“ Um poeta, portanto, tem que estar atento a essas duas quinas: à pressçao do presente e à presença interrogante do leitor. Se menospreza a primeira, tem muito pouco a dizer; se não consegue estabelecer contato com a segunda, tudo o que o poema detém e quer transmitir, toda a interrogação que pretende sustentar, cai no vazio.
Como se faz isso, ignoro. Mas não esqueço de mirar um momento em que um máximo de ética presidia a relação com o leitor e, ao mesmo tempo, sem concessão de espécie alguma; penso em Drummond, por afinidade, como poderia pensar em outros poetas do modernismo maduro.
Hoje o que se pede é, em outros termos, equivalente. Trata-se também de forjar uma língua à altura das complexidades da cultura e que possa, ao mesmo tempo, ser lugar de expressão e contato. Se isso ocorre, uma cultura tem, pelo menos no tocante à sua língua, os instrumentos necessários para se dizer e se ouvir. Caso contrário, tem-se um estado no qual os afetos e as necessidades se buscam num jogo de cabras-cegas.
Rimbaud disse um vez que a tarefa do poeta era “ definir a quantidade de desconhecimento que desperta em seu tempo no fundo da alma universal”. Hoje eu poria tudo isso numa dimensão bem mais modesta e diria que é estabelecer um pacto de continuidade com o leitor e mantê-lo através da estranheza, estranheza que nos cerca e que o poema deve necessariamente incorporar se quiser permanecer verdadeiro consigo mesmo.”