suicídio, a um desespero silencioso, digno do moto, aberto em sangue e lágrima, que devia escrever-se na lápide do seu túmulo: AQUI  JAZ O QUE MORREU DE AMOR
Não é surpresa que um dia os Poetas-de-agora reencontrem em Gotardo Neto um motivo autêntico de inspiração que os apaixona noutras terras e noutras almas distantes. Na cidade do Natal morreu em 1911 quem teve vida romântica de Paris em 1830 ou de Londres no espírito de Dante Gabriel Rossetti, no delírio pré-rafaelista: Gotardo Neto reivindica, serenamente, um clima proustiano para seu estudo e todo efeito negativo do seu prestígio é ter nascido, vivido e morrido na cidade do Natal.
Seus versos podem e não podem ser admirados mas, inquestionavelmente, documentam uma existência tão alta, do sofrimento e angústia, como as mais aclamadas e prestigiosas de um Rainer Marie Rilke, por exemplo.
Os nossos estudiosos, indagadores de psicanálise, teriam em Gotardo Neto um sugestivo e notável exemplo de material, de território humano que pede viagem, exploração e análise.
O indispensável é não separar “ FOLHAS MORTAS” da vida do Poeta.
Gotardo Neto é, positivamente, um grande assunto.
Falta apenas a curiosidade pesquisadora…