Bené Chaves

 

Þ          Falemos um pouco do amor, essa palavra-chave encontrada entre todos aqueles que se dizem humanos ou racionais. E sobre o mesmo, assim expressou-se Karl Marx: “se amas sem provocar uma retribuição em amor, isto é, se teu amor não suscita o amor em paga; se, manifestando tua vida como homem amante não fazes de ti um homem amado, teu amor é impotente, é uma desgraça”. E conclui ele então que “a relação imediata, natural, necessária do homem ao homem é a relação do homem à mulher”. Aliás, de acordo com o filósofo francês Emmanuel Mounier (1905/1950), “o ato de amor é a mais firme certeza do homem”, pois, então, dizia ele, “…amo; logo, o ser é e a vida vale a pena de ser vivida”. Porque, inclusive, “amar um ser é amá-lo faça ele o que faça, dar-lhe de certo modo um crédito ilimitado, incondicional”, na tese fundamentada pelo filósofo Gabriel Marcel, autor e crítico teatral, nascido em Paris no ano de 1889.

Aliás, no belo filme Hiroshima meu amor, de Alain Resnais, 59(onde escrevi um texto para o livro “Clarões da Tela – o cinema dentro de nós”, organizado pelo historiador Marcos Silva e por mim), se tem o exemplo de um enorme e puro afeto, talvez, absoluto. Paralelamente aos atos e efeitos de uma guerra insana, o seu realizador tece um insólito e sensual caso de amor entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês. E assim eles começam a evocar lembranças e a pensar no futuro como desdobramento de uma intensa paixão vivida. Poder-se-ia dizer que é uma película além de um simples sentimento, porque marca profundamente toda a história dos homens e das mulheres, suas conseqüências ou não.

 

Þ           Sobre o amor à vida, volto ao grande autor argelino Albert Camus que já dizia: “eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida”, mesmo sabendo que “constatar o absurdo dela não pode ser um fim, mas apenas um começo”. Ao que completa Santo Agostinho: “mas ninguém é feliz a não ser vivendo e ninguém vive se não existir”, porque, sabia o célebre filósofo e historiador britânico David Hume que “se todas as criaturas fossem incapazes de sofrer, o mal nunca teria acesso ao universo”. E, então, “os homens e as mulheres não seriam apenas os portadores de seu passado, os herdeiros de um mundo, os responsáveis de uma série de atos: seriam também as sementes do futuro”, na sábia concepção do romancista e poeta francês Louis Aragon (1897/1982). Inclusive, conforme visão do teólogo e paleontólogo francês  Teilhard de Chardin, “na verdade a vida procede a golpes de sorte; mas a golpes de sorte reconhecidos, apreendidos, isto é, psiquicamente selecionados”.

Platão já teria falado de que “é o corpo de tal modo que nos inunda de amores, paixões, temores, imaginações de toda sorte, enfim, uma infinidade de bagatelas – que por seu intermédio não recebemos na verdade nenhum pensamento sensato; não, nem uma vez sequer!”. Completa, então,  dizendo: “o corpo é uma coisa má, e enquanto nossa alma estiver misturada com ele, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos, que é a verdade”. Porque, afinal de contas, “tudo o que se tem por evidente não é mais que preconceito… todos os preconceitos não são mais que obscuridades vindas de uma sedimentação da tradição”, diria Edmund Husserl. E a verdade, nesse caso, poderá ser uma evidência das discriminações ora estabelecidas.

 

Þ           Falemos agora um pouco sobre o sonho, esse enigmático conjunto de imagens que se formam seja no sono ou fora dele. Já dizia o filósofo Barrows Dunham no livro ‘O Homem contra o Mito’, citado aqui anteriormente, que “os sonhos que os homens têm quando dormem são fragmentários e confusos. Os que eles têm quando estão despertos transformam-se na substância de um mundo”.

              Embora o psicanalista Sigmund Freud tenha dito que “eles são    a realização de um desejo (no sono seria pouco provável), na maioria das vezes sonhamos dormindo verdadeiros absurdos. É como se estivéssemos em um labirinto a tentar solucionar o insondável. Aparece então um mundo totalmente surrealista, dando ensejo a mil interpretações, com isso trazendo à tona também o cineasta Luis Buñuel com seu filme Um Cão Andaluz, realização de 1928 sob a égide onírica.

E temos outros exemplos, como no filme Morangos Silvestres (Bergman, 57). Na sua melhor e principal seqüência mostra o pesadelo do personagem, condicionando todo o resto da fita, num prolongamento das ações e reações inconscientes ou não do mesmo, dando um sentido de grande alcance ao seu desdobramento.

E quem não gostaria de viver sempre sonhando com a felicidade sem exceção nesta injusta vida de perdas irreparáveis e constantes violências? Porque, inclusive, “este mundo é o mundo da vontade de poder e nenhum outro; e tu mesmo, tu és assim, esta vontade de poder e nada mais”, dizia o pensador Friedrich Nietzsche, talvez querendo sufocar o desejo veemente do homem pela ambição total.

 

Þ          No livro Ana-não, o escritor espanhol Agustín Gómez-Arcos (que se refugiou na França desde a década de 60) nos conta a densa história desta incrível mulher Ana Paúcha, que viveu durante a Guerra Civil de 1936-39. E esse extraordinário romance começa assim: ‘Ana Paúcha acorda. Deixa a tua casa antes que ressurja o sol. A lua está morta. Ninguém te verá partir. Ninguém. Nem animal. Nem estrela. Não deve haver testemunhas do que tens de fazer. Deves empreender a viagem com dignidade, sem medo. Com a esperança de que não serei tão mesquinha contigo quanto a Vida’. E tem o desfecho não menos sublime, definitivo: ‘A neve recomeça a cair, serena, fiel, envolvendo no seu sudário o cadáver de uma mulher chamada Ana Paúcha, de setenta e cinco anos, que foi esposa, mãe e viúva de quatro homens Paúchas, ceifados pela guerra civil espanhola e suas prisões de ódio’.

A narrativa apaixonante de Gomez-Arcos torna seu romance   um dos melhores momentos da literatura universal, principalmente no que diz respeito à condição humana, revelada aqui de forma instigante.

 

                    Bené Chaves é autor, entre outros, do

      livro O menino de sangue azul.