Bené Chaves

 

 

  •    Vejam que primor de texto dito pelo personagem e crítico De Witt (vivido pelo ator George Sanders) no filme A malvada : Nós temos em comum… Desprezo pela humanidade, incapacidade de amar ou ser amados, ambição insaciável – e talento. Merecemos um ao outro.

    Não calharia extraordinariamente bem se saísse da boca de um desses sujos políticos (e homens públicos) em confabulações com seu interlocutor? Ou, no caso, em especial, uma interlocutora?

 

  •     E chega também para nos auxiliar a palavra sempre sensata de Antonio Vieira, que desde os idos do século XVII ficou famoso pelos lapidares depoimentos sobre o ser humano. Acerca dos ditos e indignos representantes do povo, eis o que dizia o abnegado padre: Tempos houve em que os demônios falavam, e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os políticos ainda é pior mundo.

               Sem comentários, sem comentários…

    Mais adiante, uma sentença da época, lógico, para                                  fecharmos o cerco ao nobre Pe. Vieira : Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros.

E olhe que tal frase foi pronunciada, claro, antes do ano de 1697, quando ele morreu no dia 18 de julho. Não se atrela a uma máxima profética e que se encaixa nos tempos atuais? Notável, simplesmente notável…

     

  •      E a demagogia dos políticos tem seu clímax no excelente filme de John Ford O homem que matou o facínora (produção de 1962 e visto no cine Rio Grande em fevereiro de 1964). Na significativa cena em que um homem público pretende iniciar seu discurso, ele abre uma folha na frente de todos e depois a amarrota e joga-a no chão. Um senhor atento apanha o papel e vê que o mesmo está em branco. E o velho político iniciará o malfadado discurso de improviso, ignorando a presença do perspicaz observador.

Quantos de nós não ficamos na inocência em atitudes       feitas às ocultas, hein?

 

  •      Saindo um pouco da esfera política, recorremos ao polêmico cineasta Rainer W. Fassbinder, alemão incansável, passional e precoce. Realizador de fitas excelentes como Despair – uma viagem para a luz (77) e As lágrimas amargas de Petra Von Kant (72), entre outras, parece não ter conseguido escapar de sua sina. E morreu moço ainda, aos 36 anos, devido mais a uma vida de drogas e escândalos, deixando, porém, seu legado às gerações futuras nos mais de 40 filmes que dirigiu. E dizia pra quem quisesse ouvir: “Posso dormir quando estiver morto”. Que o genial homem, portanto, depois de uma conturbada e curta existência, durma em paz.

 

  •      Antes, muito antes disso tudo, nascia o filósofo Aristóteles, no ano 384 a.C., discutindo depois se poderia ou não existir um ser humano imaginário. E assim se expressou com dignidade: O homem ideal é altruístico porque é sábio… Não fala mal dos outros, nem sequer dos inimigos, a não ser que o faça diretamente a eles… Não guarda rancor e sempre esquece as injúrias… Em resumo, é um bom amigo para os outros porque é o melhor amigo de si mesmo. E acrescenta adiante que ele sente prazer em fazer favores a outros homens, mas envergonha-se quando outros lhe fazem favores.

É, meu caro Aristóteles, parece que não existiu ou existe neste mundo pessoa tão perfeita.

 

  •     O que dirá, então, o genial Charles Chaplin, autor da obra- prima Luzes da cidade? No entremeio de O grande ditador, ele satiriza principalmente Hitler quando na antológica seqüência brinca com o globo terrestre como se fosse uma criancinha. Queria, óbvio, dominar o mundo. Mas, no final, Carlitos proclama uma bela mensagem: Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… De fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto, lutemos por um mundo novo… Um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. Neste mundo há espaço para todos.

Creio, por conseguinte, que Aristóteles se contentaria se pudesse ter escutado Chaplin falar. Infelizmente eles viveram em épocas bem distantes. Mas, não teria sido um espaço e passo para homens e mundos ideais?

  

 

 

                                                                     Bené Chaves é autor, entre outros, do livro A Explovisão.