Francisco Alves da Costa Sobrinho

Sou bobão mesmo, há quem o diga e eu reconheço em plena convicção, quase com orgulho!

Ao tomar conhecimento que minha filha iria passar uns dias numa praia distante, lugar que eu tinha curiosidade em conhecer e pisar, talvez pelo inusitado do nome, de imediato me ofereci para ir buscá-la, de bom grado. Falei com o coleguinha dela, Iago, com a mãe dele, Dayse, e até com a avó, a simpática dona Rosa, as quais me disseram que poderiam dar um jeito de vir deixá-la tão logo ela quisesse. Mas eu insisti que não queriamos dar-lhes mais esse trabalho, que eu poderia e gostaria de ir buscá-la, até convence-las.

Me digam uma coisa: alguém em sã consciencia sairia de Natal para percorrer tantos quilometros (é longe, viu?), dirigindo-se sózinho até um lugar no litoral pernambucano, chamado Carne de Vaca? Pois eu fui. Digo mais: sai daqui demanhãzinha, todo ancho, sem nada no carro e uns trocados no bolso, disposto a desbravar lugares e conhecer gente de todo tipo, que é o lucro do bom andador, apurado de quem volta com o bisaco cheio de prejuizos, a pele queimada, o corpo cansado e o juizo bom!

Ao chegar no lugarejo, logo procurei me situar, perguntando onde era a casa de dona Rosa. Informado, fiz o reconhecimento: passei pela frente da casa de esquina, como quem não quer e querendo, e, não sendo ainda notado, tratei de escapulir em busca de conhecer para poder falar. Assim, estacionei o carro quase na beira da praia, na sombra de uma arvorezinha e perto de um mirrado coqueiral e fui a pé em busca de mais um boteco, caminhando até uma singela barraca praiana, feita de varas de mangue e palhas de coqueiro, tendo uma parede de taipa sem reboco; à titulo de pintura,  chamuscada de cal.

Era um boteco de verdade, de carne e osso e cheiro de pescoço, um barzinho… um templo! Interessei-me em saber de que se constitua tão minguado  estabelecimento e vi e fui informado que tinha cachaça (na verdade, uma aguardente arromba peito e uma primeira cabeçada, daquelas que papudinho lambe o beiço e vai logo inchando), além de umas quatro cervejas quentes e uns tira-gostos de frigideira.

Espantei-me um pouco (ou muito?) foi ao ver o nome do tão aprazivel boteco de beira-mar, mais sugestivo e temeroso do que o próprio nome do lugar, conseguindo suplantá-lo até em objetividade. O boteco, sou forçado a revelar, chama-se “Murro no olho” e é dirigido pela competencia de um caboclo, misto de sobra de indio com rastro de canoeiro, tipo João Soró, papudinho mais desaprumado do que saco cheio de velocipedes transportado por um perneta.

Aquilo é passagem de ciganos, tem pedra pra manejo e troca de cavalos,  e já foi esconderijo de escravos.  Certamente foi por ali que o poeta, completamente bebado,  viu a cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Feire e, nesse espanto, caiu em deliriuns tremens ou finalmente descompensou, diante de tantas conchas e pedras e oceanos feitos do fim pra ponta do seixas, dos parrachos pro alagamar, dos maceiós pras entranhas da terra e das concebidas mulheres de Carne de Vaca.

Soube por voz biritada que na praia vizinha, por trás do morro,  há  um boteco “- mais fulero do que este, tô dizendo pro senhor!”, de nome “Soco na cara”.