Bené Chaves

 

 O racionalista Baruch Spinoza, que viveu em meados do século XVII, era tido como um homem de doutrinas perigosas. E diante disso (olhaí a prática que vem de longe…), mandaram-no chamar e ofereceram-lhe um rendimento anual equivalente a 500 dólares pelo seu silêncio e sua adesão à fé ortodoxa. Recusando tal oferta, foi de imediato excomungado. Começou, então, a viver seu drama. Mas, não se abateu e aprofundou-se nas suas teses, como filósofo que era. Dizia que “o mundo nunca foi criado, nunca será destruído”. E definia a atitude religiosa pela ignorância das causas. Não acreditava num Deus pessoal, providencial. Deus, para ele, era o mundo. Completava depois sua teoria, dizendo: “todo homem deve amar a si mesmo e procurar o que lhe é útil”. Quando afirmavam que era um conceito egoísta, ele arrematava: “pois, para que amemos a nós mesmos, havemos de amar aos outros”,  disparando em seguida que “as nossas maiores vitórias são obtidas não pelas armas, mas pela grandeza da alma”.

 

 

Falemos um pouco agora sobre a liberdade… E vamos ao encontro de Jean-Jacques Rousseau, que, com sua alma romântica e sentimental, dizia ser a mesma “não apenas um direito, mas um dever imprescindível da natureza humana, que exige também a igualdade dos homens”. Sabendo ele que “quando a civilização e a sociedade os corrompem, é preciso recorrer ao sentimento, voltar à natureza”. Mas, num tom alegórico, embora o escritor russo Dostoievski (“Crime e Castigo”, entre outros) dissesse que “os homens não têm mais de escolher, nem de pensar, nem de querer, pois para lhes dar a felicidade cega, arrebataram-lhes as liberdades”, o pensador e filósofo francês Jean-Paul Sartre dizia categórico que “ao querer a liberdade, descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa”… reconhecendo também que “minha liberdade é um mito… e minha vida se constrói por debaixo desse mito, com um vazio, o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada”. E quando Edmund Husserl observa, então, e diz ser “o futuro  radicalmente indeterminado,  imprevisível; não existe tempo objetivo e tudo recomeça a cada instante”, sentimos que a nossa almejada liberdade pode ser apenas uma imaginação.

 

 

Embora o filósofo e professor Patrick Mullahy, autor do livro “Édipo: mito e complexo”, tivesse dito que “as relações de ódio constituem não só sentimentos negativos, mas, em geral, impedem a formação de uma emoção de amor ou, pelo menos, sua manifestação”,  sabe-se que o amor e o ódio andam juntos, coladinhos e paralelos.  No clássico “Aurora”, realização de 1927, o alemão F.W. Murnau conta uma bela história de amor. É um drama sobre o ciúme, onde sua carga de lirismo nos surpreende com visuais criativos e atuais. E aí, então, o filme mostra, de uma maneira realista, a interação existente entre os dois substantivos masculinos. São os dois gêneros de formação emocional’, segundo avaliação das teorias do escritor e psicanalista Otto Rank.

Portanto, complementa o próprio Mullahy: “a vida emocional     representa a mais poderosa força interior, uma força que é mais    influente do que o instinto sexual”, dizendo em seguida que a segunda            alternativa é susceptível de ser controlada e satisfeita, enquanto a    primeira, ao contrário, é incontrolável  e insaciável.

 

 

E enquanto alguns acham que a vida é curta demais, sem chance para a felicidade de muitos, inclusive a maioria não vivendo com dignidade, sofrendo desde seu nascimento, com crianças, homens e mulheres passando privações as mais diversas, o filósofo Ralph W. Emerson, nascido em 1803, dizia ser ela “desnecessariamente longa”. Não se comovendo com o que ele chamava de “a tolice dos homens”, não deu confiança a um dos asseclas que o indagou: – Sr. Emerson, sabe que, hoje à noite, o mundo chegará ao seu fim? Ao que ironicamente rebateu: – Alegro-me de ouvi-lo; o homem viverá melhor sem ele.

                Outro pensador da mesma época, Herbert Spencer, completava           que “a vida do homem, a vida do mundo, é um sonho intermitente entre um sono e outro sono”, falando também que “cada um de nós é um composto de duas personalidades: o homem exterior e o interior”.         Profundo e trágico, Spencer, no entanto, tinha o bom senso de não        confiar no Estado( já naqueles tempos existiam fortes interrogações…),      cobrando-lhe que se limitasse “a impedir que fosse violada a igualdade           de direito de seus membros”. Incrível como essas mesmas igualdades      são ainda vilipendiadas a cada momento…

              E o que George Santayanna – um pouco mais velho do que os dois anteriores – dizia disso tudo? Esclarecia que “as     ações dos homens não são livres, mas mecânicas”. Na sua negação da   força do espírito, observava que não existia uma alma imortal. Acrescentava então: “acreditar numa alma assim é acreditar, simplesmente, em mágica”. Era um homem, a exemplo de Voltaire, também paradoxal. Chamando a vida de espetáculo irracional, talvez tivesse razão quando afirmava que, contrariando opiniões ingênuas, “o céu consiste em estar em paz com as coisas”.              

 

 

 

Bené Chaves  é autor, entre outros, do livro A mágica ilusão.