Bené Chaves

O que poderíamos dizer sobre a sempre desencantada ou encantada Justiça? Eu diria que ela é uma faca de três gumes. Ou seja: não existe. Em último caso, se existe, não atua. E se atua,  quase ninguém cumpre o que determina. Quer dizer: fica desmoralizada. Resumindo: não existe mesmo! Pode ser apenas um arremedo, um faz-de-conta. A tal história da carochinha.

Já o irrequieto jovem Trasímaco, contemporâneo de Platão e

Sócrates, numa espécie de sarau reunido entre aqueles magníficos         cavalheiros gregos, gritou de sua sabedoria exemplar: a justiça é, simplesmente, o interesse do mais forte. Ou para dizê-lo de outra maneira, o interesse do governo estabelecido. E encorajado diante daquela pequena platéia, arrematou com entusiasmo: podereis ver que o homem justo, em qualquer parte, sempre sai perdendo, se comparado com o homem injusto. Em primeiro lugar, em seus negócios mútuos. Em seguida, em seus negócios com o Estado. E quando há algo a receber, o justo não obtém nada, enquanto o outro tem grandes lucros.

Pois é, caro leitor, avalie se o brilhante pensador tivesse uma vivência eterna e pudesse então presenciar o que se fez e faz nesses anos de caos. E é absurdamente incrível como tudo o que ele falou está ainda posto em prática…

 

Enquanto isso, o irreverente e moderno filósofo americano Barrows Dunham, que viveu séculos depois, corroborando a opinião anterior, deu uma sentença final: parece até que quanto maiores os lucros da injustiça, maior a segurança dos que a cometem. Por conseguinte, não mais acreditamos que a razão controla a vida. Entendemos que a vida controla a razão. Dito isto e proclamando certo niilismo, completou Oswald Spengler: a vida não tem finalidade. A humanidade não tem finalidade. 

Mas, o homem bom, o homem feliz, é aquele justo,    harmonioso, o homem cujas qualidades de caráter, perfeitamente aplicadas, executam sempre a nota certa na sinfonia da cooperação social, finalizou Platão.

 

 

Novamente apelamos para o pensador Barrows Dunham quando ele diz que uma sociedade na qual ninguém jamais fez algo em benefício dos outros seria uma sociedade na qual nenhuma divisão do trabalho poderia existir. Dificilmente seria, a rigor, uma sociedade.

  E então sentimos que o homem premido pelas necessidades grosseiras e esmagado pelas preocupações imediatas, é incapaz de apreciar mesmo o mais belo dos espetáculos, completava Karl Marx. E diante de tais idéias conceituadas, finalizava o jovem ensaísta John Sprigg: tal como a neurose, o retrocesso social não é a solução.

No entanto, o flagelo da fome continua aí em proporções alarmantes, contribuindo para um distanciamento maior das classes, e tendo como causa primeira a velha corrupção, paradoxalmente mais nova e mais atuante a cada dia.

 

Falando agora um pouco do ponto de vista político, vamos ao encontro do pensador Emmanuel Mounier, quando ele alega que o poder é por essência corruptor e opressivo. E segundo o mesmo a verdadeira democracia é a busca de uma forma de governo que se articule com a espontaneidade das massas, a fim de garantir a participação dos sujeitos na ordem objetiva do poder. Portanto, o que dizer de países onde milhares de pessoas vivem morrendo de fome, crianças e velhos abandonados, banidos, dormindo em praças públicas, debaixo de pontes e não tendo um mínimo para sobreviver? Será isso uma democracia?

Aliás, quem assistiu ao filme Quando a vida é cruel (visto no cine Nordeste em agosto de 1964) de Jack Garfein, realizado em 1961, pôde observar a outra face de países que se dizem democráticos, aqui mais precisamente focalizando o outro lado da sociedade americana, isto é, o povo miserável de Nova York.       

E em consonância com o filósofo acima, ficamos sabendo que entre um céu vazio e uma terra em desordem, a vida do homem aparece sem perspectivas, sem saída, afirmou desolado Roger Garaudy.

 

 

Como a existência sempre nos prega alguma peça no seu transcorrer, René Descartes (1596 – 1650), entre outros, com certeza, dizia inocentemente que seguia amando a vida e, sem embargo, não temendo a morte, porque se considerava – com a idade de quarenta e quatro anos – mais distante da morte do que quando moço, já que há mais de trinta anos não sofria uma enfermidade. Mas, tendo sido pai de uma doce criança, adorava-a com bastante ternura. Quando subitamente esta veio a falecer, ele acrescentou nova prova da realidade de sua existência. Disse então: sofro, logo existo. E chorou intensamente com a idéia de que a suposta eternidade pudesse ser extirpada pela simples dor de um momento.

 

 

                                  Bené Chaves é autor, entre outros, do livro A mágica ilusão.