Manoel Marques Filho

Antonina se espreguiçou no ônibus apertado, cuja cadeira pequena quase não deixava espaço para o seu gesto e se pôs a divagar em pensamento cada vez mais insistente e desagradável, mas de uma dimensão que não lhe dava espaço para fugir daquela idéia autoritária e renitente.

Estava grávida de três meses e por diversas vezes fora pega pelos desejos inflexíveis que a obrigavam a comer alguma coisa de uma forma incisiva.

Era criado em si um tipo de necessidade compulsória que extrapolava a sua vontade própria, o seu livre arbítrio, por outra vontade mais forte, vinda das suas entranhas, como se o menino que carregava no ventre a obrigasse a comer algo, comida que às vezes fugia à razão humana.

Angustiada Pensava: Mas meu pequenininho, inocente, não poderia ter uma vontade que submetesse a minha razão dessa forma, ele que ainda nem está formado de todo.

Lembrou-se da noite de um domingo, já de madrugada, quando foi compelida a comer um prato de feijão adoçado com meio quilo de açúcar.

Comera, outra vez, às cinco da manhã uma jaca inteirinha, cuja vontade insistente a obrigou a caminhar mais de um quilometro até um mercadinho que vendia a iguaria, tendo trazido a pesada fruta em uma sacola até a sua casa, apressada, quase que a devorando em plena rua, tal a dimensão daquela vontade dominante.

Outro dia comera as rosas vermelhas do jardim, das suas muitas roseiras, incluindo todas as rosas e todos os botões.

Mas aquela vontade que agora sentia no ônibus calorento, naquele quase meio dia, era desejo intrigante e deplorável, que fugia à razão humana.

Sabia de um caso estranho acontecido com uma sua tia avó, em anos idos, que resultou em um apelido infame que o seu primo José adquiriu antes mesmo de nascer.

O apelido do seu primo era Zé do Ovo e veio da fase mais longínqua da sua vida, de tão longe que quando a parteira o segurou em uma manhã de dezembro, já nasceu ele Zé do Ovo, em virtude de um fato curioso acontecido durante o período de gravidez da mãe, quando ela expressou o desejo de mulher grávida da maior estranheza que se tem notícia no mundo.
Em uma madrugada chuvosa de inverno forte do mês de São João, Zefa acordou o marido com um desejo voraz de comer alguma coisa.

Antes de contar qual o desejo de Zefa, vale relembrar que dos casos normais de desejos de mulher, sua tia Anastácia teve o desejo de comer um jerimum grande inteirinho, senão ela ira perder o filho ou o menino iria nascer com cara de jerimum.

Sabia-se também de Sabina, prima distante, que desejou comer um alguidar de tamarindos, senão o menino poderia morrer ou nascer com a cara de careta, coisa decorrente da ausência da comida dos frutos azedos, que comidos uma vez só por ela durante a gestação apagaria aquela fome exagerada por frutos azedos.

Ingeridos os frutos, o menino nasceria normal, uma vez que a cara de careta ficaria restrita à mãe, naquele momento de ingestão do alimento, conforme a justificativa da mulher, que salivava muito enquanto fazia o pedido que foi de pronto atendido.

Não se sabe o porquê, mas o menino nasceu muito feio. Mas isso é uma outra estória…

Antonina, sua prima distante, desejou às quatro da manhã, com o nascer do sol, comer cocô de peru.

Foi até o galinheiro, onde se encontrava o peru cevado que destinavam para o dia de Natal e comeu um pires inteirinho do seu cocô. Depois, alguém muito falador fizera comentários lógicos, dizendo que se a mulher não tivesse agido daquele jeito o menino iria nascer com a cara de bosta.

Mas o desejo de Zefa foi bem diferente.

Em plena madrugada, armou-se de uma faca e implorou ao marido que ele a deixasse comer um dos seus testículos, assado no fogão à lenha. Dito isto, partiu para arrancar as suas roupas, roncando de fome de testículo e dizendo: Deixa Bastião, é só um ovinho. Prometo só arrancar um. Você ainda fica com o outro, amorzinho! Deixa! Deixa!

