Versos de Marize Castro exploram os extremos do eu lírico
Sábado, 21 de Setembro de 2012, 19h00
MOACIR AMÂNCIO
Habitar Teu Nome é o oitavo livro de poemas de Marize Castro. A poetisa vive em Natal e discretamente vem publicando suas coletâneas marcadas por uma linguagem enxuta mas não anêmica: o tom de surdina parece ter o objetivo de fazer destacar a vibração delicada e ao mesmo intensa dos versos.
Desta vez temos um poema-livro, não obstante o sumário, pois este na verdade serve mais para sugerir que se trata de um texto em fragmentos, o qual, portanto, pode ser lido em seus estilhaços. Será sempre uma leitura de textos independentes e relacionados entre si, num jogo de reflexos que se iluminam e distorcem.
Nos extremos circulam Eros e Tânatos de maneira obsessiva; há todo um imaginário mediterrâneo que poderíamos considerar o espaço virtual dessa poesia. Nada melhor que o mito para se descortinar o atemporal. Uma referência não referente.
Seguindo a mesma linha, a perspectiva do eu lírico muda sutilmente até o ponto de perder os contornos do macho e da fêmea sugerindo um ser em movimento, intangível portanto: “Acostumou-se a ser invisível /acostumou-se a ser só // pássaro” ( pág. 30). Um ser fluido num ambiente fluido, como aquelas impossíveis criaturas de Escher. Nem Eva nem Adão – sim, há, uma ressonância bíblica na poética de Marize. O nome conferiria a própria materialidade, mas diante de sua ausência, fica o vivido-imaginado.
MOACIR AMÂNCIO É POETA, PROFESSOR DE LITERATURA DA USP E AUTOR DE ATA (RECORD)
HABITAR TEU NOME
Autora: Marize Castro
Editora: Una
(70 págs., R$ 20)