O sentido da vida é outro

Por Maurício Ayer e Renato Rovai  [Sexta-Feira, 11 de Abril de 2008 às 17:52hs]

Alguns anos atrás, o professor Alfredo Bosi declarou que Ferreira Gullar é o maior poeta brasileiro vivo. Gullar se diverte, dizendo que teve a sorte de viver um pouco mais que os outros. E também que ele não poderia ser chamado de outra coisa além de poeta.

O fato é que esse maranhense, hoje aos 78 anos, ocupa um lugar especial na história recente da cultura brasileira. Fica feliz de ser lido e relido tanto por consagrados intelectuais – Sergio Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes, por exemplo, eram seus admiradores declarados – quanto por jovens, que às vezes descobrem a poesia pelos seus versos.

Nos últimos anos, vários prêmios recolocaram o seu nome em circulação, como o Jabuti de “Melhor Livro” no ano passado com as crônicas de Resmungos (Imprensa Oficial), que repetiu o feito de Muitas Vozes (José Olympio), que ganhou na categoria “Poesia” em 1999, e o prêmio Machado de Assis em 2005, o mais importante conferido pela Academia Brasileira de Letras.

Nesta entrevista exclusiva, Ferreira Gullar relembrou um pouco de sua história, como a experiência do exílio. Por ter sido filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e ter dirigido os Centros Populares de Cultura (CPCs) em 1962, foi visado pelos militares depois do golpe e acabou exilado, passando por vários países, entre os quais o Chile, onde presenciou, em 1973, a derrubada de Salvador Allende.

Nas páginas que seguem, as memórias se misturam com a descrição do espanto com o novo, origem da criação poética, revelando um humanismo profundo e poético, que contamina a visão de Gullar sobre a política. “Sou um otimista”, declara, com base na crença de que o mundo, que é criação humana, pode ser mudado. Mas descrê no caminho revolucionário, tido como uma solução demasiado simplista, incompatível com a vida real, que é “complexa e difícil”. “Revolucionária é a classe média, não o povo”, polemiza. Confira.

Fórum – Antes de entrar na questão dos livros, uma pergunta sobre método de trabalho: o senhor tem um trabalho regrado, com horários definidos?

Ferreira Gullar – Não, não. Tenho tempo disponível porque não tenho emprego nenhum, vivo de escrever, fazer palestras, participar de debates, então regulo meu tempo de acordo com as obrigações que tenho.
Quando trabalhei no Jornal do Brasil, em 1959, colaborava em uma seção chamada “Rodízio”, onde cada dia da semana escrevia alguém. Escrevia às quartas-feiras, já faz um certo tempo, mas fui demitido. Sou demitido de todos os jornais em que eu trabalho. Depois disso fiquei um tempo sem escrever. Quando nasceu o Pasquim, comecei a colaborar, mas era uma coisa esporádica. Depois fui para o exílio, e escrevia também, com pseudônimo, para alguns jornais alternativos.

Fórum – Para quais jornais alternativos você colaborou na época?

Gullar – Pasquim, Opinião, fiz matéria para a revista Veja também, algumas coisas que saíam com pseudônimo. Até porque era arriscado. Eu era redator do Estado de S.Paulo quando fui para o exílio, era copidesque aqui na sucursal do Rio. E depois, quando tive que sair do jornal, reduziram meu salário, mas continuaram pagando. O que foi uma grande ajuda para minha família, mas eles não queriam saber de eu colaborar em nada. Quando estava no Chile, em 1973, na véspera da queda do [Salvador] Allende, a situação fervendo lá, propus escrever sobre isso, mas o jornal mandou dizer que não queria não.

Fórum – Estava no Chile na queda do Allende?

