O escritor William Faulkner tinha boas lembranças de seu emprego num
bordel. “Para um artista, é o melhor lugar”, declarou, “Têm-se liberdade
econômica, um teto em cima e quase nada para fazer, salvo cuidar de umas
escriturações simples e ir mensalmente pagar à polícia local. O lugar é quieto
durante as manhãs, o melhor momento do dia para a literatura. E há bastante
vida social à noite, o que afasta o tédio”. Hilda Hilst mudou-se para um sítio
isolado, onde escrevia durante o dia, e aguardava a visita de discos voadores
ao anoitecer. Para Ernest Hemingway, os melhores lugares eram os
hotéis. “Basta uma cama, uma boa mesa e um quarto limpo.” Françoise Sagan
exigia apenas que o lugar fosse bastante iluminado. Caio Fernando Abreu não
escrevia sem uma rosa amarela e uma foto de Virginia Woolf à sua frente.
Balzac escreveu a sua Comédia Humana trancado secretamente em um
quarto minúsculo, fugindo de credores. Nelson Rodrigues criava seus
personagens em meio ao burburinho frenético das redações de jornal. Anton
Tchekhov elaborava a maior parte de seus contos entre consultas médicas e
diagnósticos. Clarice Lispector escrevia com a sua Olivetti no colo, entre os
filhos e os afazeres domésticos. Gustave Flaubert fazia dos corpos de suas
amantes sólidos apoios para a pena e os papéis.

Dorothy Parker levava seis meses para escrever um conto. Primeiro imaginava-
o do início ao fim, só depois se sentava para escrever frase a frase. Ela nunca
tinha o primeiro esboço porque não conseguia escrever cinco palavras sem
modificar sete, como dizia. Dorothy Canfield Fisher comparava a redação de
um primeiro rascunho a uma descida de esqui por uma encosta íngreme, que
ela não tinha a certeza de ser bastante hábil para realizar: “Eu escrevia tão
depressa quanto o meu lápis permitia, indicando palavras inteiras com os
meus rabiscos”. Frank O’Connor preferia escrever o que lhe viesse à cabeça,
ou ao papel, sem julgamentos. Acreditava que no emaranhado de ideias
apareceria o contorno principal da sua história. William Styron confessava ter
uma necessidade neurótica de melhorar cada parágrafo, até mesmo cada

frase, à medida que escrevia, o que tornava o ato de reescrever interminável.
Françoise Sagan levava no máximo três dias revisando cada novela. A maior
parte do tempo era dedicada a eliminar vícios literários: “Adjetivos, advérbios e
toda palavra que lá estivesse apenas para produzir efeito”. Georges Simenon
era da mesma opinião. “Corto tudo que for muito literário”, declarou uma vez
em uma entrevista, “Se me deparo com uma bela frase, por exemplo, elimino-
a”. A beleza para ele era na maioria das vezes apenas decorativa. Julio
Cortázar achava por bem desconfiar sempre dos seus textos, se
não “corremos o risco de nos tornarmos cegos como aquelas mães que julgam
os seus filhos os mais belos e inteligentes de todos, e assim esperam que o
mundo inteiro faça”. Clarice Lispector não relia os seus livros depois de
entregá-los à editora. “Tenho náuseas”, dizia.

William Faulkner não era contra a técnica, mas achava que ela muitas vezes
assumia em demasiado o comando da imaginação artística, antes que o
próprio escritor pudesse deitar-lhe a mão. “O trabalho assim não é mais do que
uma questão de ajustar os tijolos uns sobre os outros. Já que o escritor
provavelmente sabe cada palavra que virá até o fim antes de escrever a
primeira.” Difícil tarefa de manter a vivacidade dentro de uma forma, ele
considerava. “O objetivo de todo artista é deter o movimento, que é a vida, por
meios artificiais, e conservá-lo fixo, de modo que, cem anos depois quando um
estranho o fitar, ele se mova novamente.”Henry Miller descobriu com o tempo
que a sua melhor técnica era não ter técnica nenhuma. “Jamais achei que
deveria aderir a qualquer maneira de tratar um tema. Permaneço aberto e
flexível, pronto para seguir a direção dos ventos ou das correntes de
pensamento.” Truman Capote buscava manter um domínio estilístico e
emocional sobre o que escrevia. Para ele, uma história poderia ser arruinada
por causa de um ritmo equivocado de uma frase ― principalmente se for na
parte final, ou por um erro na divisão dos parágrafos ou de pontuação. “A arte
de escrever possui leis de perspectiva, luz e sombra, assim como a pintura e a
música. Se a gente nasce conhecendo-as, ótimo. Se não, devemos aprendê-
las e depois readaptá-las para que se ajustem a nós.” Katherine Anne Porter
buscava como escritora uma visão singular para os acontecimentos. “É aí que
começa o trabalho, com as consequências dos atos, não com os atos em si
mesmos. É nas reverberações, nas implicações que o artista trabalha.”

Henry Miller um dia cortou o cordão umbilical com a literatura. “Abandonei as
influências e resolvi escrever partindo de minha experiência, daquilo que eu
sabia e sentia. E isso foi a minha salvação.” Deixou de ser um literato para ser
um escritor, como ele disse. “Abandonei as ideias e os conceitos em prol da
vitalidade.” Em busca da pulsação vital da palavra escrita, muitos escritores
equivocadamente olham mais para fora ― para aquilo que chamam de
realidade ― do que para dentro ― para aquilo que chamam de sonho ou
imaginação, lamentou Paul Valéry. “Lançar mão da realidade é uma espécie
de embuste”, considerava Françoise Sagan, “A arte deve colher a realidade de
surpresa”. Para a escritora, a arte não deveria inculcar o real como sendo uma
preocupação. “Nada é mais irreal que certos romances chamados realistas ―
e que não passam de pesadelos. É possível conseguir ― se num romance
certa verdade sensorial ― o verdadeiro sentimento de um personagem ― eis
tudo. A ilusão da arte por certo é fazer com que se acredite que a grande

literatura é muito ligada à vida, mas exatamente o oposto é que é verdadeiro.
A vida é amorfa; a literatura, formal.” Ernest Hemingway considerava a busca
da vitalidade, e não da realidade, a sua saga literária. “De todas as coisas que
se sabe e das que não se sabe, a gente faz algo através de nossa invenção,
que não é uma representação, mas é algo inteiramente novo e mais
verdadeiro do que qualquer coisa verdadeira e viva. A gente lhe dá vida. Pelo
tempo que dura uma leitura, e pelo tempo que a leitura ressoar em alguém, lhe
dá imortalidade. Eis aí por que se escreve.”

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Originalmente publicado no
jornal Rascunho, na edição de março de 2009