O pobre marido, muito assustado, pinotou da cama e conseguir escapar pela janela.

Disparou em uma carreira, onde desesperado furou-se nos arames das cercas dos sítios vizinhos, até chegar à casa do seu tio Zeca, de onde não mais saiu até o dia do nascimento do filho.

Assim, com a notícia espalhada pela vizinhança sobre o fato estranho, quando a mãe revelou aos sete meses de gravidez que o nome do filho, se homem fosse, seria José, o pobre inocente já nasceu com o apelido de Zé do Ovo. De quebra, o pai ficou pelo resto da vida conhecido como Bastião Capado.

Relembrando aqueles fatos acontecidos em família, Antonina se apavorou, travando uma luta no interior da sua mente contra aquele pensamento que dela havia se apoderado, pensamento materializado e convertido em alimento de sabor sem igual, em delícia nunca sentida por qualquer humano, que ela sabia através do outro pensamento que guerreava em contraposição frágil, ser coisa deprimente e asquerosa.

Colocando toda a força de vontade para fora, tomou uma decisão. Iria vencer aquele pensamento cruel que se incidia contra a sua vontade, contra a própria razão humana.

Para isso usaria uma tática, lembrando-se que deveria pegar outro ônibus para chegar à sua casa.

Quando desceu do ônibus para esperar o outro transporte que iria para o seu bairro, foi correndo ao orelhão da parada e ligando desesperada para o marido implorou:

Severino, pelo amor de Deus dê um fim no cachorro senão eu faço uma besteira.

Vá depressa ao quintal e solte Danúbio, bote-o para os quintos dos infernos, porque se eu chegar estando ele ainda aí eu não vou resistir ao meu desejo de comer xixi de cachorro com areia, daquela areia mais grossa.  É isso, vou comer pirão de xixi de cachorro com areia!!!

Subiu no outro ônibus e sentiu-se uma vitoriosa e frustrada ao mesmo tempo.

Sentia na boca a delícia do que seria o pirão de xixi de cachorro com areia que não mais iria saborear. Sentia o menino em formação, nas suas entranhas, maldizendo a sua decisão que derrotava a materialidade do desejo asqueroso e saboroso que nela havia se alojado de forma tão intensa.

O seu outro pensamento opositor, debilitado, que se opunha ao outro pensar arrogante que a obrigava a um ato tão nojento, se deliciava cauteloso da vitória obtida, compreendendo a força maléfica daquele pensar insano que tinha tanto poder naquele mente  fragilizada de mulher gestante.
Finalmente antonina chegou a sua casa e encontrou o marido sorridente, que satirizando o seu desejo de gestante, perguntou:

- E agora, o que vai ser do menino sem o pirão de xixi de cachorro?

-Ai, sei não. Se o desejo é descumprido o bebê nasce com a cara da comida do desejo.

Se a mãe não comer jaca, nasce com cara de jaca. Se a mãe não comer mamão, nasce com cara de mamão. E assim por diante…

- Ora mulher, mas xixi de cachorro não tem forma, desce para a areia e some quando ela seca.

- Mas Severino, o menino fica do jeito do desejo pensado. E o desejo é mesmo pirão de xixi com areia grossa, não vale quando a areia secar.

- Ora mulher, isso não tem forma pra menino ficar perecido. Jaca e mamão podem se parecer com uma cabeça mal feita, mas pirão de xixi não tem nada a ver com forma humana. Xixi de cachorro é amarelo e areia grossa é algo poroso, pedrinhas minúsculas que se atritam com outras pedrinhas diminutas.

- Ai meu Deus. Tem sim Severino.

E chorando, em prantos irracionais, concluiu dolorida, ferida na essência da alma:

- Ai minha Nossa Senhora! Meu menininho não vai ser nem gente. Vai ser um bichinho amarelinho e crocante.