Gullar – Estava. Cheguei no Chile, em maio, antes estava em Moscou. O país era para muitos um porto seguro, um abrigo, sobretudo pelo caráter do governo. Mas a situação àquela altura já era diferente, iniciaram uma greve de transportes que atingia a todos, afetando o transporte urbano, de mercadorias, pelo país inteiro. Tudo pago pela embaixada americana, tudo pago. A inflação estava enorme, então o cara dava US$ 5 para cada caminhoneiro e era uma fortuna. Eu pagava US$ 2 pelo apartamento onde eu morava, um apartamento duplex, tinha três quartos e eu pagava US$ 2. Parou o país inteiro.
Allende morreu por volta do 12h do dia 11 de setembro [de 1973] e às 16h acabou a greve. Era para acabar com o governo mesmo. Mas a esquerda contribuiu bastante. A extrema esquerda fazia tudo o que os caras queriam. Fechavam o caminho para o aeroporto, incendiavam pneus e cobravam pedágio para o cara passar. Isso com o governo deles, de esquerda, desmoralizando o governo.

Fórum – Na época, o senhor já tinha clareza disso?

Gullar – Evidente, sempre tive horror a esse tipo de coisa. No Brasil, já tinham me convidado para a luta armada e eu sempre negava. É tudo bobagem. Esse negócio de “quem sabe faz na hora não espera acontecer”… Besteira, não existe isso, a vida é complexa e difícil.

Fórum – O senhor estava filiado ao PCB?

Gullar – O partido tinha feito tanta cagada que já tinha aprendido. Aprendi isso com o partido, já sabia que não era assim. Era um negócio óbvio, a ditadura era fraca politicamente porque era ilegítima, ninguém votou para eles estarem no poder, tomaram na marra. Mas militarmente eram fortes. É o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e todas as polícias… Não quero brigar, vou desafiar Mike Tyson pra brigar no ringue? Eu desafio o Mike Tyson para discutir literatura comigo (risos).

Fórum – Tem uma esquerda que acredita muito no poder das armas, você não acha isso….

Gullar – Sim, mas é uma visão equivocada. É uma coisa grotesca, você supõe que, se está defendendo o direito da maioria, ela vai te apoiar. Você não precisa dar golpe se o povo está contigo. O problema é que o povo não estava. Você não viu o Lula, enquanto ele ficou fazendo ameaças de todos os tipos ele não foi eleito, na hora que começou a virar bonzinho, foi eleito. Porque o povo é mais sensato do que esse pessoal, o povo está cuidando do interesse dele, não é revolução.

Fórum – Pragmático, não?

Gullar – Posso ser revolucionário, porque tenho um tio ou uma avó que depois sustentam minha família e me dão dinheiro. Agora o cara que é pobre, o pai dele é pobre, o irmão dele é pobre, todo mundo fodido, faz uma greve é posto para fora, acabou. Então nem faz, é uma coisa equivocada. Revolucionária é a classe média.
O capitalismo não foi inventado por ninguém, nasceu do processo histórico e econômico. E é como a natureza, ele é criativo, vital e injusto, se não frear o capitalista ele suga a jugular da mãe dele. Marx diz isso, não é o capitalista que é o mal, não se trata de pessoas. Qualquer um que vive como capitalista vai fazer o que o outro fez porque, como diz o Marx, o capital comanda o capitalista. O capitalismo é isso, então o que você tem que fazer é impedir que ele aja sem limites.
Uma das funções que o Estado tem hoje é impedir que o sistema explore as pessoas sem nenhum limite, sem nenhum controle, isso que tem que ser feito, tratar de melhorar as condições, já que você não pode mudar o sistema. Uma coisa é um sistema, que tem séculos que se implantou, e outra coisa é você desmontar isso e implantar um sistema inventado por você. Quando a burguesia tomou o poder político, ela já tinha o poder econômico, a sociedade já era burguesa e capitalista, ela só veio concluir. Quando os comunistas tomaram o poder na União Soviética o regime era capitalista, não era socialista, então você tem que desmontar um Estado capitalista para criar o socialismo. Não sou filósofo, nem cientista político, estou dizendo as coisas que penso em função da minha experiência.

Fórum – Sempre foi um militante?

