Por Bené Chaves

Falando um pouco sobre o pessimismo, nos vem à tona Arthur Schopenhauer, nascido em 1788. Era uma pessoa difícil de entender, e desde logo transformou a hostilidade que tinha à sua mãe num ódio eterno. Diante disso, dizia: “desde o primeiro alvorecer de meu pensamento, senti-me em desacordo com o mundo”. E por aí foi ditando sua filosofia da solidão… “Os homens de valor intelectual, principalmente quando dotados de gênio, só podem ter poucos amigos”. Nem tanto, nem tanto… Pois as regras têm suas exceções. Mas, quando um homem leva uma vida mental “e pelo simples fato de existir, trabalha para toda a humanidade; está isento, portanto, de quaisquer obrigações”. Justificava, com isso, sua ociosidade física, pois tinha liberdade para se ocupar com exclusividade de sua mente. Acreditou que o próprio homem era apenas um sonho, isto é, “quanto mais o conheço, menos gosto dele”, finalizava. Decerto que não gostava de sonhar. E parecia não levar a sério as mulheres, sempre as desprezava, talvez como desdobramento da raiva que alimentou da própria mãe.

Também o filósofo romancista William James, nascido em          1842,      corroborando um pouco do pensamento anterior, disse:      “nenhum homem é psicologicamente completo se não tiver,        uma vez ao          menos, na vida, meditado sobre sua auto-  destruição”. Quanto a isto, escrevia o cientista Ernst Haeckel: “O     importante problema da autodestruição(a própria palavra é      absurda – devia chamar-se autoliberação), tem-me ocorrido         com muita freqüência”, pois, acima de tudo, “o enigma da vida       continua indecifrado”.          

 

E quanto às famigeradas leis, que estão aí somente nos moídos e roídos papéis? Saint–Just exprimia uma máxima lapidar: “a servidão consiste em depender de leis injustas; a liberdade, de leis racionais”. Porém o escritor Franz Kafka descreve uma bela parábola para mostrar o absurdo de suas não execuções. Eis, portanto, em síntese, tal exposição:

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se        diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei.     Mas, recebe a negativa, não poderá deixá-lo entrar. E diz: ‘se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Porém lembra-te de que sou poderoso. E existem, além de mim, outros e outros guardas também poderosos’

               A Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele.      E resolve, então, esperar sua vez. Ali espera dias e anos. Maldiz       sua má sorte em voz alta, mas, à medida que envelhece, apenas    murmura para si. Já lhe resta pouco tempo de vida e à beira da       morte, sussurra para o guarda: – Todos se esforçam por chegar  à Lei”.

            Mas, o pobre homem morre e não consegue penetrar naquele          confuso e sombrio labirinto. O guarda resolvera fechar          definitivamente sua entrada. Não é uma narração alegórica de          forte impacto, sabendo-se, de antemão, que muitas portas    são lacradas quando tentamos adentrá-las honestamente?

 

Será que o mundo é mesmo inteligível, como queria Hegel? Segundo ele “a razão encontra-se no âmago das coisas”. Porque, acrescentava então, “quando o homem perde a fé nos valores da vida humana, a civilização retrocede”. Em tese dizia que “a vida tem a morte, e o amor, o ódio. O dia tem a noite, e a mocidade, a velhice”. Afinal de contas, ela, “a vida, é uma luta de forças opostas tentando combinarem-se umas com outras, numa unidade mais elevada”.  

 

E o filósofo Epicuro ( 342/270 a.C.) o que diria de tudo isso? Antes de mais nada, quando tinha apenas doze anos, seu professor tentou explicar a criação do mundo.

- Tudo vem do caos, disse-lhe o mestre.

- Sim…, retrucou Epicuro, mas de onde proveio o caos?

                        -Não sei, ninguém sabe…, voltou-lhe a dizer.

Era um descrente que negava a humanidade de Deus,                                porém sustentava a divindade do homem. No início dizia      que “o                propósito de viver é gozar a vida. Mas, para que possamos gozá-                  la, devemos compreendê-la”. Afirmava ser ela “apenas um                                       acidente mecânico”, porque acreditava sinceramente que “a vida    do                   homem é uma farsa demasiado louca…  é um guerrear                        contínuo, e não há trégua para nenhum de nós senão na morte”.                          Sobre a verdadeira religião dizia que “ela não consiste no                          sacrifício, na superstição ou no medo. Consiste, antes, numa                 piedosa imitação dos deuses, isto é, na contemplação da                        natureza do mundo”.

                         E quanto ao aspecto de nossa vivência aqui acrescentava que                    “a terra em que vivemos, é-nos arrendada por algum tempo, e, ao                       chegar o momento de partirmos, somos despejados sem aviso             prévio”. Afinal, “se os sofrimentos da vida podem reconciliar-nos                  com a morte, a santidade da amizade pode reconciliar-nos com                a vida”, concluía triunfante.