(Palavras que inquietam)

Bené Chaves

Diziam os estudiosos de Voltaire (1694 -1778) – cujo verdadeiro nome era François Marie Arouet – que ele era uma pessoa paradoxal ao extremo. Foi preciso a parteira dar-lhe palmadas para que sobrevivesse. Os médicos não lhe deram mais do que quatro dias, mas ele enganou a todos e viveu oitenta e quatro anos. Desprezava a humanidade, embora gostasse dos homens. Ridicularizava o clero, porém dedicou um de seus livros ao Papa. Falaram também que odiava a hipocrisia, empenhando-se com o riso na tarefa de afligir seus mentores. Todavia, era um hipócrita na atitude com os judeus. Não acreditava em Deus, mas sempre procurou encontrá-lo.

No entanto, tinha um discernimento incomum em    relação às instituições políticas e sociais de seu tempo. E numa profunda verdade sentenciava: “rio-me, para não enlouquecer”.

E o que diremos nós, caro Voltaire, já tão calejados, hoje  em dia, dessas malfadadas instituições? O jeito mesmo é rir, amargamente rir, senão enlouqueceremos todos.

 

Mais adiante, bem mais adiante, aparece o poeta e escritor austríaco Ernst Fischer, nascido em 1899. Dizia ele que “em um mundo alienado, no qual unicamente as  ‘coisas’ possuem valor, o homem se torna um objeto entre objetos: o mais impotente, o mais desprezível dos objetos. Eles, os objetos, têm mais força do que os homens”.   

Em razão disso acrescenta com lucidez: “a arte é necessária para que ele, o homem, se torne capaz de conhecer e mudar o mundo”.

 

E eis que chega uma mulher para nos auxiliar. É a chinesa Chiang Kai – shek, que nasceu em Xangai no ano de 1899, o mesmo do filósofo anterior. Dizia lá nos seus ensinamentos que o excesso de riqueza devia pertencer à humanidade… deve haver igualdade entre os povos e as classes… paz e harmonia entre as nações ; roupa, alimento e habitação para os indivíduos .

Mas, o que vemos depois de quase um século de vida?     Que seu discurso tão apregoado com louvor, parece ter desfalecido na ganância insaciável e na insensatez dos homens. Afinal, concluía: não sou mística, não sou visionária. Acredito no mundo visto, não no mundo não visto.

Grande mulher, hein?, essa madame Kai – shek .

 

Sobre a morte, esse fantasma que ronda nossas vidas e nos pega de surpresa, já comentava o célebre escritor argelino Albert Camus: “o que me espanta sempre, quando sempre estamos tão dispostos a sutilizar noutros assuntos, é a pobreza de nossas idéias acerca da morte”. E acrescenta adiante que “terei de morrer, mas isso nada quer dizer, porquanto não chego a acreditar e só posso ter a experiência da morte dos outros”. Todavia, diz ele, “penso então : flores, sorrisos, desejos de mulheres, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de viver”

Apenas como ilustração: no excelente filme O sétimo selo, de Ingmar Bergman, o assunto é focalizado e na sua seqüência final mostra a sempre temível Morte carregando enfileirados todos os personagens da trama.

 

Mas, vamos falar da vida… E sobre ela temos o depoimento realista do escritor americano Henry Miller, quando diz, entre outras coisas, que “a meu ver o mundo caminha para a ruína. Não é preciso muita inteligência para ir vivendo do jeito que as coisas andam. Na verdade, quanto menos inteligência se tem mais se progride”, arrebatando depois que “eu queria encantar, mas não escravizar; queria uma vida mais ampla, mais rica, porém não à custa dos outros; eu queria libertar a imaginação de todos os homens…”

 

E diante dos questionamentos da morte ou da vida, apelamos para o filósofo Confúcio, que viveu lá nos idos dos anos 531-478 a.C. Dizia ele, com a sabedoria que lhe foi peculiar: “como hei de compreender a morte, se ainda não compreendo a vida?”

 

 

  • Mas, quanto aos caminhos e descaminhos obscuros de uma vivência com dignidade, o mesmo declarava: “se a humanidade fosse governada com justiça durante apenas um século, toda violência desapareceria da terra”. Procurava compreender o ser humano, porém batia na tecla de que “não me preocupa muito que os homens não me entendam. O que me aflige é não os entender”.

Vejam como naquele tempo as pessoas já eram  estranhas e difíceis. Avaliem, caros amigos e amigas, se Confúcio vivesse no mundo atual com este elo forte de corrupção atiçando as falsas probidades humanas.      

 

 

Bené Chaves é autor, entre outros, do livro A mágica ilusão.