Alcides Villaça

 

Parte considerável da poesia moderna tem vivido esta inquietação desferindo golpes duros na ilusão romântica da plena libertação subjtiva. Tratando tal  liberdade como ilusão, cria para si mesma uma outra liberdade, mais precária e talvez mais conseqüente: a de expor os limites de seu necessário fingimento. Adota, assim, uma base mínima de realismo, de onde saltam as imagens vivas do sujeito precário, as imagens precárias do sujeito vivo. Certa ingenuidade, que já foi a condição ou o alvo positivo de tantos poemas do passado, é agora com freqüência levada a um estado de impossibilidade crítica.Quantos mitos, que se sustentavam por crença ou convenção do dizer poético, não foram em nosso tempo reduzido a uma estéril mitologia da linguagem pela linguagem? E quantos outros, em processo que julgo mais expressivo, não perderam seu projeto de comunhão universal ao se desmascararem no uso pessoal que faz deles a consciência irônica? São estes, a meu ver, os pólos radicais que delimitam o espaço de atuação da poesia moderna: linguagem-fetiche, positiva e celebratória, e linguagem-problema, agônica e crítica. Meus poemas querem estar mais próximos deste segundo pólo, no influxo de uma tradição da poesia brasileira cujos mestres fundamentais ainda são Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Os olhos de Manuel Bandeira se detêm no beco, no quarto, na maçã sobre a mesa, no cotidiano próximo ou num quadro da memória pessoal: o poeta garante assim, no confinamento material e sensível do horizonte “ menor”, a mobilidade viva do sujeito e dos seres de seu mundo, que falam a linguagem da simplicidade. Em contato com essa honesta simplicidade, carregada de afeto e de melancolias verdadeiras, soam ridículas as retóricas abstratas de toda espécie. A poesia de Bandeira aceita lembrar que o indivíduo tem carne e osso, e que a base material de seus sentimentos pode nascer com a percepção de seus próprios limites.A poesia de Carlos Drummond de Andrade nasce gauche e irônica, dividida entre negar ou confessar a timidez orgulhosa; tenta em seguida abrir-se à problemática socialização, policiada pelo rigoroso individualismo; mergulha depois no poço de um tempo esvaziado e rarefeito, em que a consciência isolada circula como negação viciosa; finalmente rearticula-se nas formas fluentes de uma poesia da memória, cujo detalhismo homenageia as porções mínimas da vida. As  várias faces recolhidas na trajetória do sujeito drummondiano falam de aspectos fundamentais que compõem a personalidade do homem e do artista moderno.

A poesia de João Cabral de Melo Neto nasce despedindo-se da tradição mais visivelmente lírica. Em Cabral, a atuação do sujeito se despista numa espécie de ordem lingüística com luz própria, numa linguagem que troca, porém, suas qualidades severas com as das paisagens nordestinas e de seus habitantes, com as dos ciganos de Sevilha e as dos arquitetos e geômetras. Ironicamente, é poesia personalíssima, não isenta do sentido trágico que ganha o ocultamento do sujeito nas dobras da linguagem. Constitui e cumpre assim o mais determinado projeto na linguagem poética brasileira.