Gullar – Sou otimista, acho que as coisas podem ser mudadas. Como costumo dizer, o homem inventa a si mesmo, e inventou a sociedade e o mundo em que vive. O homem não vive na natureza, vive num mundo cultural, que ele criou. O mundo é criado por ele, a partir da cidade, então pode ser mudado; se é inventado pode ser mudado. Está nas pessoas, no grau de consciência e de organização delas, mudar a sociedade, fazê-la melhor, dentro das possibilidades. Não basta criar um partido, um lema revolucionário que vai resolver os problemas. Qual é a forma eu não sei, é possível melhorar a sociedade sim, apesar de se dizer que o capitalismo não pode ser melhorado, ele pode ser melhorado, transformado por dentro.
Fórum – Estava relendo o seu livro Barulhos (José Olympio), que tem poemas que lembram crônicas, que partem de um fato inusitado do cotidiano.
Gullar – Costumo dizer que a poesia nasce do espanto, ela é a revelação de que o mundo não é o que você pensava, de que aquilo que parecia ser uma coisa é mais do que aquilo, ou é outra coisa. E é essa novidade de quando eu descubro que quero passar para as pessoas. Outro dia estava aqui sentado na poltrona vendo televisão, tocou o telefone eu fui me levantar para atender o telefone, meu fêmur colidiu com a minha bacia, aí fui lá, peguei o telefone, voltei e falei “peraí, eu tenho um osso dentro de mim, um osso real dentro de mim, que nem esta mesa aqui”.
Acidente na sala, minha poesia nasce dessas coisas, o cheiro da tangerina… Meu filho estava sentado abrindo uma tangerina e eu sou muito olfativo, fiquei tocado por aquela experiência. E o poema nasceu meses depois, não sabia o que escrever porque tudo o que eu tinha era um cheiro, mas sabia que havia um mundo envolvido com aquilo, então meses depois terminou nascendo o poema.

Fórum – Essa produção poética não é algo, digamos, que você pratica como um trabalho constante, que você senta para escrever?

Gullar – Não, não é. É absolutamente aleatório. Às vezes ocorre isso, mas considero que de fato a coisa mas importante pra mim é a minha poesia, é essa experiência, essa tentativa. No fundo você tem uma série de explicações, todo mundo tem, sobre a vida, mas quando ocorre determinado fato como esse da poltrona, da tangerina, é como se você não soubesse nada. É uma tentativa de dizer o indizível, de dizer o que não foi dito, então é essa experiência.

Fórum – Essa tentativa de dizer o indizível faz com que a poesia esteja sempre imbuída de um sentido trágico?

Gullar – Não sou muito da tragédia, mas a alegria também pode ser fonte da poesia. O poeta quer criar, ninguém escreve para torturar os outros, isso é coisa do DOI-Codi. Mesmo a coisa mais doida, quando vira poema para o leitor, é uma alegria. Alegria estética, alegria da beleza, da emoção. Sofro a emoção e escrevo para ele. Ele não sofreu a emoção, ele vive de graça a emoção, é uma alegria. A arte cria a alegria, não cria a tragédia… A maior tragédia dá alegria ao outro, não se trata de arrasar ou acabar com o outro. Claro, isso é minha visão, tem alguns escritores que são barra pesada, que eu não leio mais porque quero distância deles. Fazer literatura para dizer que a vida não tem sentido é uma coisa que eu não quero. Que não tem sentido eu já sei, o que eu quero é lhe dar um sentido.

Fórum – No seu livro Muitas Vozes (José Olympio), o senhor elabora a idéia de que sua voz convive com outras vozes que se manifestam nos poemas? Como é isso?

Gullar – Por exemplo, o João Cabral [de Mello Neto] queria só a voz dele nos poemas. Tudo que soava que não fosse dele ele eliminava. Era um tipo de exigência diferente da minha. A minha poesia é constituída de outras vozes além da minha, não só das vozes de outros poetas que leio, das coisas que aprendi, dos livros que li, dos amigos, das conversas, dos cheiros, tudo isso são vozes. Minha poesia é um alarido, basta apurar o ouvido. Quanto mais gente, comigo, melhor, é diferente de procurar uma coisa que esteja só uma voz falando. Até porque é impossível esta voz única que João buscava.

