Por Lívio Oliveira (*)

Conheci Bartolomeu Correia de Melo, o grande Bartola (como o chamavam os amigos), na Cooperativa Cultural do Campus da UFRN, há mais de dez anos. Possivelmente, não lembro com exatidão, o excelente contista me foi apresentado pelo livreiro Luiz Damasceno ou pelo professor e escritor pernambucano Carlos Newton Júnior, que presidia a Cooperativa naquela época.
> Posteriormente, o próprio Bartolomeu presidiu a entidade que mantém a importante livraria incrustada no Centro de Convivência do Campus. Foi ali, em meio ao burburinho do bom comércio dos livros, que comecei a ter mais contatos com o saudoso professor universitário e escritor de contos e de livros essenciais na biblioteca de qualquer que ame a literatura de melhor qualidade produzida no Nordeste, como fazem exemplos “Estórias Quase Cruas”, “Lugar de Estórias” (premiado pela UBE/PE) e “Tempo de Estórias”, ambos publicados pela Editora Bagaço, de Recife (foi autor, também, vale lembrar, de belos livros infantis).
> Eu conversava – durante o tempo em que presidiu a Cooperativa – quase que diariamente com o escritor, fascinado pela sua sabedoria e pela sua forma simples de ver a vida e de lidar com o mundo das letras, sem arrotar erudições falsas. Percebia em Bartola um sempre muito saudável e sábio distanciamento daquela conhecidíssima vaidade presente no mundo intelectual. Não se revestia da soberba que alguns alimentam em torno de seus próprios umbigos.
> Era um escritor que realmente vivia em busca das belezas mais tranquilas, mais sóbrias, sem ser metido, sem ser inconveniente. Simplesmente, amava a literatura. E não somente a prosa, basta perceber a escolha de epígrafes que encimam os seus contos, muitas retiradas de textos poéticos.
> Não sei em que medida o fato de ter sido um profissional e um acadêmico numa área tão distinta como a da Físico-Química estabeleceu o comportamento especialíssimo de Bartolomeu; mas sei que a sua visão e a forma como se guiava por entre mundos que teimam em ser cruéis e ingratos, como são o da academia universitária e o da literatura, eram sempre baseados em uma posição serena que permitia manter um centro de equilíbrio quase que perfeito, favorecendo o criar literário em detrimento da vida literária.
> O que importava para Bartolomeu era a criação literária, era o tecer do texto, era encontrar as soluções mais simples e sábias (e, evidentemente, belas) para os contos que trazia diante dos nossos olhos deslumbrados.
> Por ocasião de uma das versões do Encontro Natalense de Escritores (ENE), em 2007, tive a oportunidade de – convidado por Dácio Galvão – contribuir com algumas sugestões de mesas de debates. Propus, na ocasião, pelo menos uma que foi prontamente acolhida: “A prosa nordestina e seus aspectos”, destacando os nomes de Ronaldo Correia de Brito, Francisco Dantas, Humberto Hermenegildo e, claro, Bartolomeu Correia de Melo.
> Esse foi um dos meus maiores orgulhos intelectuais.
> Dois outros orgulhos – que guardo com um carinho acima da média – foram: ver um trecho de um poema meu encimando o conto “Desafogo”, do livro “Tempo de Estórias” e ter participado como jurado (a convite de Bartola) de um concurso de poesia da Cooperativa do Campus, ao lado de Luiz Damasceno e do grande poeta Jarbas Martins.
> Minha saudade desse homem e escritor é vasta como os verdes de Ceará-Mirim, terra onde foi criado e que amava profundamente, a ponto de torná-la o principal cenário de seus escritos. Acredito que ainda temos muito – os escritores e leitores – a aprender com Bartolomeu Correia de Melo e seu importante legado construído de palavras e sabedoria.

(*)Poeta, escritor  e ex-presidente da UBE/RN (2006-2007)