Bené Chaves

 

Sobre as formas de governo, o que diria o estadista americano William Penn(1644/1718)? Comentava que “todo governo é livre quando são as leis que governam e o povo participa dele”, para logo em seguida ditar: “obediência sem liberdade é escravidão”. Em resumo, sentenciava que “o governo depende mais dos homens do que dependem os homens do governo”. E, sendo “a terra boa… o ar claro e leve, as fontes d’água abundantes e as provisões fáceis de obter” dizia o mesmo, tudo isso redundaria numa vida saudável para muitos, desde que fosse primordial “transformar o mundo num lugar melhor para nele se viver, tanto material como moralmente”, arrematou depois Benjamin Franklin, nascido em 1706. Ao dizer que “as massas são feras famintas, exploradas, espezinhadas e espancadas”, Alexander Hamilton, outro estadista americano, complementou: “os vícios dos ricos se harmonizam melhor com um bom governo do que os vícios dos pobres”. E diante disso tudo, tentando analisar os problemas que surgiam, essa ou aquela forma de governar, John Adams – estadista americano nascido em 1735 – permaneceu indeciso e fantasiou: “ando vagabundeando sozinho, a tecer considerações. Penso, matuto, rumino. Seguidamente perco-me em sonhos e profundas meditações. Os objetos que me cercam são por demais grandiosos e multifários para a minha compreensão”…

              O que diríamos nós, então, de tais considerações?

 

Þ            Mas, enquanto a humanidade não se livrar da avareza e da ambição, haverá guerra”, já dizia o estadista John Marshall, ao que Charles Sumner passou a expor a inutilidade da mesma, “sua absoluta incapacidade para decidir a questão do justo e do injusto”, dizendo depois que ela “esmaga sob o calcanhar sangrento toda a justiça, toda a felicidade e tudo o que há de divino no homem”. Antes disso, Thomas Jefferson já teria acrescentado: “afinal de contas, os ratos têm de proceder como ratos”, ilustrando com certa ironia. E o que ele sempre desejou e lutou foi “impedir a acumulação e a perpetuação da riqueza no seio de uma elite”, já que “bastava um simples mecanismo para arrancar dinheiro do bolso de um homem e colocá-lo no bolso de outro. São lobos a governar ovelhas”. Sabendo também que os homens “sentem o poder e esquecem o direito”, idealizou teoricamente que “a vontade da maioria será lei, os direitos da minoria serão protegidos, a justiça será dispensada com eqüidade para todos”. Depois, falou com sabedoria e bom senso: “a educação, arroteamento e plantio do pensamento humano, produz o alimento universal do humano progresso”. E logo a seguir quedou-se triunfal ante exemplar conceito.

 

Þ           Dizendo que “a finalidade de todo governo é muito simples, ou seja, ministrar justiça”, James Madison (1751/1836), outro estadista americano, ensaiou: “todos os homens são iguais e dotados de direitos naturais”, porque, lembrou ele, “a fonte suprema do poder devia jorrar do consentimento do povo”. Ficou infeliz ao saber da “diversidade de opinião entre os homens de igual integridade e discernimento”, sendo, então, para ele, uma “triste prova da falibilidade do julgamento humano”.

E acercados de tantas falsas prerrogativas, embora Benjamin       Franklin dissesse no final da vida que “não posso admitir o     aniquilamento das almas”, Thomas Jefferson arrematou dizendo ser o     fim de tudo “uma grande aventura nunca experimentada pelos vivos e não relatada pelos mortos”.

 

Þ            Então, para Edgar Allan Poe, “as realidades do mundo afetavam-me como visões, apenas como visões, enquanto que as idéias loucas da terra dos sonhos se tornavam, por sua vez, não o material de minha vida cotidiana, mas, realmente, minha inteira e única existência”. Porque, como bem disse o filósofo alemão Martin Heidegger, “o ser humano só pode definir-se a partir de seu existir, isto é, de sua possibilidade de ser ou não ser o que ele é”. Afinal de contas, de acordo com o teólogo dinamarquês Kierkegaard, “não se trata tanto de escolher querer o bem ou o mal, mas de escolher o querer”, pois sabemos que “vivemos num mundo… cujo o porquê , cujo sentido, procuramos em vão”(Edmund Husserl, 1859/1938). Aliás, depois de toda celeuma, voltamos a Allan Poe, que, talvez decepcionado, ficou descrente do ser humano e afirmou convicto: “os homens, em geral, tornam-se vis gradualmente”. E por causa disso, interrogou-se a si mesmo, manifestando-se que “na verdade, não terei vivido num sonho?”, questionando os absurdos deste mundo.

 

Þ            Nascido em 1214, Roger Bacon já dizia: “creio que a humanidade aceitará como regra axiomática o direito de investigar. É esse o credo dos homens livres – a oportunidade de ensaiar, o privilégio de errar, a coragem de tornar a experimentar”. Completava em seguida que, “ele, o homem, devia seguir a trilha da humildade, se quisesse procurar a verdade”. Mas, fantasiando um pouco a frase seguinte, diremos: “embriagado e arrebatado pelas doces seduções desta sereia,  que estava constantemente deitada a seu lado, o homem muitas vezes se esquecia de comer e beber” (Plutarco), provando o que dissera Bacon de que ele, o homem, não fora feito para a natureza, mas a natureza é que fora feita para ele. Afinal, “só o homem racional pode pôr um freio à competição natural da força bruta”, dissera tempos depois o médico e cientista Thomas Huxley.

 

 

 

Bené Chaves é autor, entre outros, do livro O que aconteceu em Gupiara.