Fórum – Você chegou a ter uma relação com o João Cabral, do ponto de vista cultural?

Gullar – Antes de ele se ligar com os concretistas, até tinha uma proximidade, mas depois ficou difícil. Sempre nos demos bem, mas criou-se uma situação…

Fórum – Você já falou sobre os concretistas, mas queria recuperar essa história…

Gullar –
Não vale a pena. O João é tido como um poeta racionalista, mas isso é uma visão aparente.

Fórum – Ele dizia que não acreditava na inspiração.

Gullar – É tudo de araque. Agora o negócio da racionalidade é só ler, pois o pessoal vai acreditando no que ele fala em vez de ler o poema. Os poemas do João Cabral são todos uma loucura, construções loucas. O João tem que ser relido. Costumo contar uma história. Uma vez fui na casa do João e tinha uma porção de quadros concretistas e falei “João, tá na hora de mudar isso aí, esses quadros são chatos pra cacete. Tudo geometria”. E ele responde “Cara, tem que ter ordem em algum lugar porque dentro da minha cabeça não tem”. A fragilidade emocional do João e o tumulto que havia dentro da cabeça dele fazia com que ele buscasse fora a ordem pré-estabelecida para poder se regular. Por que ele odiava música? Por que a música é invasiva, desarticula, tira da racionalidade. É como uma defesa que ele fazia isso, a vida dele era muito complexa, não era uma coisa parnasiana que adota versos rimados e metrificados. Não é isso, é uma coisa muito mas rica.
Todos os concretistas são pessoas muito inteligentes e talentosas, não estou desfazendo, mas o problema é a opção feita. Comunicação rápida como nos anúncios de publicidade, não pode ser isso. O [James] Joyce mesmo dizia o contrário, “quero que o cara demore tantos anos para ler este livro [Ulysses] quanto levei para escrever”. Eu confesso que acho um saco aquele livro. É realista, e como todo realismo é chato e descritivo, sem transcendência, e para poder não ficar na coisa pobre entra no fluxo de consciência, que é superficial.

Fórum – Com relação à morte, que aparece em alguns dos seus poemas…

Gullar – Cedo ou tarde vai acontecer. Particularmente, não me angustio com isso, acho natural, às vezes até brinco e falo que “morrer é bom”. Mas é difícil você aceitar o seu fim. É uma coisa com a qual lido como outras pessoas lidam, e acredito que tenhamos que buscar uma resposta. Feliz de quem acredita em Deus e em outras vidas, mas pertenço àquele grupo que fez a pior escolha. Vai morrer e virar nada.
Mas acho que o sentido da vida é o outro. Tudo o que você faz só tem sentido se tiver valor para o outro. Quando digo que a vida é inventada e que pode ser mudada, e até para que eu exista, é preciso que você me reconheça. Não adianta eu dizer que sou Napoleão e você olha e vê que eu não sou. Não adianta dizer que é um ser bacana e todo mundo sabe que ele é um larápio. Você inventa, mas sua invenção tem que ser reconhecida pelo homem. Isso é a coisa da vida, às vezes você está só o frangalho, mas quer o respeito do outro.
Às vezes você diz coisas para as pessoas e não calcula o quanto você pode estar atingindo. Se o seu sentido é o outro e o outro te desanca, você vira um nada. Estamos permanentemente buscando no outro o reconhecimento, para existir, para ter sentido a vida. Só tem sentido se serve para o outro. O escritor escreve, o outro incorpora o que você escreve. A maior alegria que um escritor pode ter é o cara chegar para você e falar “aquele poema eu guardo no bolso, sei de cor”. O que isso significa? Que você ajudou o cara, enriqueceu a vida dele, de alguma maneira, você fez algo que serviu para sua vida. Esse para mim é o sentido.

Maurício Ayer e Renato Rovai