Foram muitos os veraneios que deixaram saudade. Em minha adolescência lá pelo início dos anos 70, os mais afortunados já possuíam uma radiola portátil Phillips que funcionava a pilha. Aquela, do tipo maleta, que a própria tampa servia como auto-falante. Com esses modernos aparelhos fazíamos freqüentemente e sempre após o jantar, festinhas conhecidas como “assustados”, onde dançávamos ao som de Roberto Carlos, Renato e seus Blue Caps, Elis Regina, Chico Buarque e outros cantores do tempo da Jovem Guardam. Vez por outra, alguém conseguia com os pais, depois de muita recomendação, algum disco em 78 rotações ou os modernos LPs com músicas cantadas pelo velho Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Silvinho, Altemar Dutra, Sílvio Caldas, e até de Dick Farney e da divina Elizete Cardoso, os mais difíceis. Estes eram escolhidos pelas músicas mais lentas que dançávamos a luz de velhas lamparinas a querosene.

Os que preferiam dançar samba, traziam discos de Miltinho, Demônios da Garoa, Wilson Simonal, Ataulfo Alves, Noel Rosa e tantos outros. Achavam o bolero mais difícil de dançar, mesmo conhecendo a velha regra: dois prá lá, dois pra cá, posteriormente imortalizada na canção de João Bosco e Aldir Blanc na voz da inesquecível Elis Regina. Esses “assustados” eram raramente feitos nos alpendres das nossas casas. Na maioria das vezes, para fugir das vistas de nossos pais, sempre atentos aos que dançavam com mais ousadia, conseguíamos, com muito jeito, a sala das casas dos nativos que ainda moravam na rua de baixo. O local era bem mais aconchegante, o chão de barro batido, lamparina em cima de tamborete ou pendurada em esteios da parede de taipa. Ainda lembro-me dessas lamparinas penduradas nos enxaiméis, tisnando a parede e exalando aquele cheirinho característico da queima do querosene. Ali, a presença de curiosos era praticamente nenhuma. Nessas saudosas casas de reboco, além de ficarmos protegidos da vista dos curiosos, sabíamos que nossos pais não se abalariam de suas redes nos alpendres para nos vigiar, afinal de contas, não havia motivos para preocupação, já que éramos todos primos. Além do mais, estavam mais interessados nos carteados, sempre muito disputados ou nas animadas conversas políticas.

Lá pelas 10 horas da noite, depois que nossas parceiras se recolhiam, íamos para a beira da praia jogar conversa fora, tocar violão, ou mesmo programar alguma traquinagem.

Uma das preferidas era o roubo de galinhas, que sempre terminava na casa do saudoso Deda, que sempre nos recebia com aquele sorriso largo onde orgulhoso, exibia um enorme e cintilante dente de ouro.

Esse personagem, que é parte importante da história da Pipa, teve no boca-a-boca um grande aliado na divulgação de sua arte na cozinha e também como senhorio. Alugava, por preços módicos, cômodos de sua modéstia moradia onde hoje funciona a “Pousada da Bárbara”. Costumo dizer que ele foi o primeiro dono de pousada naquela região. Essa condição o tornou muito conhecido, inclusive internacionalmente. Os poucos “gringos” que chegavam à Pipa, logo perguntavam por Deda. Com aquele sotaque esquisito e falando bem enrolado com se a boca estivesse cheia de línguas, logo conseguia pronunciar o som daquelas quatro letras mágicas que tinham o poder de resolver os principais problemas daqueles longínquos visitantes: lugar pra dormir e boa comida a base de peixe e frutos do mar, abundantes naquela época.

As brincadeiras de roubar alimentos dos veranistas sempre estiveram entre as nossas preferidas, pois naquela época, tudo tinha que ser trazido de Natal, ou esperar o domingo pra comprara na feira de Goianinha. As bodegas da Pipa pouco ofereciam. Vendiam exclusivamente os gêneros alimentícios comuns à população local.

Certa vez, numa manhã de véspera de Natal, a turma de “biriteiros” apareceu na residência do casal, Veneide e Elviro. Já vinham naquela peregrinação de casa em casa, tomando todas e conversando miolo–de-quartinha. Lá pras tantas, meu irmão Dante Simonetti, em uma das idas ao banheiro, observou que em cima da geladeira se encontrava, totalmente indefeso, um apetitoso queijo do reino ainda lacrado, naquela conhecida embalagem redonda. Lá estava ele, imponente como se quisesse tomar o lugar cativo do famoso pingüim. Diante daquela visão, Dante não se conteve: quando retornou do banheiro, passou direto para sua casa que ficava praticamente vizinha, e o queijo. . . desapareceu.

Lá para as tantas, quando saímos da casa de Elviro, fomos surpreendidos com o convite de Dante, que já nos esperava no portão, para que fossemos á sua casa, retribuindo assim a visita. Lá, o principal tira gosto era queijo do reino que partido em generosos pedaços, foi avidamente consumido pelos presentes, já que esse tipo de tira-gosto normalmente não fazia parte do nosso cardápio de “paredes”.

À noite, quando preparava a mesa para a ceia de Natal, a ingênua prima Veneide deu pela falta do queijo. Depois de por a casa de cabeça para baixo, e não encontrando o que procurava, repetia sem parar: “Elviro, tenho certeza que o coloquei em cima da geladeira. . . Não é possível que um rato tenha levado o queijo com embalagem e tudo . . .”

No dia seguinte o delito foi revelado numa animada conversa na própria casa do casal, que depois de boas risadas, ainda se sentiu privilegiados por ter, pelo menos, participado da farra onde o “JONG” foi consumido e muito elogiado por todos.